Introdução
A presente proposta busca construir uma proposta didática que possa promover, junto a alunos do 9º ano do Ensino Fundamental, ao longo de um bimestre letivo (24 aulas), o aprofundamento de uma categoria narrativa fundamental: o espaço. Embora os documentos oficiais e as orientações curriculares apontem para tal temática, parece ser lugar comum o trabalho superficial com esse elemento, assim como parece-nos superficial o trabalho realizado com o texto literário no Ensino Fundamental1.
Os livros didáticos adotados, os quais, muitas vezes são o recurso de suporte e orientação aos professores em sala de aula, apresentam, via de regra, a literatura por meio de fragmentos de textos, os quais são geralmente utilizados para análise de elementos linguísticos, minimizando ou, até mesmo, desprezando o estudo literário e suas especificidades.
Na contramão dessa realidade, acreditamos que a leitura de obras literárias na escola tem um papel transformador, sendo fundamental a formatação de novas práticas de letramento literário, proporcionando momentos de interação, reflexão e experimentação que contribuam para a formação de leitores ativos e socialmente engajados e, para tanto, o papel do professor é crucial. Como aponta Magnani:
(…) se o gosto se aprende, pode ser ensinado. A aprendizagem comporta uma face não espontânea e pressupõe intervenção intencional e construtiva. Assim, o professor tem um importante papel a desempenhar no desenvolvimento de seus alunos/leitores. (1991, p.104)
Assim, a fim de contribuir com a construção de uma abordagem mais significativa do texto literário, principalmente, nos anos finais do Ensino Fundamental, este trabalho organiza-se a partir da reflexão acerca do panorama brevemente descrito acima, apresenta na seção que segue sua justificativa e aponta, em seguida, os objetivos (geral e específico), os pressupostos teóricos que alicerçam as reflexões construídas e, claro, a sequência didática elaborada. Finalmente, encerram a presente proposta a bibliografia consultada e os anexos com a íntegra dos textos utilizados.
Justificativa
Tal como suscintamente exposto, dados os limites da presente abordagem e, também, sua natureza, o espaço destinado para o trabalho efetivo com o texto literário nos anos finais do Ensino Fundamental é escasso. Seja pela pressão curricular de algumas redes de ensino, seja pelo pragmatismo exacerbado de documentos oficiais que pautam um ensino de base imediatista e focado no desenvolvimento de competências e habilidades como respostas aos profundos problemas sociais, esse é um quadro desafiador e que requer atenção.
Não se trata, porém, de uma reflexão recente, tal como indicam Lígia C. Leite (1983) e Maria T. Rocco (1981), sendo revisitada, nos dias atuais, por autores como Rildo Cosson e Graça Paulino (2004), Teresa Colomer (2007) e T. Todorov (2010). Ainda assim, caminhamos em ritmo mais lento do que o desejado em busca de uma nova conjuntura para tais desafios.
No marco dessa reflexão, o presente trabalho almeja contribuir, ainda que modestamente, com a proposição de uma sequência didática que valoriza e dá centralidade ao texto literário, produzindo as bases para a ampliação do repertório e do letramento literário de alunos dos anos finais do Ensino Fundamental.
Para tanto, ressaltamos o papel crucial do professor enquanto mediador de todo esse processo, estabelecendo os elos entre um novo conceito compreendido e os demais assimilados anteriormente pelos alunos, ampliando e aprofundando conexões em um movimento dialógico de ensino e aprendizagem.
Objetivo Geral
Promover, através da relação entre texto e leitor no âmbito da construção de sentidos, a reflexão acerca do espaço como categoria narrativa que auxilie na consolidação da experiência estética literária.
Objetivos Específicos
- Investigar a compreensão por parte dos alunos acerca da categoria “espaço” no âmbito de uma narrativa.
- Averiguar a percepção dos alunos sobre o (s) espaço (s) como elemento de construção das narrativas.
- Desenvolver estratégias didático pedagógicas que permitam aos discentes reconhecer as diferenças entre espaços físicos, sociais e psicológicos.
- Promover a percepção da relação de verticalidade entre as obras escolhidas.
- Elaborar estratégias didático pedagógicas que contribuam para ampliação do repertório literário dos alunos.
- Estruturar um círculo de leitura, a fim de promover o diálogo a respeito de uma das obras selecionadas.
Pressupostos teóricos
“(…) assim como não é possível haver equilíbrio psíquico sem o sonho durante o sono, talvez não haja equilíbrio social sem a literatura. Deste modo, ela é fator indispensável de humanização e, sendo assim, confirma o homem na sua humanidade, inclusive porque atua em grande parte no subconsciente e no inconsciente”.
(Candido, 1989, p. 112).
Acreditamos que um professor que possui o hábito de ler terá mais facilidade para incorporar o trabalho com o texto literário em sua realidade docente. Nesse sentido, elaborar estratégias didático pedagógicas para a efetivação de tal objetivo passa, inevitavelmente, por criar as condições de sua materialização no bojo do espaço escolar. Em sala de aula, o hábito e o gosto individual podem, no contexto adequado, coletivizar-se.
Se a educação literária contribui para a formação pessoal, como defende Colomer (2007), a literatura é (ou, ao menos deveria ser) um direito do ser humano. A experiência da ficção e da fabulação constitui uma dimensão fundamental da existência, estando na base de formação de todo indivíduo e forjando a matéria que compõe aquilo que somos. Nesse sentido, tal experiência exerce um papel essencial no processo de humanização. E tal processo, como bem aponta Antônio Cândido:
(…) confirma no homem aqueles traços que reputamos essenciais, como o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso da beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor. A literatura desenvolve em nós a quota de humanidade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos à natureza, à sociedade e ao semelhante. (1989, p. 117).
No marco dessa reflexão, esta proposta alicerça-se, ainda, nas contribuições de Paulino e Cossom que, citando números disponibilizados pela National Endowment for the Arts – NEA2 (2004) descrevem um cenário desolador no campo da literatura, especificamente, na relação entre ativa entre texto e leitor, ou seja, na experiência da leitura de textos literários. Em capítulo que compõe a obra “Escola e leitura: velhas crises, novas alternativas” (Zilberman; Rosing, 2009) os autores, referências no campo das discussões acerca do letramento literário e suas estratégias pedagógico-metodológicas, asseveram:
Comparando dados de 2002 com os obtidos em 1982 e 1992, o relatório mostra que, atualmente, apenas 46,6% da população adulta lê literatura, e, mais preocupante, essa é uma linha descendente, sobretudo entre os mais jovens. A taxa de queda em relação à leitura de literatura é percebida em todas as variáveis, seja sexo, seja etnia, seja nível de educação, seja idade, mas, no caso dos jovens, ela é alarmante. A porcentagem do declínio entre os jovens de 18 a 24 anos é 55% maior do que do total da população adulta (Paulino; Cosson, 2009, p. 62).
Diante do exposto, parecem-nos fundamentais o papel do ambiente escolar e, claro, da figura do professor, uma vez que, conforme Leite (2001, p.25), “Talvez a diretriz pedagógica mais importante no trabalho dos professores, seja a utilização da escrita, em sala, correspondendo às formas pelas quais ela é utilizada verdadeiramente nas práticas sociais”. Igualmente fundamentais são, portanto, as políticas de valorização da carreira docente e de formação continuada, a partir das quais a introdução de novos saberes na sala de aula poderá ocorrer de forma mais efetiva, auxiliando na diminuição de números tão negativos, dado que o letramento feito com textos literários suscita um modo privilegiado de inserção no mundo da escrita, uma vez que conduz para o domínio da palavra, dialeticamente, a partir dela mesma.
No terreno mais característico desta proposta, as contribuições de Abdala Júnior (1995) são fundamentais. Para esse autor, o espaço é uma categoria fundante das narrativas, pois nele e, muitas vezes, através dele, as personagens variadas caminham e as ações se desenvolvem. Ademais, o espaço não é único e não pode ser restringido à ideia de um lugar, de um local.
Por exemplo, uma personagem, devido à crise socioeconômica (espaço social), fecha-se num quarto (espaço físico), que favorece a sua introspecção (espaço psicológico). A atmosfera da narrativa, então, em face dessa confluência do Espaço físico com o abstrato, torna-se mais densa e pesada, caracterizando melhor os conflitos dessa personagem. (Abdala Júnior, 1995, p.48)
Acreditamos, na esteira dos pressupostos elencados até aqui, que a utilização do conceito de “cronotopo literário, elaborado3 pelo Círculo teórico em torno do russo Mikhail Bakhtin, promove a expansão das excelentes colocações de Abdala Júnior, uma vez que, contrariamente a uma abordagem estruturalista do tempo e espaço narrativos, funde tais categorias em uma unidade fundamental. Para as pretensões deste trabalho, a passagem que segue esclarece tal perspectiva:
A capacidade de ver o tempo, de ler o tempo no todo espacial do mundo e, por ouro lado, de perceber o preenchimento do espaço não como um fundo imóvel e um dado acabado de uma vez por todas, mas como um todo em formação, como acontecimento; é a capacidade de ler os indícios do curso do tempo em tudo, começando pela natureza e terminando pelas regras e ideias humanas (até conceitos abstratos) (Bakhtin, 2003 [1979], p. 225, grifos do autor).
No âmbito das reflexões propostas, acreditamos que a estruturação da proposta interventiva que segue pode promover uma interessante discussão acerca do espaço como lócus privilegiado para construção de sentidos no texto literário, tendo em vista a possibilidade de construção de uma rede vertical de leitura, como aponta Colomer (2007). Para a autora, tal processo é fundamental, uma vez que se trata de um processo forjado a partir de uma conexão intertextual. Essa relação de intertextualidade, portanto, visa garantir que não haja uma grande distância entre o repertório do texto e o do leitor, proporcionando as bases que minimizam as dificuldades do processo de leitura.
Tal perspectiva dialoga com o teórico alemão Wolfgang Iser (1996), segundo o qual para que ocorra a comunicação entre o texto e o leitor, é preciso haver um repertório parcialmente compartilhado entre ambos.
Estruturação da proposta interventiva
Apresentamos a seguir as etapas de elaboração da nossa proposta interventiva, as leituras propostas e o passo a passo dos momentos que deverão ocorrer em sala de aula.
Etapa I – Motivação
Objetivos:
- Levantar reflexões a respeito da obra Sonho Causado pelo Voo de uma Abelha ao Redor de uma Romã um Segundo Antes de Acordar, de Salvador Dalí.
- Apresentar, sinteticamente, as características surrealistas.
- Iniciar a percepção do onírico como espaço em representações artísticas.
Número de aulas: 2 aulas de 50’
Material didático necessário: quadro, Datashow.
Professor, antes de apresentar, aos alunos, a pintura abaixo, de Salvador Dalí, bem como as questões relativas a ela, julgamos ser necessário uma breve explicação sobre o contexto de produção da obra, bem como algumas características de seu autor. Segue texto de apoio:
“O Surrealismo, vanguarda artística do início do século XX, propõe que o real e o imaginário, o passado e o futuro, a frente e o atrás, o alto e o baixo, deixem de ser contrários ou diferentes e passem a ser uma coisa só. Os surrealistas buscavam descobrir o que existe dentro da mente do ser humano, por isso representavam, por meio de suas obras, sonhos e pesadelos. Nesta valorização do inconsciente, os artistas daquela época, influenciados pelas teorias da psicanálise, valorizavam o pensamento livre e a expressividade espontânea. Salvador Dalí, um dos maiores símbolos da pintura surrealista, descreveu um mundo onírico no qual objetos comuns são justapostos, deformados ou metamorfoseados de maneira bizarra e irracional. Retratou esses objetos com detalhes meticulosos, quase dolorosamente realistas, e geralmente os colocava em paisagens sombrias e ensolaradas, que lembram sua terra natal na Catalunha. Dalí usou muitos símbolos recorrentes ao longo de sua carreira. Além dos relógios de fusão e da noção de tempo, outros frequentemente usados incluem formigas, elefantes, lagosta e comida em geral”.
