Trilhas da História, vol. 3

Memórias. Quanta obras artísticas já foram criadas sobre este tema? Difícil dizer. Em algum momento de nossa vida tivemos contato com alguma delas: um filme, uma poesia, uma pintura ou canção. Todas elaboraram formas específicas para lidar com as lembranças. Seja recuperando momentos significativos na trajetória de alguma personagem ou apelando para uma reconciliação com traumas responsáveis pelas cicatrizes que marcam nosso presente. No campo científico da história também há imensos debates sobre a memória, sobretudo por envolverem disputas sociais que mantêm vivas algumas lembranças e condenam outras ao apagamento. Quais memórias são lembradas? E quais foram esquecidas? Bom, os integrantes da Legião Urbana se envolveram nessa luta pela memória em torno da história recente do Brasil, através da canção ‘1965 (Duas tribos)’ e sua crítica feroz às atrocidades promovidas pela ditadura empresarial-militar.

Capa do álbum As Quatro Estações, Legião Urbana.
Fonte: http://www.legiaourbana.com.br/quatro.html

Durante os anos 1970 e 1980, Brasília teve uma efervescente cena musical e política. A capital do país, centro do poder ditatorial, vivenciou as experimentações e as rebeldias culturais de grupos da juventude ligados ao movimento punk e às novas tendências do rock internacional. A Legião Urbana foi apenas uma dentre as inúmeras bandas nascidas nesse período. Surgida em 1982, o grupo se consolidou no cenário musical brasileiro e, no final da década, lançou, com sua formação estruturada no trio Renato Russo, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá, sua obra mais bem-sucedida comercialmente: o álbum “As Quatro Estações”, de outubro de 1989. No final do ano anterior a banda havia se reunido em estúdio para pensar e organizar as novas composições do próximo álbum, o quarto de sua discografia, contando, ainda, com o baixista Renato Rocha. Em janeiro de 1989, o quarteto foi desfeito, mas os trabalhos prosseguiram até que as composições instrumentais ficassem prontas em meados daquele ano, posto que o processo criativo da banda seguia o fluxo de primeiro criar a parte instrumental para, em seguida, redigir as letras. No entanto, poucas letras haviam sido, então, elaboradas: ‘Há Tempos’, ‘Pais e Filhos’ e ‘1965 (Duas tribos)’.

O contexto político brasileiro esteve marcado pela realização de eleições diretas para presidente da república, algo que não ocorria desde 1960. Fernando Collor (PRN), Lula (PT), Leonel Brizola (PDT), Mário Covas (PSDB) e Paulo Maluf (PDS) foram alguns dos candidatos que se apresentaram para a disputa em 1989. Renato Russo redigira a letra de ‘1965 (Duas tribos)’ durante esse processo eleitoral, em um país recém-saído de um longo período ditatorial que havia deixado muitos saudosistas e um sem-número de agentes e agências políticas que permaneceram atuantes e influentes sob o novo regime político. A assim chamada ‘transição democrática’ operou com muitas continuidades políticas que se combinaram com importantes mudanças táticas. As Forças Armadas permaneceram como um elemento estatal pronto para ser mobilizado em defesa da ordem do capital, ao passo que se ampliou a base de participação popular através da concessão de voto aos analfabetos (Lemos, 2014).

Manuscrito de Renato Russo. Fonte: Legião Urbana Infinito, Facebook.

Os impactos da ditadura empresarial-militar, instaurada em 1964, costumavam frequentar as canções da Legião Urbana ao longo de toda a carreira do grupo. Em geral, não se tratava apenas de relembrar eventos desse passado violento, mas examinar os rumos seguidos pela sociedade brasileira e ponderar sobre o momento do país no instante em que tais composições eram concebidas. Essa conexão passado-presente se manifestou no discurso de Russo no ‘Programa Livre’, do SBT, em 10 de maio de 1994, sintomaticamente, trinta anos após o golpe:

