O capital não gosta do carnaval: reflexões sobre um documentário de Marcelo Gomes

Rafael Brasil (docente, História – IFRJ-CAC)
Na terra da felicidade não falta trabalho e as pessoas são donas de seus próprios negócios. Elas selecionam seus horários de trabalho, momentos de folga para alimentação, não gastam tempo com o deslocamento entre a casa e o serviço, posto que já residem em suas próprias áreas produtivas e ainda conseguem aproveitar um momento de folga para brincar o carnaval, renovando as energias. A princípio parece uma bela história para ninar gente grande. No entanto, se trata de uma bela fábula neoliberal, materializada nas facções e nos corações das pessoas envolvidas na produção de jeans na cidade de Toritama, através das lentes do diretor Marcelo Gomes.
Lançado em 2019, “Estou me guardando para quando o carnaval chegar” é o primeiro documentário produzido por Marcelo Gomes, cineasta recifense, mas com raízes familiares no agreste pernambucano. Responsável por outras produções fílmicas de sucesso, como “Cinema, aspirinas e urubus” (2005) e “Viajo porque preciso, volto porque te amo” (2009), Gomes optou por filmar a partir de uma dimensão memorialística profundamente pessoal. Quando criança havia conhecido uma outra Toritama, aquela que seu pai, coletor fiscal do Estado, lhe apresentara durante uma viagem à trabalho. As primeiras palavras pronunciadas no documentário, inclusive, se dedicam a estas lembranças de uma cidade interiorana do sertão pernambucano, com suas roças, bodes, ave-marias aos fins de tarde. Tudo conectado ao som do silêncio. O filme teve sua première mundial na seleção oficial da seção Panorama, no Festival de Berlim, Alemanha, e recebeu menção honrosa no Festival É Tudo Verdade e venceu a categoria de melhor documentário no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro em 2020.

“Terra da felicidade”, ou em tupi-guarani, Toritama, está a quase 200 km da capital, Recife. Diversas publicações em redes sociais e um sem-número de notícias veiculadas por autoridades políticas e segmentos empresariais nos lembram que a cidade é a ‘capital nacional do jeans’. Ela compõe com outras cidades, Santa Cruz do Capibaribe e Caruaru, o Polo de Confecções do Agreste, com um volume imenso de produção. Apenas os toritamenses fabricam entre 60 e 100 milhões de peças de jeans por ano, representando, praticamente, 20% de todo esse setor no país. Segundo os dados do IBGE, a população estimada em 2025 era de 43.921 pessoas e o salário médio mensal dos trabalhadores formais era de 1,4 salários mínimos. A produção têxtil concentra a imensa maioria dos empregos locais, a partir das 3.000 empresas e 50 lavanderias existentes, sem contar os 5.000 postos de vendas organizados para a Feira do Jeans, que ocorre regularmente.