Após a explicação inicial, o professor deve apresentar, aos alunos, a reprodução da pintura Sonho Causado pelo Voo de uma Abelha ao Redor de uma Romã um Segundo Antes de Acordar, de Salvador Dalí. A fim de refletir sobre a obra e de motivar os estudantes a adentrarem no tema desta proposta interventiva, é importante propor uma discussão com base nos questionamentos abaixo.

Questões a serem discutidas oralmente:
QUESTÃO 01: Qual dos elementos presentes na obra pode ser considerado o elemento central, o mais importante?
QUESTÃO 02: Observe a mulher presente na pintura. O que possivelmente ela está fazendo e o que comprova isso?
QUESTÃO 03: Os tigres estão prestes a realizar uma ação. Qual?
QUESTÃO 04: Perto da romã pequena há uma abelha e, próximo a mulher, uma baioneta (arma que aparenta um punhal ou uma espada). Qual relação você conseguiria estabelecer entre esses dois fatos?
QUESTÃO 05: Em representações artísticas, como na literatura ou na pintura, os sonhos se configuram como um espaço distinto à realidade. É, muitas vezes, no sonhar que se concretizam os desejos reais. Por meio da oposição ou da sobreposição entre o real/possível e o irreal/incomum, os sujeitos conseguem questionar sua própria realidade e as experiências dela decorrentes.
| Professor, essa questão necessita de mediação e, por isso, julgamos ser necessário conduzi-la com atenção, pois sua reflexão faz parte do núcleo desta abordagem. |
- endo em vista o trecho acima, podemos afirmar que a obra em análise traz uma representação da realidade? Por quê?
- Se os elementos constituintes da obra não descrevem a realidade, eles podem ganhar vida em qual outro espaço?
QUESTÃO 06: Agora, depois de toda essa discussão, retome o título do quadro: “Sonho Causado pelo Voo de uma Abelha ao Redor de uma Romã um Segundo Antes de Acordar”. Em sua opinião, que senho seria esse? Se a abelha o provocou, ela já estava presente antes de a pessoa dormir? Quem se esperava acordar? Por quê?
Etapa II – Desenvolvimento da proposta
1º momento
Objetivos:
- Explicar, sinteticamente, quem foi Hans Christian Andersen;
- Realizar a leitura dramatizada do conto Olavinho fecha os olhos, de Hans Christian Andersen;
- Refletir sobre a diferença entre o espaço real e o espaço onírico em narrativas.
Número de aulas: 4 aulas de 50’
Material didático necessário: quadro, Datashow, cópias em número adequado do conto mencionado.
| Professor, antes de realizar a atividade de leitura abaixo, converse com os alunos a respeito das principais características e da importância do autor do texto, Hans Christian Andersen. Peça, também, que os estudantes levantem hipóteses sobre o título do conto Olavinho fecha os olhos. |
“Hans Christian Andersen nasceu no dia 2 de abril de 1805, na Dinamarca. O autor foi aclamado o maior escritor de contos infantis da literatura universal. É considerado o Pai da Literatura Infantil e, graças à sua valiosa contribuição para a literatura infanto-juvenil, o dia 2 de abril, data de seu nascimento, é dedicado ao Dia Internacional do Livro Infanto-Juvenil. O autor foi o responsável não apenas pelo novo sentido dado aos desejos e às fantasias contidas nas narrativas, mas também pelo novo olhar lançado sobre as crianças. Estas lograram o lugar privilegiado de ouvintes ou leitores de contos, nos quais figuravam como personagens cujas experiências refletiam as suas. Hans pertencia a uma família muito pobre, no entanto seu pai abriu seus olhos para a importância da leitura e da imaginação, passando o tempo disponível entre o conserto de um sapato e outro, contando-lhe histórias, contos de fadas e inventando peças de teatro com bonecos de papel. As desgraças de uma infância pobre e as dificuldades de aceitação em uma sociedade dividida em classes ajudaram-no a conviver com as vicissitudes que a vida lhe apresentaria. Após perder o pai e a mãe não conseguir criá-lo sozinha, é adotado pela família de Jonas Collin, um alto funcionário do governo dinamarquês, que lhe oferece proteção e custeio para seus estudos. A partir daí passa, então, a produzir obras como poemas, peças de teatro e os contos que o imortalizaram. Andersen faleceu em 4 de agosto de 1875”.
Etapas da atividade:
1) O professor fará uma breve explicação a respeito do conto com a função de facilitar o entendimento dos alunos na hora da leitura;
| No conto que será lido, de Hans Christian Andersen, Olavinho Fecha-os-olhos é o mito primitivo de Morfeu (o deus dos sonhos), que, disfarçado, visita, durante sete noites seguidas, o personagem Hialmar e o faz sonhar. O conto traz, então, as diversas aventuras vividas pelo menino em um espaço onírico. |
2) Após a explicação, os alunos devem ser separados em sete grupos. Cada grupo receberá uma parte do texto contendo um dos sonhos de Hialmar. Os estudantes devem realizar uma primeira leitura em voz alta e preparar a leitura dramatizada a ser apresentada ao restante da turma na aula seguinte;
| Segundo Cosson, p. 110, “…a dramatização enquanto prática de leitura requer a integração de várias linguagens artísticas e vem daí sua importância para a formação do leitor. Junto com a recitação vêm os gestos, a música, o jogo das luzes, as cores e as formas do figurino e do cenário, demandando que a palavra escrita no papel seja traduzida para uma experiência tridimensional. |
3) Após as dramatizações, algumas questões devem ser discutidas oralmente com os alunos:
a) Alguém conseguiria descrever o último sonho que teve? De quais imagens, lugares, pessoas se lembra?
b) Qual o sonho mais estranho que vocês já tiveram?
c) Para vocês, os sonhos têm alguma relação com a realidade? Comente.
d) Em textos narrativos, o espaço onde ações são realizadas precisa ser sempre físico, concreto (casa, rua, carro…)?
e) No conto lido, o enredo se desenvolve em dois espaços, um concreto, físico e outro abstrato, subjetivo. Quais são eles?
f) Diferente do espaço real, o sonho é o lugar em que tudo pode acontecer. Sendo assim, qual a importância do ato de sonhar para o ser-humano?
2º momento
Objetivo:
- Explicar a importância dos diferentes tipos de espaço em textos narrativos.
- Problematizar as sugestões de definição que seguem, tendo em vista os objetivos da proposta.
| Espaço Físico: é o espaço real, que serve de cenário à ação, onde as personagens se movem. Espaço Social: é constituído pelo ambiente social, representado pelas personagens figurantes. Espaço Psicológico: espaço interior da personagem, constituído por suas vivências, seus pensamentos e sentimentos |
Número de aulas: 2 aulas de 50’
Material didático necessário: quadro, Datashow, cópias em número adequado do conto mencionado.
3º momento
Objetivos:
- Estabelecer um círculo de leitura com os estudantes.
- Apresentar, sinteticamente, informações sobre Edgar Allan Poe.
- Incentivar a leitura de contos de Edgar Allan Poe.
- Realizar a leitura do conto A queda da casa de Usher.
Número de aulas: 9 aulas de 50’
Material didático necessário: quadro, Datashow, cópias em número adequado do conto mencionado.
Primeiro passo: apresentação do círculo de leitura
Neste primeiro momento, o professor deverá explicar aos alunos no que consiste um círculo de leitura e detalhar quais são suas etapas.
| Segundo Cosson, p.29, “Um círculo de leitura é a reunião de um grupo de pessoas para discutir um texto, para compartilhar a leitura de forma mais ou menos sistemática. A parte prática de tal atividade divide-se em seis partes: seleção das obras, formação dos grupos, cronograma, encontro inicial, encontros mediais e encontro final.” |
Segundo passo: a inserção no círculo de leitura
Nesta etapa, o professor deve apresentar um breve resumo da biografia de Edgar Allan Poe, autor do texto que será trabalhado em etapas futuras.
| Edgar Allan Poe nasceu em Boston, em 1809. Órfão aos 3 anos, foi adotado por um tio rico. Seu estilo de vida desregrado, contudo, levou-o ao rompimento com seu protetor. Em 1835, casou-se com sua prima Virginia, de 13 anos, e assumiu a editoria da revista Southern Literary Messenger, na qual produziu contundentes críticas literárias. Poe mostrou-se também um poeta fabuloso, sendo “O Corvo” um dos poemas mais traduzidos do mundo. Além disso, elevou o gênero do conto do patamar de anedota à categoria de arte. Foi considerado o precursor da literatura policial ao inventar a figura do detetive antes mesmo de o termo existir, precedendo Sherlock Holmes. Mas foram seus contos de terror que lhe trouxeram maior reconhecimento, inspirando diversos escritores e produções do cinema. Também foi muito criticado, sobretudo por sua conduta. Vivia embriagado e depois da morte da esposa se entregou definitivamente à bebida. Em 1849, foi encontrado inconsciente em uma rua de Baltimore e morreu três dias depois. Sugestões de contos para leitura: A verdade no caso do senhor Valdemar, A máscara da morte vermelha, Morella, O enterro prematuro, Berenice, O poço e o pêndulo, O gato preto, O coração delator, O retrato oval. Fonte: https://www.ebiografia.com/edgar_allan_poe/ (Acesso em 15/11/2022) |
Terceiro passo: leitura do conto A queda da casa de Usher
Dividir a sala em 7 grupos e entregar o conto A queda da casa de Usher para cada um deles. Pedir que os alunos comecem a leitura do texto. O professor deverá caminhar pela sala até que os grupos se concentrem na leitura. Esta tarefa é difícil, mas é importante para que os alunos fiquem atentos à leitura.
| Professor, tendo em vista que a leitura do conto deverá ser feita em voz alta, conforme organização dos próprios estudantes, se possível, distribua os grupos em espaços diferentes para que a leitura de um não atrapalhe a do outro. |
Quarto passo: atividades sobre o conto A queda da casa de Usher
Os alunos devem ser orientados a discutirem as questões propostas abaixo com seus companheiros de grupo, anotarem as respostas nos cadernos e realizarem a correção ao final.
QUESTÃO 01: O conto A queda da casa de Usher é uma narrativa linear, ou seja, os fatos acontecem numa sequência cronológica que revela o início, o meio e o fim da história. Tendo como base o texto lido e as imagens abaixo, apresente uma síntese do que ocorre em cada momento do enredo:


QUESTÃO 02: O espaço físico do conto de Poe é a casa de Usher, ambiente para o qual o narrador se encaminha já no início da narrativa. Faça uma descrição detalhada desse lugar.
QUESTÃO 03: Roderick e Madelaine Usher são os donos da casa na qual os fatos ocorrem. Faça uma descrição detalhada desses dois personagens.
QUESTÃO 04: A função do espaço em uma narrativa, muitas vezes, vai além de contextualizar o enredo, podendo, também, estabelecer interações entre os personagens envolvidos, influenciar em suas atitudes, pensamentos, emoções e conceitos. No conto lido, podemos dizer que o ambiente físico, ou seja, a casa intervém no comportamento e nas ações vividas pelos personagens? Justifique.
QUESTÃO 05: Além do espaço físico, há no conto um espaço psicológico no qual acontecimentos fantásticos se revelam. O que dá início a série de fatos estranhos que se sucedem na narrativa?