Nunca vi ninguém falando sobre essa música, mas basicamente é sobre um momento no nosso país que de repente fechou tudo. Acho sempre importante lembrar (eu, pelo menos, gosto sempre de me lembrar) que hoje a situação pode estar difícil pra caramba, mas a gente tem uma coisa muito preciosa, que é a liberdade. Eu posso vir aqui cantar. Vocês podem vir aqui e fazer as perguntas que vocês quiserem. Isso eu acho uma coisa muito, muito importante. A gente se esquece que, até pouco tempo atrás, dependendo das ideias que seu pai tivesse, seu irmão, seu namorado, ia bater gente na sua casa e eles iam pegar essa pessoa e você nunca mais ia saber o que tinha acontecido com essa pessoa. E ficou por isso mesmo e não se fala nisso. Tá uma coisa muito perigosa, eu acho, de tipo assim: ‘não, a gente era feliz naquela época’, tipo assim… Gente, eu não me lembro de ser feliz naquela época não. Fazer redação dizendo que o presidente era maravilhoso, quando muito tempo depois a gente descobre que pessoas estavam sendo mortas, sabe? Em nome de uma grande coisa que não se sabe o que que é. E eu acho isso muito, muito péssimo. E a música é sobre isso. A música fala especificamente sobre tortura e fala dessa ideia toda do Brasil ser o país do futuro. Ela fala de tudo isso e é sobre como, de repente, seria legal se a gente encaminhasse o Brasil para ser um lance legal. Chega de ser o país do futuro. A gente tem que ser o país do presente.

Quando Renato Russo fez essa intervenção não havia nem uma década desde o fim da ditadura. O esquecimento já estava na ordem do dia e era algo que o incomodava profundamente. É importante percebermos o significado político contemporâneo associado à ideia de que a sociedade brasileira precisava ‘superar o passado’. Quais memorias tem autorização para emergirem do passado? Em termos sociais há projetos de esquecimento, aquilo que não deve ser lembrado para não ameaçar identidades e o ‘interesse comum’. Há amnésias sociais que são fabricadas, por isso certos grupos precisam disputar espaços, histórias. Eventos do passado são ressignificados no presente e novos entendimentos sobre o que aconteceu podem ser construídos (Motta, 1998; Traverso, 2012). Nesse sentido, a letra da canção potencializa a crítica sobre o tal ‘país do futuro’, um lugar que adia indefinidamente a felicidade de seu povo e é responsável direto pela barbárie que a população vivencia, através da tortura, do assassinato e da brutalidade que perverte quaisquer atributos humanos, como dignidade e inteligência.

Escrita por Renato, Dado e Bonfá, ‘1965 (Duas tribos)’ tem uma sonoridade marcada pela distorção da guitarra e acompanhada por baixo e bateria. O ritmo é acelerado e seus poucos acordes se harmonizam com a agressividade vocal. Os versos iniciais narram um contrassenso que permeia as memórias infantis do eu-lírico, (Como foi?/ Nem sentiu/ Se era falso ou fevereiro), ainda sem compreender direito as implicações históricas daquele evento golpista. As razões publicamente veiculadas pela mídia proprietária e pelos autoproclamados agentes do ‘Comando Supremo da Revolução’ se apresentavam como salvadores do país diante dos perigos do comunismo. Definitivamente, não era fevereiro.

Capa de alguns jornais da mídia proprietária em abril de 1964.
Fonte: Google Imagens.

Nunca é demais repetir que toda sorte de violência extralegal (perseguições policiais, inquéritos ilegais, detenções em massa etc.) esteve presente nos primeiros momentos de abril de 1964, ou seja, desde o início do regime ditatorial e não apenas a partir do Ato Institucional n.º 5 (1968). A brutalidade da tortura é lembrada e retratada em versos atrozes: Cortaram meus braços/ Cortaram minhas mãos/ Cortaram minhas pernas. Tudo acontecia como se estivéssemos ‘num dia de verão’, sob a ‘normalidade’ da vida que prossegue, das famílias que se divertem enquanto outras lamentam e se desesperam. Um dia comum em 1965 e em tantos outros depois. Houve um enorme esforço por parte das forças sociais golpistas para garantirem a eliminação de figuras do quadro político nacional associadas à “subversão” e “corrupção”, por meio da suspensão de garantias constitucionais de estabilidade, vitaliciedade e quaisquer direitos políticos. A mira podia estar nos militantes políticos, mas alcançava amplos segmentos da sociedade brasileira e a Legião insistia em não esquecer: ‘Podia ser meu pai/ Podia ser meu irmão’.