O filme de Marcelo Gomes ajuda a nos aproximarmos, um pouco, dessa complexidade envolvendo a produção e reprodução da vida social em Toritama. Quando ouvi falar dessa obra audiovisual me deixei enganar pelo título, acreditando que seu foco estaria nas festividades carnavalescas nordestinas. Bom, homens e mulheres suados, realizando movimentos contínuos e repetitivos, se conectando com determinadas músicas ecoando pelos ambientes e o ritmo frenético, de mãos e pés, como se estivessem em um transe, sob um calor escaldante, são imagens que não estão distantes dos desfiles e brincadeiras que a festa mais conhecida do país proporciona. No entanto, tais pessoas não dançam em avenidas, ladeiras ou ruas estreitas da folia. Elas estão em garagens, salas de estar, nas calçadas e em cada canto de suas residências que puderam ser convertidas em pequenas fábricas domésticas, conhecidas como facções.
Nesses espaços não há qualquer divisão entre lazer e trabalho, rotina familiar e jornada de trabalho, entre áreas para alimentação e descanso e setores de confecção para o mercado do jeans. Toritama experimentou um processo avassalador de metamorfose, abandonando atividades agropecuárias em prol das máquinas têxteis. Inúmeras famílias decidiram transformar suas casas em ambientes de trabalho, investindo seus limitados recursos financeiros na obtenção de um maquinário rudimentar para darem início às suas facções. Nelas, diferentes pessoas se dedicam a tecer, cortar, tingir, costurar, esfiapar, desbotar e tantas outras atividades que lhes garante o sustento. Vizinhos competem entre si, posto que os rendimentos estão determinados pelos quantitativos que cada indivíduo, em sua respectiva facção, conseguir produzir ao longo de um dia. Algumas imagens me fizeram lembrar dos relatos associados ao começo do capitalismo industrial europeu, publicizados no século XIX: pessoas que dependem da venda de sua força de trabalho são lenta e gradualmente transformados em meras engrenagens das máquinas sob a direção do capital. As jornadas diárias ultrapassam as 12 horas. A escala é 7 x 0. Cada peça produzida, a depender da complexidade do trabalho exigido, rende centavos de real por toda essa devoção à produtividade. E me pego mais uma vez lembrando dos primórdios da crítica ao capitalismo:
Dado o salário por peça, é natural que o interesse pessoal do trabalhador seja o de empregar sua força de trabalho o mais intensamente possível, o que facilita ao capitalista a elevação do grau normal de intensidade. É igualmente do interesse pessoal do trabalhador prolongar a jornada de trabalho, pois assim aumenta seu salário diário ou semanal. (…) Mas o maior espaço de ação que o salário por peça proporciona à individualidade tende a desenvolver, por um lado, tal individualidade e, com ela, o sentimento de liberdade, a independência e o autocontrole dos trabalhadores; por outro lado, sua concorrência uns contra os outros. O salário por peça tem, assim, uma tendência a aumentar os salários individuais acima do nível médio e, ao mesmo tempo, a abaixar esse nível. (Marx, 2020, p. 624-626)
Reconhecer alguns elementos de continuidade com esse passado mais distante, não significa afirmar que Toritama esteja atrelada ao sistema de exploração do capital que vigorou há séculos. É preciso identificar as novas demandas históricas que a acumulação capitalista e as lutas sociais ocasionaram, configurando uma outra forma, denominada neoliberalismo. Conforme Demier (2021) “a necessidade do capital de efetivar contratendências à queda da taxa de lucro a partir de meados da década de 1970, o avanço da reestruturação produtiva e demais modificações no mundo do trabalho, a financeirização cada vez maior da acumulação capitalista e os obstáculos colocados pelo movimento sindical às novas diretrizes fiscais do Estado” são aspectos essenciais para compreendermos a formulação e implantação do arcabouço ideológico neoliberal. Ignorar esses vetores históricos não nos ajuda em nada diante da difícil tarefa de analisar Toritama.
Muitos depoimentos coletados pelo filme convergem para uma percepção de mundo: “Eu sei quanto mais eu tô trabalhando, eu tô ganhando”; “Quanto mais você arrochar o nó, você ganha o dinheiro”; “Qual é a melhor profissão do mundo? É nunca trabalhar para ninguém”; “Eu acho que hoje o melhor é trabalhar para você mesmo”. Muitas outras frases poderiam ser transcritas. Todas revelam a potência ideológica neoliberal: integrar toda e qualquer dimensão da vida social aos imperativos do empreendedorismo, da concorrência meritocrática e da responsabilização de si pelo ‘sucesso’ e ‘fracasso’ nos rumos da vida (Dardot e Laval, 2016; Han, 2020). A captura das subjetividades pela cantilena ideológica neoliberal produz ressignificações em torno do tempo, da autonomia e da exploração. ‘Investir’ no empresariamento de si mesmo é uma forma de emancipação diante da rotina estafante e uniforme de um trabalho submetido a um patrão. Poder decidir os horários de entrada, almoço, descanso e encerramento de suas jornadas de trabalho é um ponto favorável destacado pela maioria das pessoas entrevistadas em Toritama. Não há interrogações acerca dos valores pagos por cada peça produzida. Existe pouco espaço para questionamentos acerca do futuro, que pode ser atingido por uma doença ou simplesmente pelo cansaço que o corpo de quem vive do trabalho alcança após longas décadas de dedicação à labuta. Neste caso, apenas um trabalhador mencionou sua preocupação com a assistência previdenciária. Em Toritama há um presente contínuo, submetido ao ritmo de trabalho, ainda que percebido como independente e autônomo (Bispo, 2020).
A construção dramatúrgica de “Estou me guardando…” destaca imagens de uma espiral de jeans ininterrupta como se a vida dos trabalhadores toritamenses estivesse confinada nesse ritmo fabril que as facções funcionam. Enquanto as pessoas falam sobre suas vidas, seus cotidianos surgem na tela. Crianças convivem com maquinários e montanhas de jeans nos espaços internos das casas que se transformaram em fábricas. A alimentação é solitária e engolida diante da máquina que aguarda o retorno da sua engrenagem viva ou desfrutada por uma parte da família enquanto a matriarca segue costurando e produzindo. Idosos nas calçadas realizam pequenas tarefas ligadas ao fabrico do jeans. São raríssimos os momentos em que personagens locais não possuam relações diretas com o ‘ouro azul’, com tempo livre para observar o céu, pastorear cabras ou contar histórias de um passado praticamente esquecido pelo conjunto da população. Léo, uma espécie de faz-tudo e uma das figuras mais interessantes do documentário, nos brinda com um apontamento certeiro: “O meu problema não é a bebida, mas trabalhar”.