Quinto passo: apresentação das fichas de função
Após o término da leitura do conto A queda da casa de Usher, o professor deverá explicar aos alunos as diferentes funções que os leitores podem assumir em um círculo de leitura e como realizar o preenchimento das fichas. As funções que os leitores podem assumir em um círculo de leitura:
- Conector: liga a obra ou o trecho lido com a vida, com o momento.
- Questionador: prepara perguntas sobre a obra para os colegas, normalmente de cunho analítico, tal como por que os personagens agem desse jeito? Qual o sentido deste ou daquele acontecimento?
- Iluminador de passagens: escolhe uma passagem para explicitar ao grupo, seja porque é bonita, porque é difícil de ser entendida ou porque é essencial para a compreensão do texto.
- Dicionarista: escolhe palavras consideradas difíceis ou relevantes para a leitura do texto.
- Sintetizador: sumariza o texto.
- Cenógrafo: descreve as principais cenas.
- Perfilador: traça um perfil das personagens mais interessantes.
Modelo de ficha de função:
Após explicar sobre as fichas de função, o professor sorteará uma para cada grupo. Os alunos devem discutir entre si e preencher a ficha para posterior apresentação.
| Professor, procure reunir-se separadamente com cada grupo, revisando as anotações para cada função e sanando as possíveis dúvidas dos alunos quanto à obra lida. |
Sexto passo: aplicação das fichas de função
No dia das apresentações, é recomendável proporcionar um ambiente mais informal, no qual os alunos possam se sentir em uma roda de conversa sobre o texto lido – o ideal é priorizar as carteiras em formato de círculo. Um integrante de cada grupo deverá ler a ficha preenchida e expor as discussões feitas no momento de sua elaboração. O professor deverá mediar, sempre que possível, as apresentações.
Etapa III – Avaliação
| Professor, atente-se ao seguinte: “Tendo esse princípio sempre no horizonte – a efetivação da leitura literária – e tentando evitar as armadilhas costumeiras da avaliação escolar, a avaliação de um círculo de leitura é contínua e se alimenta basicamente da observação das discussões e dos produtos escritos das atividades, com o professor contando, sempre que possível, com a colaboração dos alunos em processos de autoavaliação.” (Cosson, p.76) |
Objetivos:
- Por meio da animação, avaliar a perspectiva construída pelos alunos sobre o sonho como um espaço constituinte de narrativas;
- Avaliar se os estudantes consolidaram o conhecimento sobre os diferentes tipos de espaço;
- Refletir sobre como os sonhos representam a porta de entrada de elementos fantásticos em algumas narrações.
Número aproximado de aulas: 2 aulas
Material didático necessário: Datashow, cópias em número adequado das avaliações.
| Nesta etapa, o professor deve reproduzir para os alunos uma parte do último episódio da série Sandman. O trecho intitulado Sonho de mil gatos servirá como fonte de sistematização para a teoria apresentada anteriormente e funcionará como avaliação desta proposta interventiva. |
Após assistirem ao vídeo, os alunos realizarão a atividade a seguir.
Questões sobre a animação Sonho de mil gatos:
QUESTÃO 01: No trecho assistido, o relato da gata persa ganha destaque. Discursando para os demais felinos, ela afirma, logo de início, que por muito tempo vivera na casa de humanos, sendo domesticada por eles e que, assim, se enganava. Por que ela diz ter se enganado durante um tempo de sua vida?
QUESTÃO 02: Após engravidar e saber que seus filhotes foram jogados no rio, a gata persa passa a ter consciência que mentia para si mesma. Neste momento, desolada pela perda dos filhotes, a personagem passa a vivenciar ações em um outro espaço. Qual?
QUESTÃO 03: Descreva o espaço para o qual a gatinha se transporta.
QUESTÃO 04: Quando encontra o gato dos sonhos, o que a gata persa vê em seus olhos?
QUESTÃO 05: O gato dos sonhos revela a gata que por um tempo os felinos haviam dominado os homens. O que, segundo ele, fez com que as coisas mudassem, que os humanos passassem ao poder?
QUESTÃO 06: A partir do momento que volta à realidade, a gata persa não mais aceita ser domesticada, afinal ela ganhara uma missão. Qual é esta?
QUESTÃO 07: Podemos afirmar que em Sonho de mil gatos o espaço onírico, ou seja, dos sonhos, exerce influência sobre o espaço real? Justifique.
QUESTÃO 08: Em determinado trecho do seu discurso, a gata persa afirma que “Sonhos moldam o mundo”. Baseado nessa afirmativa e no diálogo abaixo, retirado do final do vídeo, comente a mensagem transmitida aos telespectadores da série.
| “- Senhora, eu acredito. (filhote que escutava o relato da gata) – Então há esperança, criança. (gata persa)” |
QUESTÃO 09: Caso a mensagem da gata persa levasse realmente a uma mudança de postura de todos da sua raça, uma nova realidade seria construída. Tal mudança poderia representar o surgimento de um novo espaço na narrativa. Por quê?
NOTAS:
- Acreditamos que a presença de uma disciplina específica para o trabalho com o texto literário, tal como ocorre no Ensino Médio, não garante per se, a efetiva condição para o avanço de uma abordagem qualitativa com a literatura. Todavia, não se pode igualmente descartar que a ausência de tal espaço é mais um elemento dificultador para a construção de novos jovens leitores. ↩︎
- O Fundo Nacional Para as Artes (National Endowment for the Arts ou NEA) é uma agência independente do governo federal dos Estados Unidos que oferece apoio e financiamento para projetos que exibam excelência artística. ↩︎
- É preciso sublinhar que, historicamente e, tendo em vista os debates variados acerca da autoria de múltiplos conceitos no âmbito dos escritos bakhtinianos, o cronotopo não é um conceito idealizado primeiramente por Bakhtin. O próprio autor (Bakhtin, 2014) afirma que encontrou apoio nos estudos realizados na Física por Einstein e no campo da Filosofia com os escritos de Immanuel Kant e do fisiólogo Ukhtômski. ↩︎
REFERÊNCIAS:
ABDALA JÚNIOR, Benjamin. Introdução à análise da narrativa. São Paulo: Scipione, 1995.
BAKHTIN, M./VOLOCHINOV, V. Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. Trad. Michel Lahud e Yara Frateschi Vieira. São Paulo: HUCITEC, 1992 [1929].
BAKHTIN, Mikhail. Questões de literatura e de estética: A Teoria do Romance. 7º ed. São Paulo: HUCITEC, 2014. Trad. Aurora Fornoni Bernardini et al.
BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. 4a. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003. Trad. Paulo Bezerra
CANDIDO, A. O Direito à Literatura. In: Vários Escritos. Rio de Janeiro/São Paulo: Ouro sobre Azul/Duas
COLOMER, T. Andar entre livros: a leitura literária na escola. São Paulo: Global, 2007
COSSON, Rildo. Letramento Literário: teoria e prática. São Paulo: Contexto, 2006.
JOUVE, V. A Leitura. Tradução de Brigitte Hervot. São Paulo: UNESP, 2002.
ISER, W. O ato da leitura: uma teoria do efeito estético. São Paulo: Editora 34, 1996.
MAGNANI, Maria do Rosário Mortatti. Leitura, literatura e escola – sobre a formação do gosto. São Paulo: Martins Fontes, 1989
PAULINO, Graça; COSSON, Rildo. Letramento literário: para viver a literatura dentro e fora da escola. In: ZILBERMAN, Regina; ROSING, Tânia (Org). Escola e leitura: velhas crises, novas alternativas. São Paulo: Global, 2009, p. 61 – 79.
POE, Edgar Allan. Medo Clássico. V.1. Rio de Janeiro: DarkSide Books, 2017. Tradução: Márcia Heloísa
TODOROV, Tzvetan. As estruturas narrativas – 5º ed. São Paulo: Perspectivas, 2011. Trad. Leyla Perrone-Moisés
ZILBERMAN, R. A leitura e o ensino da literatura. 2º ed. São Paulo: Contexto, 1991. SARAIVA, J., MÜGGE, E., & KASPARI, T. (2019). Formação do leitor: experiência intelectual e afetiva. Revista Desenredo, 15(2). Recuperado de http://seer.upf.br/index.php/rd/article/view/9260
ANEXO 1:
Olavinho Fecha-os-Olhos [Ole Lukøje] (1841)
Em todo o mundo não há ninguém que saiba tantas histórias como Olavinho Fecha-os-Olhos… E como sabe contá-las! É à noitinha, quando as crianças estão sentadas, tão boazinhas à mesa ou nos seus banquinhos, que chega Olavinho Fecha-os-Olhos. Sobe de mansinho as escadas, pois anda em meias, abre a porta devagarinho e puft!, esguicha leite doce nos olhos, suavemente… Suavemente, mas sempre o bastante para que não possam mantê-los abertos e, portanto, vê-lo. Passa sorrateiro por detrás, sopra-lhes levemente na nuca, tornando-lhes a cabeça pesada. Oh! Sim! Mas não lhes faz mal, pois Olavinho Fecha-os–Olhos quer o bem das crianças.
Só quer que estejam quietas e assim o estão quase sempre, quando as levam para a cama. Têm de ficar sossegadas para que ele possa contar-lhes histórias… Quando as crianças já dormem, Olavinho Fecha-os-Olhos senta-se na cama. Ele veste-se bem. A casaca é de seda, mas não é possível dizer que cor tem, pois brilha com tons verdes, vermelhos e azuis, conforme se mexe. Por baixo de cada braço traz um chapéu-de-chuva: um tem imagens, e esse põe-no sobre as crianças boas, que assim sonham toda a noite com as mais lindas histórias, e o outro, no qual nada há, põe-no por cima das crianças malcriadas, que assim dormem estupidamente e, de manhã, quando acordam, nem a mínima coisa sonharam.
Vamos agora ouvir como Olavinho Fecha-os-Olhos, durante uma semana inteira, veio todas as noites visitar um rapazinho chamado Hialmar e o que lhe contou!
Ao todo são sete histórias, pois sete são os dias da semana.
Segunda-feira
Ouve! – disse Olavinho Fecha-os-Olhos quando apanhou Hialmar na cama. – Vou fazer agora uma decoração! – As flores dos vasos transformaram-se em árvores grandes, que estendiam os longos ramos até ao teto e ao longo das paredes, de modo que todo o aposento formava o mais bonito caramanchão, e todos os ramos estavam cheios de flores e cada flor era mais bonita do que a própria rosa. Cheiravam tão bem e, quando as comia, eram mais doces do que compota! Os frutos brilhavam como ouro e havia bolos que transbordavam com passas. Era incomparável!
Mas, no mesmo momento, começou a ouvir-se um lamento terrível na gaveta onde Hialmar pusera os livros da escola.
Que é isto? – disse Olavinho Fecha-os-Olhos, e dirigiu-se à mesa, abrindo a gaveta. Era a lousa, que se sentia beliscada e apertada, pois viera um número errado para a conta, de modo que estava quase a desconjuntar-se. A pena pulava e saltava na guita, como se fosse um cãozinho que queria ajudar nas contas, mas não podia…
A seguir foi o caderno de escrita de Hialmar, que lá dentro começou a lamentar-se. Oh! Era horrível ouvi-lo! Ao alto, de cima a baixo, em cada folha estavam todas as letras grandes, cada uma com uma pequena ao lado, toda numa fila para baixo. Eram modelos e ao lado delas estavam também algumas letras que julgavam parecer-se com elas, escritas por Hialmar. Estavam como se tivessem caído sobre o traço do lápis, quando era nele que deviam estar de pé.
Vejam, é assim que têm de ficar! – disseram os modelos. Vejam, assim para o lado, com um impulso, decidido!
Oh! Bem o queremos! – disseram as letras de Hialmar. Mas não podemos, estamos tão mal!
Então vou ter de sacudir-vos o pó das bochechas! – referiu Olavinho Fecha-os-Olhos.