Concretizada a tomada do poder estatal em 1964, rapidamente, os diferentes interesses sociais presentes na heterogênea frente responsável pela operação golpista encontraram-se com dificuldades para harmonizar ideias e práticas distintas no trato de questões específicas, como, por exemplo, a organização da institucionalidade política. Consideramos válida a perspectiva defendida por diversos autores (Vasconcelos, 2013; Lemos, 2004) que compreendem a preservação de estruturas institucionais do período democrático pré-64 combinada com a elaboração de expedientes ditatoriais como uma tática de dominação política complexa e híbrida, conectada à perspectiva estratégica, de uma parcela dos grupos golpistas, que concebia a construção de um regime político democrático estruturado sob a fortificação do Executivo e depurado de seus elementos mais contestatórios da ordem. A expectativa era forjar um novo tipo de regime político, não mais aquela democracia associada ao período que findava (1946-1964), tampouco cogitava-se o investimento em formas ditatoriais típicas.

Em 1965, ano de referência de nossa obra musical em análise, um dos instrumentos escolhidos para lidar com a oposição ainda em condições de enfrentar as forças do regime durante as votações em outubro de 1965 foi, exatamente, alterar as regras eleitorais vigentes. O Ato Institucional n.º 2 (AI-2), editado em 27 de outubro de 1965, excluía os partidos políticos existentes, implantando o bipartidarismo. No primeiro trimestre de 1966, os novos partidos estavam formados e registrados: a Aliança Renovadora Nacional (Arena) e o Movimento Democrático Brasileiro (MDB). É possível compreender o título da canção legionária como sendo estas as ‘duas tribos’ estruturadas naquele ano (1965) para comporem o sistema político institucional do país. Ou, de forma mais ampla, a ideia de que as ‘tribos’ se dividiam entre aqueles apoiadores engajados ou passivos da ditadura empresarial-militar e os opositores consentidos ou clandestinos que se posicionavam na luta contra esse novo regime político. Para estes, o tratamento característico por meio da associação de estigmas depreciativos às posturas de quem luta: Quando querem transformar/ Dignidade em doença/ Quando querem transformar/ Inteligência em traição/ (…) / Quando querem transformar/ Esperança em maldição.

Castelo Branco, ao centro, assina o Ato Institucional nº 2, em Brasília. Aparecem na foto os dois futuros generais presidentes Costa e Silva (2º sentado à esq.) e Ernesto Geisel (sentado à dir., em primeiro plano).
Fonte: https://memorialdademocracia.com.br/card/ato-2-fecha-partidos-e-veta-eleicao-direta

Os desaparecimentos e as execuções de militantes de organizações políticas da luta armada ou apenas de opositores eventuais ao regime estão presentes na canção. Encobrir os assassinatos, geralmente cometidos sob tortura, era um recurso bastante utilizado pelo Estado ditatorial e por seus agentes e integrantes da sociedade civil. Mataram um menino/ Tinha arma de verdade/ Tinha arma nenhuma/ Tinha arma de brinquedo – seja realidade, seja fantasia, armar um menino era ‘justificativa’ social mais do que suficiente para o uso de força letal. Em 1986, o bordão ‘bandido bom é bandido morto’ foi usado eleitoralmente na campanha do delegado de polícia José Guilherme Godinho Ferreira, o Sivuca. A execução sistemática havia se convertido em instrumento preferencial dos agentes da repressão estatal, herança que se faz presente na atualidade.

O olhar saudosista infantil que narra essa história cantada também nos faz recordar a invasão cultural estadunidense, parceira na montagem do golpe, dos governos ditatoriais e das novas oportunidades de negócios. Jogos de ciranda (‘Tenho pera, uva e maçã’) deveras populares entre as crianças brasileiras competiam com os novos brinquedos disponíveis no mercado, como o Autorama (que chegou ao Brasil em 1963) e os modelos de carros, veículos militares, aviões e navios da Revell. Além dos desenhos animados da Hanna-Barbera (Tom & Jerry, Zé Colmeia e Johnny Quest) que formatavam outras concepções de mundo, afinadas com as perspectivas dos EUA.