Entretanto, há um momento peculiar nessa história de Toritama. É o carnaval. A festa é responsável por abrir frestas na estrutura produtiva da cidade e talvez tenha provocado enormes surpresas no público. Os minutos finais do filme revelam a impressionante tradição popular anual: o deslocamento massivo para as praias durante o período carnavalesco, ainda que isso signifique vender qualquer bem material acumulado com a dureza do trabalho ou mesmo a admissão de dívidas para conquistar quaisquer recursos econômicos que financiem a viagem para o litoral. Essa fuga coletiva pode aparentar alienação, uma tentativa de ‘se desligar’ dos suplícios vivenciados ao longo do ano em busca de uma felicidade fugaz. Sujeitos de sua própria sujeição. Bom, esta é uma forma de enxergar a questão. O próprio diretor se espanta com essa postura de boa parte dos toritamenses. Embora, como observa um pesquisador, uma cena, em particular, recoloque outros questionamentos diante desse contexto:
Pelas imagens de caminhões que cortam a estrada de Toritama, a vida segue e o mundo fora das casas fábricas é maior. Ao enquadrar a máquina de costura à venda, à beira da estrada, Marcelo Gomes repercute um grito de liberdade e de desapego dos trabalhadores do jeans, um gesto que vai ao encontro do acúmulo de bens materiais, característica tão presente na sociedade contemporânea. E o cinema, mais uma vez, causa um abalo, mesmo pequeno, na forma de perceber a estrutura social (Santos, 2022, p. 95).
As transformações socioeconômicas na região do agreste a partir de uma nova lógica de acumulação do capital não levaram embora apenas a banda de música, o teatro e outras formas de diversão e lazer de Toritama, mas também suas diversas formas de trabalho que garantiam a renda local. Contraditoriamente, a estruturação do trabalho precário em torno da indústria do jeans viabilizou a sobrevivência precária (vale a repetição para que não haja dúvidas) da localidade e de seus moradores. Os sonhos compartilhados. Os indicativos do cansaço que transparecem nas falas das personagens. Não há escassez que provoque a fome entre a população. Imigrar para conseguir emprego e o sustento familiar deixou de ser a única via possível. Há algum ressentimento, pois em Toritama não há espaços para ‘comer fora’, ir à piscina ou outro tipo de lazer. “Toritama é assim, trabalho”. Lamento e orgulho em uma única frase do depoimento de uma trabalhadora.
Em meio à precariedade é possível enxergar ilusão, mas também afirmação. Trabalhar sem o patrão a ‘fungar em seus pescoços’ é uma visão positiva para muitos dos que apareceram no documentário. Estar junto de seus familiares também, sem haver a necessidade de migrarem para o ‘sul maravilha’, como diria um personagem de Henfil, submetidos à outra exploração do trabalho, potencializada pela tristeza resultante da distância de sua terra natal. Nas palavras de Pimenta (2019): “Um dos operários mais ‘conscientes’ do filme é pego cochilando em meio às calças jeans, no chão. Ele acorda, contente, e afirma que seria impossível aquilo numa fábrica ou fazenda comum. Em outra cena, jovens trabalham de noite ao som de Racionais, uma pequena balada em meio ao suplício. Quando as coisas estão muito duras os operários lembram dessa peculiaridade com orgulho, como uma pequena vitória, mesmo sendo uma vitória, que no final das contas, se torne no seu avesso”.

Quando o carnaval chega as máquinas param. Não há ideologia neoliberal, valorizadora do ‘trabalhe enquanto eles dormem’, que seja potente o suficiente para convencer a população a desistir das caravanas festivas em direção às praias nordestinas. O potencial disruptivo está ali presente. O inconformismo e a insatisfação diante de um mundo que suga as energias humanas através de um trabalho frenético se efetivam na agência dos trabalhadores e das trabalhadoras toritamenses que rumam para o litoral. É uma forma de resistência, de dar vazão ao poder transgressor do carnaval. A diversão para se libertar das correntes forjadas pela ideologia e pela ação do capital. A tão falada e elogiada autonomia ganha a dimensão de enfrentamento à sanha do capital: no carnaval, o trabalho é paralisado. Quem sabe é uma vitória minúscula. Mas ainda assim é uma vitória diante do fatalismo. Mobilizar essas energias contra-hegemônicas é tarefa essencial para quem deseja mudanças. Pode ser que aquela velha canção tenha nos dado uma pista: “E quem me ofende, humilhando, pisando,/Pensando que eu vou aturar/Tô me guardando pra quando o carnaval chegar/E quem me vê apanhando da vida/Duvida que eu vá revidar/Tô me guardando pra quando o carnaval chegar”.
REFERÊNCIAS:
ALVES, Alessandra. Estou me guardando para quando o Carnaval chegar: trabalho e tempo. Cinema em Cena, 2019. Disponível em: https://cinemaemcena.com.br/coluna/ler/2449/estou-me-guardando-para-quando-o-carnaval-chegar-trabalho-e-tempo. Acesso em: 20 jan. 2026.
BISPO, F. O. Estou Me Guardando para Quando o Carnaval Chegar: tempo, trabalho e autonomia no Brasil contemporâneo. Anãnsi: Revista de Filosofia, [S. l.], v. 1, n. 1, p. 228–232, 2020. Disponível em: https://revistas.uneb.br/anansi/article/view/9601. Acesso em: 17 mar. 2026.
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HAN, Byung-Chul. Psicopolítica. O neoliberalismo e as novas fontes de poder. São Paulo: Âyiné, 2020.
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