Oh! Não! – gritaram elas, e logo se puseram tão direitas que era um gosto vê-las.
Bem, agora não há histórias para contar! – disse Olavinho Fecha-os-Olhos.
– Tenho de exercitá-las! Um, dois! Um, dois! – E exercitou assim as letras, até que ficaram tão direitas e tão sãs, como só os modelos podem ficar. Mas quando Olavinho Fecha-os-Olhos se foi embora e Hialmar de manhã as viu, elas estavam exatamente tão miseráveis como antes.
Terça-feira
Logo que Hialmar foi para a cama, tocou Olavinho Fecha-os-Olhos com a sua seringazinha de duende em todos os móveis do aposento, que imediatamente começaram a tagarelar e todos tagarelavam sobre si próprios, exceto o escarrador, que estava calado e resmungava porque todos eram tão vaidosos, só falando de si próprios, só pensando em si próprios e não tendo o mínimo pensamento sobre aquele que ali estava tão modesto, ao canto, e deixava que lhe cuspissem em cima.
Sobre a cômoda, estava suspenso um grande quadro numa moldura dourada. Era uma paisagem. Viam-se árvores altas e velhas, flores entre a erva e muita água, um rio que corria por detrás do bosque, passando por muitos castelos, até longe, para o alto mar. Olavinho Fecha-os-Olhos tocou com a sua seringa de duende no quadro e logo começaram os pássaros a cantar, os ramos das árvores a mover-se e as nuvens puseram-se em fuga. Podiam ver-se as suas sombras sobre a paisagem.
Então Olavinho Fecha-os-Olhos levantou o pequeno Hialmar até à moldura e este meteu as pernas dentro do quadro, no meio da erva alta e lá ficou. O Sol brilhava por entre os ramos das árvores, descendo sobre ele. Correu para a água, sentou-se num barquinho que lá havia. Estava pintado de vermelho e branco, as velas brilhavam como prata, e seis cisnes, todos com coroas de ouro no pescoço e uma estrela azul cintilante na cabeça, puxaram o barco, passando pelos bosques verdes, onde as árvores contavam histórias de salteadores e bruxas e as flores histórias de adoráveis duendezinhos e do que as borboletas lhes tinham contado.
Os mais lindos peixes, com escamas como se fossem prata e ouro, nadavam atrás do barco. De vez em quando davam um salto, depois voltavam a fazer platch na água. Os pássaros, vermelhos e azuis, pequenos e grandes, voavam em duas longas filas por trás. Os mosquitos dançavam e os besouros faziam zum! Zum! Todos eles queriam seguir Hialmar, e todos tinham uma história para contar. Era um passeio à vela! Ora eram os bosques espessos e escuros, ora o mais belo jardim com Sol e flores e lá havia grandes castelos de vidro e de mármore. À varanda estavam as princesas e todas eram as meninas que Hialmar bem conhecia, pois com elas brincara antes. Estendiam as mãos e tinham o mais delicioso porquinho de açúcar que uma vendedeira de bolos podia vender.
Hialmar pegava numa das extremidades do porquinho de açúcar, enquanto passava de barco, e a princesa segurava-o bem, de modo que cada um ficava com a sua parte, ela, com a mais pequena, Hialmar, com a maior. Em cada castelo havia principezinhos de sentinela que punham ao ombro os sabres de ouro e faziam chover passas e soldados de chumbo. Eram verdadeiros príncipes!
Ora navegava Hialmar pelos bosques, ora por grandes salas ou pelo meio de uma cidade. Chegou assim a atravessar aquela em que morava a sua ama, aquela que o trouxera nos braços, quando era bem pequenino e que tanto lhe tinha querido. Ela fez-lhe sinal com a cabeça e acenou-lhe, cantando a linda cançãozinha que ela própria compusera e lhe enviara:
“Em ti penso em muita hora, meu Hialmar, tão caro meu! A boquinha beijei-te outrora, as bochechas coradas, o rosto teu. As palavras primeiras ouvi-te dizer, tive de separar-me de ti, dizer-te adeus. A bênção do Senhor venhas sempre a ter, na Terra, anjo que é do Reino de Deus!”
Todos os pássaros cantavam. As flores dançavam nos seus pés e as velhas árvores acenavam, como se Olavinho Fecha-os-Olhos lhes contasse também histórias.
Quarta-feira
Oh! Como chovia lá fora! Hialmar podia ouvi-la em sonho. E quando Olavinho Fecha-os-Olhos abriu uma janela, chegava a água até ao peitoril. Era todo um mar, mas o mais bonito navio estava junto à casa.
Queres viajar também, Hialmarzinho? – perguntou Olavinho Fecha-os-Olhos. – Durante a noite podes alcançar terra estranha e estar aqui de manhã outra vez! Hialmar ficou logo com a roupa de domingo no meio do belo navio e imediatamente o tempo se pôs maravilhoso, começaram a navegar pelas ruas, cruzaram a igreja e agora era tudo um grande mar bravo. Viajaram tanto que não havia mais terra para ver e se depararam com um bando de cegonhas que vinha da pátria e queria ir para as terras quentes. Cada uma das cegonhas voava atrás da outra e já tinham voado muito, muito. Uma delas estava tão cansada que as asas quase a não aguentavam mais. Era a última da fila e em breve ficou muito para trás. Por fim, desceu com as asas abertas, cada vez mais para baixo. Adejou ainda um par de vezes, mas não serviu de nada. Depois tocou com as patas no cordame do navio, escorregou pela vela, e pumba! pousou na coberta.
Então, o moço de bordo pegou nela e a colocou na capoeira, com as galinhas, os patos e os perus. A pobre cegonha ficou toda desanimada no meio deles.
Há cada uma! – disseram as galinhas todas.
O peru inchou tanto quanto pôde e perguntou quem era. E os patos recuaram e empurraram-se uns aos outros: vá!, vá!, vá! A cegonha falou-lhes da África quente, das pirâmides e da avestruz que corria como um cavalo selvagem pelos desertos, mas os patos não entenderam o que ela contava, assim empurraram-se uns aos outros, perguntando:
Não concordam que ela é estúpida?
Sim, é certamente estúpida! – retorquiu o peru, gorgolejando. Então a cegonha calou-se e pôs-se a pensar na sua África.
São bonitas e finas as pernas que você tem! – disse o peru.
Quanto custa o alen?
Crá! Crá! Crá! – arreganharam todos os patos, mas a cegonha fez como se não tivesse ouvido nada.
Pode rir também! – disse o peru. – Aquilo que eu disse foi dito com muita graça! Ou foi talvez demasiado vulgar! Ah! Ah! Não compreende o espírito! Permita-nos que continuemos a ser interessantes para nós próprios! – E assim gorgolejou e os patos grasnaram: qui, cá!, qui, cá! Era terrível, por muito divertido que o achassem.
Mas Hialmar foi à capoeira, abriu a porta, chamou a cegonha, que saltou para ele na coberta. Estava agora repousada e foi como se acenasse a Hialmar para lhe agradecer. Depois abriu as asas e voou para os países quentes, mas as galinhas cacarejaram, os patos grasnaram e o peru ficou todo rubro na cabeça.
Amanhã vamos comer sopa de vocês! – disse Hialmar, mas, acordou e estava na caminha. Foi uma viagem maravilhosa a que Olavinho Fecha-os-Olhos lhe proporcionou naquela noite.
Quinta-feira
Sabes uma coisa? – disse Olavinho Fecha-os-Olhos. – Não tenhas medo! Vais ver um ratinho! – E estendeu a mão para ele, com o leve e encantador bichinho. Veio convidar-te para o casamento. Há aqui dois ratinhos que querem contrair matrimônio hoje à noite. Moram por baixo da despensa da tua mãe. Devem ter assim uma bonita casa!
Mas como posso entrar no buraquinho dos ratos no chão? – perguntou Hialmar.
Deixa isso por minha conta! – disse Olavinho Fecha-os-Olhos. Vou fazer-te pequenino! – E assim tocou com a sua seringa de duende em Hialmar, que logo se foi tornando cada vez mais pequeno até ficar do tamanho de um dedo.
– Agora podes pedir emprestadas as roupas do soldado de chumbo. Penso que te servirão e é sempre chique aparecer de uniforme, quando se está em sociedade.
Está bem! – respondeu Hialmar. Num instante, ficou vestido como o mais bonito soldado de chumbo.
Quereis ter a bondade de sentar-vos no dedal de vossa mãe! – disse o ratinho. – Terei assim a honra de vos puxar!
Valha-me Deus! Ides dar-vos vós próprio a esse incômodo! – retorquiu Hialmar. E assim partiram para a boda dos ratinhos.
Primeiro entraram por baixo do chão, para um longo corredor que mais alto não era do que se permitia aí andar num dedal e todo o corredor estava bem iluminado com madeira apodrecida.
Não cheira aqui bem? – perguntou o rato que o puxava. – Todo o corredor está untado com pele de toucinho. Não pode ser mais bonito!
Entraram depois na sala da boda. À direita estavam todas as ratinhas, que murmuravam, como se fizessem pouco umas das outras. À esquerda encontravam-se todos os ratinhos, que acariciavam os bigodes com as suas patas. No centro via-se o par de noivos, que estava numa casca de queijo esburacado e se beijocava escandalosamente perante os olhos de todos, pois já eram noivos e iam celebrar a boda.
Chegavam constantemente mais e mais convidados. Cada rato estava quase a pisar mortalmente o outro e o par de noivos colocara-se a meio da porta, de modo que nem se podia sair nem entrar. Para o banquete, toda a sala, tal como o corredor, foi untada com pele de toucinho.
Para a sobremesa foi exibida uma ervilha que um ratinho da família tinha mordiscado, gravando os nomes do par de noivos, quer dizer, as primeiras letras. Era algo bastante extraordinário!
Os ratos afirmaram que fora uma bela boda e que as conversas tinham sido muito agradáveis.
Hialmar voltou de carruagem para casa. Estivera realmente numa sociedade distinta, mas tivera também de se encolher todo, de se fazer pequenino para poder entrar no uniforme do soldadinho de chumbo.
Sexta-feira
É incrível como muitas pessoas velhas gostariam de me apanhar! – disse Olavinho Fecha-os-Olhos.
– São precisamente aquelas que fizeram algo de mal. – Bom Olavinho! – dizem-me.
– Não conseguimos pregar olho e por isso estamos deitadas toda a noite a ver as nossas ações más que, como pequenos feiticeiros feios, se sentam na borda da cama e nos salpicam com água quente. Nãoqueres vir expulsá-los para que possamos ter um bom sono? – E assim suspiram profundamente:
-Queremos pagar-te! Boa noite, Olavinho! O dinheiro está na janela!
Mas eu não faço nada por dinheiro – disse Olavinho Fecha-os-Olhos.
Que vamos fazer esta noite? – perguntou Hialmar.
Bem, não sei se tens vontade de ir a uma boda. É diferente da de ontem. A boneca grande da tua irmã, que parece um boneco e se chama Hermano, vai casar-se com a boneca Berta. Além disso é o dia de anos da boneca e por isso vão ser oferecidos muitos presentes.
Sim, conheço isso bem! – disse Hialmar. – Sempre que as bonecas precisam de novos vestidos, fá-las minha irmã festejar o aniversário ou a boda! Já sucedeu isso umas cem vezes! Sim, mas hoje é a boda cento e um e quando se faz a cento e um, está tudo acabado! Por isso é também incomparável! Ora vê!