Um modelo Revell dos anos 1960. Caixas da série “Picture Plane”.
Fonte: http://www.webkits.com.br/news/templates/news.asp?articleid=408&zoneid=24

A propaganda ufanista não poderia ficar de fora. A repetição do slogan ditatorial era ironicamente cantado: O Brasil é o país do futuro/ O Brasil é o país do futuro/ O Brasil é o país do futuro/ O Brasil é o país. Durante os shows, Renato Russo costumava interromper a música neste trecho para debochar da própria vocalização em alto som dessa ideologia triunfalista que habitava os sonhos de generais-presidentes e de cada saudosista desse projeto de ‘Brasil Grande’ que torturava, desparecia, assassinava e explorava sua gente. Um destaque interessante a ser feito é que este bordão é o título de um livro redigido pelo imigrante austríaco Stefan Zweig, quando já residia no Brasil nos anos 1940 (Ettore, 2022).

Cartaz do Governo Médici, 1969-1974. ‘Não se esqueça, temos sorte/ E agora é aqui
Fonte: Google Imagens.

Cá estamos, em março de 2026, mais de seis décadas após o golpe. Outros tantos anos nos separam de ‘1965 (Duas tribos)’. Ecos daqueles tempos ditatoriais ainda ressoam em nossa época. Figuras políticas e instrumentos estatais seguiram seus rumos e ainda nos afetam. As disputas em torno da memória e dos sentidos do golpe e da ditadura ainda prosseguem. Em julho de 1997, a Legião Urbana lançava um novo álbum, espécie de homenagem póstuma ao cantor e letrista Renato Russo (1960-1996). Mesmo em ‘outra estação’, Renato seguia cantando contra a ditadura, lembrando que ‘nunca poderemos esquecer/ Nem devemos perdoar/ Eu não anistiei ninguém’. Eu também não.

REFERÊNCIAS:

ASSAD, Simone. (Org.). Renato Russo de A a Z: as ideias do líder da Legião Urbana. Campo Grande: Letra Livre, 2000.

FRANCO, Deivid Fernando. ‘O Brasil é o país do futuro’: rock e contestação nas canções de Renato Russo (1978/1990). Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Estadual do Oeste do Paraná, Campus de Marechal Rondon, 2015.

GRANGEIA, Mario L. Cazuza, Renato Russo e a transição democrática. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016.

HOBSBAWM, Eric. Sobre História. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 2013.

JÚLIO ETTORE. Contra ditadura? A história de ‘1965 (DUAS TRIBOS)’ + ‘EU ERA UM LOBISOMEM JUVENIL’ (Legião Urbana). YouTube, 12 abr. 2022. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=nxwWN8PVFtw. Acesso em: 20 fev. 2026.

LEMOS, Renato. Poder Judiciário e poder militar (1964-69). In: CASTRO, C. et al (Org.). Nova história militar. Rio de Janeiro: FGV, 2004, p. 409-438.

LEMOS, Renato. Contrarrevolução e ditadura: ensaio sobre o processo político brasileiro pós-1964. Marx e o marxismo, v. 2, p. 111-138, 2014.

MARTINS, Bruno Viveiros. Pro dia nascer feliz: a Nova República e o rock brasileiro na década de 1980. Tese (Doutorado em História) – Universidade Federal de Minas Gerais, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Belo Horizonte, 2018.

MOTTA, Márcia. História e memórias. In: MATTOS, Marcelo; MOTTA, Márcia; MENDONÇA, Sônia; FONTES, Virgínia. (Org.). História: pensar e fazer. Rio de Janeiro: Laboratório Dimensões da História, 1998, p. 73 – 90.

SBT. Legião Urbana faz participação histórica no Programa Livre. YouTube, 4 out. 2018. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=kmFov09lHZ8. Acesso em: 20 fev. 2026.

SILVA, Ademir L.; PEREIRA, Jéssica M. Distopias e utopias urbanas no punk rock brasiliense. Revista Coralina, Cidade de Goiás, v. 4, n. 1, p. 268-281, jul./2022.

TRAVERSO, Enzo. O passado, modos de usar. História, memória e política. Lisboa: Unipop, 2012.

VASCONCELOS, Cláudio B. Os militares e a legitimidade do regime ditatorial (1964-1968): a preservação do Legislativo. Varia História, Belo Horizonte, v. 29, nº. 49, p. 333-358, jan./abr. 2013.

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