Hialmar olhou para a mesa. Lá estava a casinha de cartão com luz nas janelas e todos os soldadinhos de chumbo apresentavam armas cá fora. O par de noivos estava sentado no chão, inclinado para o pé da mesa, bastante pensativo e bem podia ter razões para isso. Mas Olavinho Fecha-os-Olhos, vestido com a saia preta da avó, casava-os. Quando a cerimónia terminou, começaram a cantar em coro todos os móveis da sala a linda canção seguinte:
“O autor era o lápis e a música soava como a do toque de recolher. A nossa canção como brisa vai chegar na sala aos noivos prontos a casar; direitinho como um pau está o par em pele de luva forma veio a tomar! Hurra! Hurra! Vimos pau e pele saudar; alto, para o ar e vento estamos a cantar!”
Receberam então os presentes, mas tinham declinado todas as coisas comestíveis, pois chegava-lhes o seu amor.
Vamos ficar no campo ou viajar para o estrangeiro? – perguntou o noivo.
Por isso foi pedido conselho à andorinha, que tinha viajado muito, e à velha galinha do pátio, que tinha chocado pintos cinco vezes. A andorinha contou coisas dos belos países quentes, onde há uvas grandes e pesadas suspensas, onde o ar é tão suave e as montanhas têm cores que aqui mal se conhecem.
Mas não têm a nossa couve! – disse a galinha. – Passei um Verão com todos os meus pintos no campo. Havia uma saibreira, onde podíamos ir esgravatar e assim tínhamos admissão a uma horta com couve. Oh! Como era verde! Não posso imaginar coisa mais bela!
Mas cada talo de couve é igual ao outro! – afirmou a andorinha. – E aqui faz muitas vezes tão mau tempo!
Sim, mas está-se acostumado! – confirmou a galinha.
– E aqui faz frio, gela-se!
Isso faz bem à couve! – retorquiu a galinha. – Além disso, também podemos ter calor! Não tivemos há quatro anos um Verão que durou cinco semanas? Fez tanto calor que não se podia respirar! E não temos aqui todos os animais venenosos que têm lá? E estamos nós livres de salteadores? É um patife aquele que não acha que a nossa terra é a mais bonita! Não merece, na verdade, viver aqui!
A galinha chorou:
– Eu também viajei! Andei numa selha doze milhas! Não é nenhum prazer viajar!
Sim, a galinha é uma criatura sensata! – disse a boneca Berta. – Também não gosto de viajar na montanha, pois só se anda para cima e, depois, só para baixo! Não, vamo-nos embora para a saibreira e passear na horta!
E assim foi.
Sábado
Vou ouvir agora histórias? – perguntou Hialmarzinho, logo que Olavinho Fecha-os-Olhos o conseguiu pôr a dormir.
Hoje à noite não temos tempo para isso! – disse Olavinho, abrindo o seu chapéu-de-chuva mais bonito por cima dele
Olha para estes chineses! – E todo o chapéu-de-chuva parecia uma grande tigela chinesa com árvores azuis e pontes agudas com chinesinhos acenando com a cabeça.
– Vamos limpar todo o mundo e pô-lo bonitinho até amanhã! – disse Olavinho
– Pois é um dia santo. É domingo. Vou ao campanário ver se os duendezinhos da igreja estão polindo os sinos para que soem bem. Vou ao campo ver se os ventos sopram, varrendo ervas e folhas, e o que é o maior trabalho, tenho de trazer todas as estrelas para baixo para as polir. Ponho-as no meu avental, mas primeiro cada uma tem de ser numerada, e os buracos onde elas se encontram, lá em cima, também têm de ser numerados, para que voltem aos os seus lugares, senão não se fixam e temos demasiadas estrelas cadentes, pois caem umas por cima das outras.
Sabe uma coisa, Sr. Fecha-os-Olhos? – disse um velho retrato pendurado na parede do quarto em que Hialmar dormia –, sou o bisavô de Hialmar.
Devo agradecer-lhe por contar histórias ao rapaz, mas não deve embaralhar lhe as ideias. As estrelas não podem ser retiradas a fim de serem polidas. As estrelas são globos como a nossa Terra e é precisamente o que há de bom nelas!
Muito obrigado, velho avô! – disse Olavinho Fecha-os-Olhos.
Muito obrigado! És a cabeça da família, és a velha cabeça! Mas eu sou mais velho do que tu! Sou um velho pagão. Os Romanos e os Gregos denominavam-me deus dos sonhos! Entrei nas casas mais distintas e ainda entro! Sei lidar tanto com grandes como com pequenos. Conta tu agora histórias! – E assim partiu Olavinho Fecha-os-Olhos, levando o chapéu-de-chuva consigo.
Já não se pode realmente dar uma opinião! – observou o velho retrato.
E então acordou Hialmar.
Domingo
Boa noite! – disse Olavinho Fecha-os-Olhos e Hialmar acenou com a cabeça, mas logo saltou e virou o retrato do bisavô para a parede, para que não pudesse meter-se na conversa como na noite anterior.
Agora vai me contar histórias sobre as cinco ervilhas verdes que viviam numa vagem e sobre a perna de galo que fazia a corte à perna de galinha e sobre a agulha de passajar que era tão fina que se julgava uma agulha de coser!
Pode-se também ter de mais do que é bom! – disse Olavinho Fecha-os-Olhos.
– Quero antes mostrar-te algo diferente, sabes! Quero mostrar-te o meu irmão. Chama-se também Olavinho Fecha-os-Olhos, mas nunca visita ninguém mais de uma vez e, quando vem, leva-o no seu cavalo e conta-lhe histórias. Ele só sabe duas, uma é tão extraordinariamente bonita, que ninguém no mundo pode imaginá-la, e a outra é tão feia e cruel, que não se pode descrever! – Depois Olavinho Fecha-os-Olhos levantou o Hialmarzinho até à janela e disse:
– Vais ver o meu irmão, o outro Olavinho Fecha-os-Olhos! Chamam-no também Morte! Estás a ver, não parece tão feio como nos livros de estampas, onde é um esqueleto! Não, há bordados de prata no casaco que traz! É o mais belo uniforme de hussardo! Uma capa de veludo preto adeja sobre o cavalo! Vê como cavalga a galope!
Hialmar viu como aquele Olavinho Fecha-os-Olhos partia a cavalgar, levando tanto gente nova como velha no cavalo. A alguns punha-os à frente e a outros atrás, mas sempre lhes perguntava primeiro:
Como está a caderneta das notas?
Boa – respondiam todos.
– Bem, deixa-me ver eu próprio! – dizia ele. E assim tinham de mostrar-lhe a caderneta. Os que tinham muito bom e distinto vinham para a frente do cavalo e eram-
-lhes contadas as mais lindas histórias, mas aqueles que tinham bom e sofrível tinham de ir para trás e ouviam histórias feias. Tremiam e choravam, queriam saltar do cavalo, mas não conseguiam, pois era como se estivessem ligados a ele carne com carne.
Mas a Morte é assim o Olavinho Fecha-os-Olhos mais belo! – disse Hialmar. – Dele não tenho medo!
Não deves ter! – confirmou Olavinho Fecha-os-Olhos. – Procura simplesmente ter uma boa caderneta de notas!
Sim, isso é instrutivo! – murmurou o retrato do bisavô. – Sempre ajuda alguma coisa dar uma opinião! – E ficou satisfeito. Pois é esta a história de Olavinho Fecha-os-Olhos! Ele próprio pode contar-te à noite algo mais
ANEXO 2:
FICHAS UTILIZADAS








ANEXO 3:
A QUEDA DA CASA DE USHER, EDGAR ALLAN POE
Durante todo aquele triste, escuro e silencioso dia outonal, com o céu encoberto por nuvens baixas e opressivas, estive percorrendo sozinho, a cavalo, uma região rural singularmente deserta, até que enfim avistei, com as primeiras sombras da noite, a melancólica Casa de Usher. Não sei por quê, mas, assim que entrevi a construção, um sentimento de intolerável tristeza apoderou-se de meu espírito. Digo intolerável, porque essa impressão não era suavizada por qualquer sensação meio prazenteira, porque poética, com que a mente geralmente recebe até mesmo as mais sombrias imagens naturais de desolação e de terror.
Observei a paisagem à minha frente: a casa simples e a simplicidade do aspecto da propriedade, as paredes frias, as janelas semelhantes a órbitas vazias, os poucos canteiros com ervas daninhas e alguns troncos esbranquiçados de árvores apodrecidas, e senti na alma uma depressão profunda que não posso comparar a nenhuma sensação terrena senão ao que experimenta, ao despertar, o viciado em ópio: o amargo retorno à vida cotidiana, o terrível descair de um véu. Havia um frio, uma prostração, uma sensação de repugnância, uma irrecuperável aflição de pensamento que nenhum excitamento da imaginação conseguiria forçar a transformar-se em algo sublime. Que era, parei para pensar, que era que tanto me perturbava ao contemplar a Casa de Usher? Era um mistério completamente insolúvel, e eu não conseguia controlar as sombrias imagens que me enchiam a cabeça enquanto refletia isso. Fui forçado a socorrer-me da conclusão nada satisfatória de que existem, sem dúvida, combinações de objetos naturais muito simples, que têm o poder de nos afetar assim, embora a análise desse poder se situe em considerações além de nossa perspicácia. Era possível, pensei, que um mero arranjo diferente nos pormenores da cena, dos detalhes do quadro, bastasse para modificar, ou talvez, para suprimir sua capacidade de provocar impressões aflitivas. Com essa ideia na cabeça, guiei o cavalo até a margem íngreme de um fosso negro e sinistro cujas águas paradas refulgiam junto a casa e contemplei, com um arrepio ainda mais forte do que antes, a imagem invertida e modificada dos arbustos cinzentos, dos lívidos troncos de árvores e das janelas semelhantes a órbitas vazias.
Apesar disso, era nessa desolada mansão que eu tencionava passar algumas semanas. O proprietário, Roderick Usher, havia sido um de meus melhores amigos de infância, mas muitos anos tinham se passado desde o nosso último encontro. Uma carta, no entanto, que me chegara recentemente numa parte distante do país – uma carta dele – exigia pela insistência de seu teor resposta pessoal. A caligrafia revela agitação nervosa. O remetente falava de aguda doença física, de opressiva perturbação mental e do intenso desejo de me ver, como seu melhor e na verdade único amigo pessoal, com a intenção de lograr, pela alegria de minha companhia, algum alívio para sua doença. A maneira pela qual tudo isso e muito mais coisas foram ditas e o manifesto estado de espírito expresso no pedido impediram-me qualquer hesitação e por esse motivo obedeci na mesma hora ao que ainda considerava como um convite muito estranho.
Apesar de, quando crianças, termos sido companheiros íntimos, eu, na verdade, conhecia pouco meu amigo. Sua reserva sempre tinha sido excessiva e habitual. Eu sabia, no entanto, que sua família, muito antiga, distinguia-se havia muito tempo pela peculiar sensibilidade de temperamento, demonstrada ao longo de muitos séculos em notáveis obras de arte e que ultimamente se manifestava em repetidos atos de generosa e discreta caridade e também na apaixonada devoção pela complexidade da ciência musical, talvez ainda mais do que por suas belezas naturais e fáceis de reconhecer. Fiquei sabendo também de um fato incrível: o tronco da linhagem dos Usher, embora tão antiga, nunca tinha produzido qualquer ramo duradouro. Em outras palavras, a família se perpetuara apenas em linha direta e assim continuava, com variações bem poucos importantes e temporárias. Era essa deficiência, pensava eu, enquanto repassava em pensamento a perfeita harmonia entre o aspecto da propriedade e o caráter de seus moradores, imaginando a possível influência que aquela podia ter exercido, ao longo dos séculos, sobre estes – era essa deficiência, talvez, de um ramo colateral e a consequente transmissão direta, de pai para filho, do patrimônio e do nome da família que havia, ao longo dos tempos, identificado ambas de tal modo que fundiram o título original da propriedade na estranha e equívoca designação de Casa de Usher – designação que, na mente dos camponeses que a utilizavam, parecia servir tanto para a família quanto para a mansão da família
Eu disse que o único efeito da minha experiência um tanto infantil de olhar para o fosso havia sido aprofundar aquela primeira impressão. Sem dúvida, quando tomei consciência do rápido aumento de minha superstição (por que não usar esse termo?), isso serviu principalmente para intensificar o próprio aumento. Tal é, sei disso há muito tempo, a lei paradoxal de todos os sentimentos fundados no terror. E pode ter sido por essa única razão que, ao levantar os olhos de sua imagem no fosso para a própria mansão, surgiu-me na mente uma estranha visão – tão estranha, de fato, que só a menciono para mostrar a intensa força das sensações que me sufocavam. Minha imaginação mostrava-se tão excitada que realmente acreditei que em volta da mansão e da propriedade pairava uma atmosfera especial, própria do lugar e de seus arredores, atmosfera que não se relacionava como o ar do céu, emanando antes das árvores apodrecidas, das paredes cinzentas, do fosso silencioso – um vapor místico e pestilento, espesso, entorpecido, sutil e lívido.
Afastando do espírito o que devia ser um sonho, examinei mais atentamente o aspecto real do edifício. Sua característica principal parecia ser a extrema antiguidade. Fora grande a descoloração causada pelos séculos. Minúsculos fungos cobriam todo o exterior, pendendo dos beirais qual fina e emaranhada teia. Mas nada disso indicava grande destruição. Nenhum bloco de alvenaria tinha desmoronado, mas parecia haver um profundo contraste entre o encaixe ainda perfeito das partes e as péssimas condições de cada pedra. Isso me lembrou muito a enganosa integridade de antigas peças de madeira que apodreceram por longos anos em algum porão esquecido, sem serem perturbadas pelo sopro do ar exterior. Afora esse indício de grande decadência, porém, a construção não mostrava nenhum sinal de falta de segurança. Talvez o olho de um observador mais atento conseguisse descobrir uma fenda quase imperceptível que riscava a frente do edifício desde o telhado, descendo em ziguezague pela parede até mergulhar nas águas turvas do fosso.
Observando tudo isso, atravessei a cavalo o curto carreiro que levava até a casa. Um cavalariço levou minha montaria, e avancei pelo arco gótico do vestíbulo. Um criado de andar furtivo conduziu-me então, calado, por muitas passagens escuras e tortuosas, até o gabinete de seu patrão. Muitas das coisas que vi pelo caminho contribuíam, não sei como, para fortalecer os imprecisos sentimentos dos quais já falei. Os objetos à minha volta – os entalhes do forro, as sombrias tapeçarias das paredes, o negrume de ébano do assoalho e as fantasmagóricas armaduras que retiniam quando eu passava – eram coisas com que eu estava, ou devia estar familiarizado desde a infância, mas, embora não hesitasse em reconhecê-las como tais, ainda me espantava ao perceber como eram estranhas as visões que essas imagens tão comuns produziam em mim. Numa das escadas, cruzei com o médico da família. Julguei ver em sua fisionomia uma expressão desanimada e perplexa. Cumprimentou-me agitado e afastou-se. O criado então abriu uma porta e me levou até a presença de seu patrão.
Achei-me numa sala muito ampla e alta. As janelas, compridas, estreitas e pontudas, tinham peitoris tão afastados do assoalho de carvalho negro que era impossível alcançá-los. Fracos raios de luz avermelhada penetravam pelas vidraças guarnecidas com rótulas, só conseguindo tornar visíveis os objetos próximos mais volumosos. O olhar, porém, lutava em vão para perceber os cantos mais distantes da sala ou os recessos do forro em abóbada guarnecido com entalhes. Sombrias cortinas pendiam das paredes. O mobiliário era excessivo, desconfortável, antigo e gasto. Os muitos livros e instrumentos musicais que jaziam dispersos não conseguiam dar vitalidade alguma ao ambiente. Senti que respirava uma atmosfera de tristeza. Um ar de severo, profundo e irrecuperável desalento pairava sobre as coisas e impregnava a tudo.
Assim que entrei, Usher levantou-se do sofá onde estava deitado ao comprido e cumprimentou-me com calorosa vivacidade, na qual havia muito, de início julguei, de cordialidade forçada, do esforço constrangido de um homem de sociedade entediado. Mas, olhando seu rosto, convenci-me de sua perfeita sinceridade. Sentamos e, por alguns momentos, como ele não falava nada, fiquei olhando-o com um sentimento misto de piedade e espanto. Com toda a certeza, nenhum homem jamais se transformara tão terrivelmente, em período tão curto, quanto Roderick Usher! Só com muita dificuldade consegui admitir que o homem doentio diante de mim era o mesmo companheiro de infância. No entanto, suas feições sempre tinham sido notáveis: tez cadavérica; olhos grandes, líquidos e luminosos, sem comparação; lábios um tanto finos e muito pálidos, mas de conformação extremamente bela; o nariz, com delicado desenho hebraico, mas exibindo narinas largas, incomuns nesse tipo; o queixo finamente delineado, revelando, pela ausência de volume, carência de energia moral; cabelos mais finos e macios que os fios de uma teia. Todos esses traços e mais o extraordinário desenvolvimento da fronte combinavam-se num aspecto difícil de esquecer. E agora, com o mero exagero desses traços e da expressão que costumavam mostrar, havia tal mudança que cheguei a duvidar de que era com ele que falava. A cadavérica palidez da pele e o brilho agora sobrenatural dos olhos, acima de tudo, surpreendiam-me e até me aterravam. O cabelo sedoso também tinha crescido descuidadamente e como, por causa da textura muito fina, flutuasse em vez de cair nos lados do rosto, eu não conseguia, mesmo com esforço, vincular sua expressão fantástica com qualquer ideia de simples humanidade.
Fiquei abalado ao perceber logo certa incoerência nas maneiras de meu amigo, certa inconsistência, e logo descobri que isso se devia a uma série de fracos e inúteis esforços para dominar tremor frequente, uma excessiva agitação nervosa. Eu estava preparado para encontrar algo assim, não só por sua carta, mas também pela lembrança de certos traços juvenis e pelas conclusões deduzidas de seu estado físico e de seu temperamento. Suas atitudes alternavam da vivacidade ao desânimo. A voz variava, rapidamente, passando da trêmula indecisão (quando seu ardor parecia tornar-se profundamente entorpecido) para o tipo de energética concisão, para a abrupta, pesada, lenta e oca articulação, para a fala arrastada, controlada, gutural e perfeitamente modulada que se pode observar nos bêbados costumazes e nos fumadores de ópio irrecuperáveis, durante os períodos mais intensos de excitação.
Foi assim que ele se referiu ao objetivo de minha visita, de seu grande desejo de me ver e do alívio que esperava encontrar em minha companhia. Depois, falou por algum tempo do que achava da natureza de sua doença. Segundo ele, era um mal de família e de nascença, para o qual já tinha perdido a esperança de encontrar remédio; mera perturbação nervosa, disse logo em seguida, que sem dúvida ia passar logo. A doença se manifestava numa série de sensações antinaturais. Algumas, enquanto as ia descrevendo, me deixaram interessado e confuso, apesar talvez de que tenham influído os termos usados e a forma geral da descrição. Ele sofria, e muito, de doentia exageração dos sentidos: só tolerava o mais insípido alimento; não podia usar senão roupas de determinadas texturas; os perfumes de todas as flores pareciam-lhe sufocantes; até a luz mais suave lhe torturava os olhos e só os sons especiais dos instrumentos de cordas não lhe provocavam horror.
Compreendi que ele estava escravizado por uma espécie anormal de terror.
– Vou morrer – disse ele. – Devo morrer nesta loucura lamentável. Assim, assim e de nenhuma outra forma é que vou me perder. Abomino os fatos do futuro, não em si mesmos, mas por seus resultados. Estremeço diante da ideia de qualquer incidente, até mesmo o mais trivial, que possa afetar essa intolerável agitação da alma. Não tenho, na verdade, aversão pelo perigo, a não ser em seu efeito absoluto: o terror. Neste deplorável estado de abatimento sinto que mais cedo ou mais tarde chegará um momento em que vou ter de abandonar ao mesmo tempo a vida e a razão, na luta com o fantasma sinistro do medo.
Descobri também, aos poucos e através de pistas equívocas fragmentadas, outro traço singular de seu estado mental. Ele estava acorrentado a certas impressões supersticiosas quanto à casa em que morava e da qual, por longos anos, não se aventurava a sair… a uma influência, cuja suposta força foi narrada em termos vagos demais para reproduzir aqui… influência que alguns detalhes da matéria e da forma da mansão familiar tinham, às custas de longo sofrimento, conseguindo exercer sobre seu espírito… efeito físico que as paredes e torres cinzentas e o sombrio fosso onde elas refletiam tinham acabado por exercer sobre a moral de sua existência.
Ele admitia, porém, embora com hesitação, que grande parte do desalento que sofria talvez tivesse origem mais natural e bem mais palpável: na séria e prolongada doença (na verdade, na morte evidentemente próxima) de uma irmã adorada, sua única companheira por longos anos, sua única e última parenta nesta terra.
– A morte dela – disse ele, com amargura que nunca esquecerei – tornará (a ele, fraco e sem esperanças) o último representante da antiga raça dos Usher.
Enquanto falava, Lady Madeline (pois era assim que se chamava) passou pela parte mais distante do aposento e, sem notar minha presença, desapareceu. Olhei-a com profunda surpresa e uma ponta de medo – e, no entanto, não encontrava explicação para esses sentimentos. Uma sensação de estupor me sufocava, enquanto seguia com os olhos seus passos. Quando uma porta, afinal, se fechou atrás dela, meu olhar procurou instintiva e ansiosamente o irmão, mas este escondera o rosto nas mãos, e só pude perceber que uma palidez maior que a normal tinha tomado conta dos dedos magros, pelos quais escorriam muitas lágrimas emocionadas.
A doença de Lady Madeline vinha desafiando, por muito tempo, a habilidade dos médicos. Apatia permanente, progressivo enfraquecimento físico e crises frequentes, mas passageiras, caráter parcialmente cataléptico eram o diagnóstico incomum. Até então ela tinha resistido firmemente contra o avanço da doença, recusando-se a cair de cama, mas no final da tarde de minha chegada ela sucumbiu (como me contou o irmão, à noite, com indescritível agitação) ao poder destruidor do mal. E compreendi que a visão de relance de seu vulto seria provavelmente a última e que não veria mais a moça, pelo menos com vida.
No decorrer dos dias seguintes, seu nome não foi mencionado por Usher ou por mim. Durante esse período dediquei-me vivamente a aliviar a melancolia de meu amigo. Pintávamos e líamos juntos; ou eu ouvia, como num sonho, as arrebatadas improvisações que ele fazia em sua eloquente guitarra. E assim, à medida que aumentava a intimidade que ia me revelando os recessos mais íntimos de seu espírito, mais amargamente eu percebia quão inúteis seriam as tentativas de alegrar aquela mente da qual a escuridão, como uma qualidade inerente e ativa, vertia sobre todos os objetos do mundo físico e moral uma incessante radiação de tristeza.
Ficarão para sempre gravadas em minha memória as muitas horas solenes que passei a sós como o chefe da Casa de Usher. Mas nunca conseguiria dar uma ideia do caráter exato dos estudos ou das ocupações em que ele me envolvia ou me conduzia. Uma idealidade excitada e altamente desequilibrada lançava um brilho sulfuroso sobre todas as coisas. Suas longas cantigas fúnebres soarão para sempre em meus ouvidos. Entre outras coisas, lembro-me dolorosamente de certa estranha alteração e amplificação da romântica melodia da última valsa de Von Weber. Quanto às pinturas em que extravasava sua elaborada fantasia e que se metamorfoseavam, pincelada por pincelada, até atingir uma indefinição que me causava estremecimentos ainda mais emocionantes, pois eu não sabia por que estremecia – quanto a essas pinturas (tão vívidas que até hoje tenho suas imagens diante dos olhos) em vão me esforçaria para retirar delas apenas uma pequena parte, passível de ser traduzida por simples palavras escritas. Através da extrema simplicidade e crueza do desenho, ele retinha e dominava a atenção. Se algum mortal jamais pintou uma ideia, esse mortal foi Roderick Usher. Para mim, pelo menos, na situação em que então me encontrava, dessas puras abstrações que o hipocondríaco conseguia projetar nas suas telas surgia um terror intenso e intolerável, assombro que nem de longe jamais senti nas fantasias (sem dúvida brilhantes) de Fuseli, mas ainda assim concretas demais.
Uma das criações fantasmagóricas de meu amigo em que esse espírito abstrato não era tão rígido pode ser descrita, ainda que pobremente, em palavras. Era um quadro pequeno, representando o interior de uma câmara ou túnel imensamente longo e retangular, com paredes baixas, lisas, brancas e sem qualquer interrupção ou adornos. Certos detalhes do desenho conseguiam dar muito bem a ideia de que essa escavação ficava a uma extrema profundidade, abaixo da superfície da terra. Não se via qualquer abertura em toda a sua vasta extensão nem se percebiam tochas ou qualquer outra fonte de luz artificial. No entanto, uma torrente de intensos raios jorrava, banhando tudo num esplendor cadavérico e antinatural.
Falei há pouco do estado mórbido do nervo auditivo, que tornava intolerável qualquer música para esse sofredor, com exceção de certos efeitos de instrumentos de cordas. Foram, talvez, os estreitos limites a que ele se limitava na guitarra que deram origem, em grande parte, ao caráter fantástico de suas execuções. Mas a fervorosa facilidade de seus improvisos era inexplicável. Deviam ser e eram, tanto nas notas quanto nas palavras de suas loucas fantasias (pois ele muitas vezes acompanhava a música com improvisações verbais rimadas), resultado da intensa e imperturbável concentração mental de que já falei antes, só observáveis nos momentos de maior excitação artificial. Lembro-me facilmente das palavras de uma dessas rapsódias. Fiquei, talvez, tão impressionado quando ele as cantou, porque, na corrente subjacente ou mística de seu significado, julguei perceber, pela primeira vez, que Usher tinha plena consciência da instabilidade de sua mente altiva sobre seu trono. Os versos, intitulados “O Palácio Assombrado”, eram quase exatamente assim:
I
No mais verde de nossos vales, por bons anjos habitado, outrora um belo e rico palácio, Radiante palácio, se erguia.
Nos domínios do rei Pensamento,
Lá estava ele!
Nunca serafim algum abriu as asas sobre tão bela obra.
II
Bandeiras amarelas, gloriosas, douradas, em seus telhados flutuavam, ondulando (Isso, tudo isso, ocorreu nos velhos tempos de antigamente)
E toda suave brisa que brincava, naqueles doces dias,
Pelos muros pálidos e engalanados, um sublime perfume desprendia.
III
Quem passava por esse vale feliz por duas janelas luminosas via Espíritos deslizando, musicais, ao som de alaúde bem afinado,
Em volta de um tronco, onde sentava-se Porfirogênito!,
Na grandeza de sua glória muito justa, O senhor desse reinado.
IV
Pela bela porta do palácio Brilhante com pérolas e rubis,
Ia passando, passando, passando,
E sempre mais cintilando,
Uma tropa de Ecos cujo doce dever Era apenas cantar
Com vozes de insuperável beleza, A viva sabedoria do rei.
V
Mas vultos maus, trajados de luto, atacaram o alto reino do monarca; (Ah, choremos, pois nunca mais
O dia vai nascer para ele, o desolado!) E, em volta do palácio, a glória
Que brilhava e florescia
Não passa agora de mal lembrada história dos velhos tempos sepultados.
VI
E quem passa agora pelo vale, pelas janelas rubras vê
Enormes formas que fantásticas se movem, ao som de melodia discordante;
Enquanto isso, como rio terrível, pela pálida porta se precipita
Para sempre uma hedionda multidão que gargalha, mas não mais sorri.
Lembro-me bem de que as sugestões despertadas pela balada nos levaram a uma linha de pensamento em que se tornou manifesta uma opinião de Usher, que menciono não tanto por causa de sua novidade (pois outros homens já pensaram desse modo), mas devido à insistência com que ele a defendia. Essa opinião, em termo gerais, afirmava que todos os vegetais têm sensibilidade. Mas, na imaginação desordenada de Usher, essa ideia tinha assumido caráter ainda mais ousado e chegava, sob certos aspectos, ao reino das coisas inorgânicas. Não encontro palavras para expressar toda a extensão, ou melhor, a sincera espontaneidade de sua convicção. Tal crença, no entanto, relacionava- se (como já insinuei antes) com as pedras cinzentas da mansão e seus antepassados.
As condições para essa sensibilidade eram realizadas, imaginava ele, no método de colocação das pedras e na ordem com que tinham sido organizadas, assim como na dos muitos fungos que as cobriam e nas árvores agonizantes que existiam em volta, mas, acima de tudo, na longa e imperturbável duração desse arranjo e na sua duplicação nas águas paradas do fosso. A prova (a prova dessa sensibilidade) podia ser encontrada, dizia ele (e me assustei ao ouvir tal coisa), na lenta mas inegável condensação de uma atmosfera que lhes era própria em torno das águas e das paredes. O resultado podia ser percebido, acrescentou ele, na influência silenciosa, mas perturbadora e terrível, que vinha moldando havia séculos o destino de sua família e que fizera dele, como eu podia ver agora, aquilo que ele era. Essas opiniões dispensam comentário e não farei nenhum.
Nossos livros – os livros que durante anos constituíram grande parte da existência mental do doente – estavam, como se pode supor, em harmonia absoluta com esse caráter fantasmagórico. Lemos juntos, atentamente, obras como Vert Vert e a epístola La Chartreuse, de Gresset; Belphegor, de Maquiavel; Céu e inferno, de Swendenborg; Viagem subterrânea de Nils Klimm, de Holberg; Quiromancia, de Robert Flud, de Jean D`Indaginé e de De la Chambre; Jornada às distâncias azuis, de Tieck; e Cidade do sol, de Campanella. Um dos volumes preferidos era uma pequena edição in- oitavo do Directorium Inquisitorum, do padre dominicano Eymerico de Gerona; e havia passagens de Pomponius Mela, sobre os velhos sátiros africanos e mitológicos, sobre os quais Usher era capaz de sonhar durante horas. Seu maior prazer, no entanto, era a leitura de um raro e curioso livro em gótico in-quarto, o manual de uma igreja esquecida, as Vigiliae Mortuorum secundum Chorum Ecclesiae Maguntinae.
Eu não podia deixar de pensar no estranho ritual descrito nesse livro e na sua provável influência sobre o hipocondríaco quando, uma noite, depois de me informar repentinamente que Lady Madeline havia morrido, ele disse que tinha intenção de manter o corpo por quinze dias (antes do enterro definitivo) em uma das muitas câmaras subterrâneas existentes no interior da mansão. A razão profana para essa estranha atitude, no entanto, era tal que não me sentia à vontade para discutir. Como irmão, tinha sido levado a essa resolução (assim me contou ele) por causa da natureza incomum da doença da falecida, de certas perguntas inconvenientes e ansiosas feitas pelos médicos e por causa da localização distante e exposta do jazigo da família. Não posso negar que, ao lembrar do rosto sinistro da pessoa que encontrei na escada no dia em que cheguei àquela casa, não senti nenhum impulso para me opor a uma preocupação que me parecia inofensiva e de forma alguma antinatural.
A pedido de Usher, ajudei-o nos preparativos do sepultamento provisório. Depois de colocar o corpo no caixão, nós dois, sozinhos, o levamos até o lugar de descanso. A câmara em que o deixamos (e que estivera fechada por tanto tempo que nossas tochas, quase apagadas pela atmosfera abafada, não nos permitiram examinar) era pequena, úmida, sem nenhuma entrada para a luz e situada a grande profundidade, exatamente debaixo da parte da mansão onde estava o meu quarto de dormir. Aparentemente, tinha sido usada em remotos tempos feudais para as piores finalidades de cárcere privado e, mais recentemente, como depósito de pólvora ou de alguma outra substância altamente inflamável, pois parte do chão e todo o interior da longa arcada que percorremos para chegar até ali estavam cuidadosamente revestidos de cobre. A porta, de ferro maciço, tinha sido igualmente protegida. Quando girava as dobradiças, seu imenso peso fazia um som incrivelmente agudo e áspero.
Após depositar nossa triste carga sobre cavaletes nesse horrendo lugar, abrimos parcialmente a tampa do caixão, ainda não parafusada, e olhamos o rosto da morta. A incrível semelhança entre irmão e irmã me chamou a atenção, e Usher, adivinhando talvez meus pensamentos, explicou-me num murmúrio que ele e a falecida eram gêmeos e que afinidades de natureza quase incompreensível sempre existiram entre eles. Mas nossos olhares não se demoraram muito tempo sobre a morta, pois era impossível fitá-la sem se perturbar. A enfermidade que assim levara ao túmulo a jovem senhora tinha deixado, como é normal em todas as doenças de natureza estritamente cataléptica, um arremedo de coloração no seio e no rosto e uma sombra de sorriso nos lábios, que é tão terrível na morte. Recolocamos e parafusamos a tampa do caixão e, fechando a porta de ferro, voltamos abatidos para os cômodos pouco menos sinistros dos andares superiores da mansão.
Então, passados alguns dias de amarga tristeza, ocorreu uma nítida mudança nos sintomas da perturbação mental de meu amigo. Seu modo de ser habitual desapareceu. Suas ocupações diárias eram negligenciadas ou esquecidas. Ele vagava a esmo de sala em sala, com passos apressados e irregulares. A palidez de seu rosto assumiu, se isso é possível, um tom ainda mais cadavérico, mas a luminosidade de seus olhos dissipou-se completamente. Não se ouvia mais o tom áspero de sua voz, como às vezes sucedia antes, e um trêmulo balbucio, como se estivesse tomado de horror extremo, passou a caracterizar o seu modo de falar. Houve momentos, na verdade, em que pensei que sua mente sempre agitada estava em luta com algum segredo opressivo, empenhando-se em reunir coragem para contá-lo. Outras vezes era eu levado a atribuir tudo aquilo à inexplicável confusão da loucura, pois o via fitar o vazio durante horas, numa atitude da mais profunda atenção, como se estivesse ouvindo algum som imaginário. Não era de admirar que seu estado me causasse terror e me contaminasse. Senti-me aos poucos, inexoravelmente, invadido pela estranha influência de suas fantásticas, mas impressionantes superstições.
Foi especialmente ao me deitar, já tarde da noite, sete ou oito dias depois de colocarmos o corpo de Lady Madeline na câmara, que percebi toda a força de tais sentimentos. O sono não se aproximava de minha cama e as horas ecoavam-se lentamente. Lutei para controlar o nervosismo que me dominava. Esforcei-me por acreditar que muito, senão tudo o que estava sentindo, se devia à perturbadora influência da soturna mobília do aposento, das tapeçarias escuras e esfarrapadas que, movidas pelo sopro de uma tempestade que se formava, oscilavam de modo irregular nas paredes e roçavam inquietas pelos adornos do leito. Mas meus esforços foram inúteis. Um tremor incontrolável aos poucos tomou conta de meu corpo e, afinal, instalou-se sobre meu próprio coração o íncubo de uma comoção inteiramente infundada. Sacudindo essa sensação com um arquejo e um sobressalto, ergui-me dos travesseiros e, sondando com o olhar a escuridão do aposento, prestei atenção e ouvi – não sei por quê, talvez por um instinto que me aguçou o espírito – ruídos baixos e indefinidos que nas pausas da tempestade, a longos intervalos, vinham não sabia de onde. Dominado por forte sentimento de horror, inexplicável e por isso mesmo impossível de suportar, vesti-me rapidamente (pois senti que seria impossível dormir naquela noite) e tentei livrar-me, caminhando de um lado para outro pelo aposento, do estado penoso em que me achava.
Logo depois de iniciar as idas e vindas, um leve ruído de passos numa escada próxima me chamou a atenção. Logo reconheci que era Usher. No instante seguinte, ele bateu de leve em minha porta e entrou, trazendo um lampião. Seu rosto estava, como sempre cadavérico, mas além disso havia uma espécie de riso louco em seus olhos, e, em seu modo de proceder, havia uma histeria evidentemente contida. Seu aspecto me aterrou, mas qualquer coisa era preferível à solidão por mim suportada durante tanto tempo e acolhi sua presença com grande alívio.
– E você não o viu? – perguntou ele de repente, depois de olhar em volta por alguns momentos, sem silêncio. – Não o viu? Mas espere! Você vai ver. Assim dizendo – e enquanto protegia cuidadosamente o lampião – correu para uma das janelas e a escancarou para a tempestade.
A impetuosa fúria das rajadas de vento quase nos levantou do chão. Era na verdade uma noite tempestuosa, mas ainda assim bela e espantosamente singular no seu terror e perfeição. Aparentemente, um redemoinho juntara todas as suas forças ao nosso redor pois ocorriam frequentes e violentas mudanças na direção do vento, e a extrema densidade das nuvens (tão baixas que pareciam pesar sobre os torrões da mansão) não nos impedia de observar a viva velocidade com que deslizavam de todos os pontos, chocando-se umas contra as outras, sem desaparecer ao longe. Digo que nem mesmo a sua extrema densidade nos impossibilitava de perceber isto, embora não pudéssemos vislumbrar a lua ou as estrelas, nem havia ali qualquer clarão de relâmpagos. Mas tanto a superfície inferior das imensas massas de vapor agitando como todos os objetos terrenos das proximidades brilhavam, por efeito de uma luz antinatural que provinha de uma exalação gasosa ligeiramente luminosa e perfeitamente visível que envolvia toda a mansão como uma mortalha.
– Você não deve… não pode ficar olhando para isso! – eu disse, estremecendo, a Usher, enquanto o afastava com leve violência da janela e o fazia sentar. – Essas manifestações que tanto perturbam você, são meros fenômenos elétricos, nada incomuns, ou talvez tenham origem nas exalações malcheirosas do fosso. Vamos fechar esta janela. O ar está gelado e é perigoso para sua saúde. Eis aqui um de seus romances favoritos. Vou ler para você, e assim passaremos juntos esta noite terrível.
O volume antigo que peguei era o Mad Trist (Assembleia dos loucos) de Sir Launcelot Canning. Disse que era um dos favoritos de Usher mais como triste gracejo do que a sério, pois, na verdade, sua prolixidade vulgar e estéril muito pouco continha que pudesse interessar à idealidade elevada e espiritual de meu amigo. Era, porém, o único livro à mão – e nutri a vaga esperança de que a excitação que então agitava o hipocondríaco talvez encontrasse algum alívio (pois a história das perturbações mentais está cheia de anomalias desse tipo), até mesmo nos excessos de imaginação que eu ia ler. A julgar pelo ar de intensa vivacidade como que ouvia, ou parecia ouvir a leitura, podia congratular-me pelo êxito de minha tentativa.
E Ethereld, que tinha por natureza coração audaz e agora se sentia muito forte, graças ao vigor do vinho que havia bebido, não gastou mais tempo em discutir com o eremita, que em verdade tinha caráter obstinado e malicioso. Sentindo a chuva nos ombros e temendo que caísse a tempestade, levantou a massa e, com vários golpes, logo abriu espaço nas tábuas da porta, para passar a mão com luva de ferro; brandindo-a com firmeza, quebrou e lascou e despedaçou de tal foram a madeira que o eco desse ruído seco e oco alarmou toda a floresta.
Ao terminar esta frase, assustei-me e parei por um momento, pois me parecia (embora logo concluísse que estava sendo iludido por minha excitada imaginação), me parecia que, de algum ponto remoto da mansão, chegava indistintamente a meus ouvidos algo que, por sua exata semelhança, podia ser o eco (apesar de baixo e abafado) do ranger e estalar que Sir Launcelot descrevia tão detalhadamente. Era, sem dúvida, apenas a coincidência que me chamava a atenção, pois que, em meio do bater dos caixilhos das janelas e dos ruídos da tempestade crescente, o som nada tinha, por certo, que pudesse me interessar ou perturbar. E continuei com a história:
Mas o bom paladino Ethelred, entrando agora pela porta, ficou dolorosamente enraivecido e surpreendido por não encontrar nem sinal do malicioso eremita, mas sim, em seu lugar, um dragão coberto de escamas, de aparência prodigiosa e com língua de fogo, que guardava um palácio de ouro com chão de prata. E sobre a muralha pendia um escudo de bronze reluzente onde estava escrita a legenda:
Quem aqui penetrar, conquistador será; quem o dragão matar, o escudo ganhará.
E Ethelred levantou a massa e golpeou a cabeça do dragão, que caiu a seus pés, exalando o pestilento suspiro com um guincho tão horrível, áspero e penetrante que Ethelred teve de tapar os ouvidos com as mãos para suportar aquele terrível som, como jamais tinha ouvido antes.
Aqui, outra vez parei abruptamente, agora com a sensação de tremenda surpresa, pois não podia haver qualquer dúvida de que, desta vez, ouvi realmente (embora fosse impossível dizer de onde provinha) um grito ou rangido baixo, aparentemente distante, mas áspero, prolongado, singularmente agudo e dissonante, a exata reprodução daquilo que minha fantasia imaginava como o guincho do dragão descrito pelo romancista.
Oprimido, como eu naturalmente estava, diante dessa Segunda e tão extraordinária coincidência, por mil sensações conflitantes, nas quais predominavam a perplexidade e o extremo terror, consegui ainda manter suficiente presença de espírito para não aguçar, com qualquer observação, a sensibilidade nervosa de meu companheiro. Não tinha certeza de que ele houvesse percebido os ruídos em questão, embora, sem dúvida, uma estranha alteração tenha ocorrido nos últimos minutos em seu rosto. Sentado diante de mim, fez girar pouco a pouco a cadeira até ficar de frente para a porta do aposento, de forma que eu só podia ver parcialmente seu rosto, apesar de perceber que seus lábios tremiam, como se estivesse murmurando baixinho. Pendeu a cabeça, mas eu sabia que não estava adormecido, porque o olho que via de perfil se mantinha muito aberto e fixo. O movimento de seu corpo também desmentia essa ideia, pois oscilava de um lado para o outro com um balanço suave, embora constante e uniforme. Tendo notado rapidamente tudo isso, voltei para a narrativa de Sir Launcelot, que continuava assim.
E agora o paladino, tendo escapado à terrível fúria do dragão e lembrando-se do escudo de bronze e da quebra do encantamento que sobre ele pesava, afastou a carcaça do caminho e valorosamente avançou pelo chão de prata do castelo na direção da parede em que pendia o escudo, o qual, na verdade, não esperou que ele chegasse até perto, caindo-lhe aos pés sobre o chão prateado, com horrendo e retumbante estrondo.
Nem bem essas palavras me passaram pelos lábios, ouvi distintamente como se um pesado escudo de bronze de fato tivesse caído, naquele momento, sobre um chão de prata – uma reverberação nítida, surda, metálica e poderosa, apesar de aparentemente abafada. Inteiramente nervoso, fiquei em pé de um salto, mas o movimento regular de balanço de Usher não se alterou. Corri para a cadeira diante de si e todo o seu rosto apresentava rigidez de pedra. Mas, assim que lhe toquei o ombro com a mão, forte estremecimento sacudiu todo o seu corpo, um sorriso doentio brincou em seus lábios como se não tivesse consciência de minha presença. Inclinando-me sobre ele, pude afinal compreender o sentido terrível de suas palavras.
– Não ouve, agora?… Sim, estou ouvindo e já ouvi antes. Há muitos, muitos, muitos, muitos minutos, muitas horas, muitos dias, venho ouvindo… e, no entanto, não tive a coragem… oh, pobre de mim, miserável infeliz!… não tive coragem… não tive coragem de falar! Nós a enterramos viva! Eu não disse que meus sentidos eram aguçados? Agora lhe digo que ouvi os primeiros movimentos dela no caixão. Ouvi-os… há muitos, muitos dias…, mas não tive coragem… não tive coragem de falar! E agora… esta noite… Ethelred… ha! ha!… o rompimento da porta do eremita e o grito de morte do dragão e clangor do escudo!… Seria melhor dizer o destroçar do caixão e o ranger das dobradiças de ferro de sua prisão e sua luta lá dentro das arcadas de cobre da cripta! Oh, para onde é que vou fugir? Pois ela não vai chegar agora mesmo? Não está vindo apressadamente para censurar minha sofreguidão? Não são seus passos que ouço na escada? Não é a batida pesada e horrível de seu coração que estou ouvindo? Louco! – e aqui levantou-se, de um salto, furioso, e berrou cada sílaba, como se estivesse entregando a própria alma nesse esforço – Louco! Digo-lhe que ela está agora, atrás da porta!
Como se a energia sobre-humana de suas palavras produzisse a força de um encantamento, a imensa e antiga porta para a qual apontava foi abrindo lentamente, nesse instante, suas mandíbulas negras e pesadas. Havia sido obra do vento furioso – mas além da porta estava de fato a figura alta e amortalhada de Lady Madeline de Usher. Havia sangue em suas vestes brancas e sinais de violenta luta por todo o seu corpo emagrecido. Por um momento ela permaneceu trêmula e vacilante no umbral. Depois, com um gemido baixo e queixoso, caiu pesadamente sobre o irmão, e em sua violenta e agora final agonia. Arrastou-o consigo para o chão, já morto, vítima dos horrores que tinha previsto.
Fugi aterrorizado daquele quarto e daquela mansão. A tempestade ainda soprava com toda a fúria lá fora, quando atravessei o carreiro. De repente fulgurou sobre o caminho uma luz fantástica, e me virei para ver de onde podia provir luminosidade tão estranha, pois atrás de mim só havia a vasta casa e suas sombras. A irradiação vinha da lua cheia e cor de sangue, já baixa no horizonte, e brilhava agora vivamente através daquela fenda antes quase invisível, à qual já me referi, que descia em ziguezague do teto até a base do edifício. Enquanto eu a olhava, a fenda foi se alargando rapidamente… soprou uma feroz rajada de vento… O círculo inteiro do satélite tornou-se visível aos meus olhos… Meu cérebro vacilou quando vi aquelas sólidas paredes desmoronarem… ouviu-se um longo e desordenado estrondo, como o retumbar de mil cataratas… e o fosso fétido e profundo, a meus pés, fechou-se, tétrica e silenciosamente, sobre os restos da Casa de Usher.
Adaptado de: POE, Edgar Allan. Medo Clássico. Tradução: Márcia Heloísa. Rio de Janeiro: DarkSide Books, 2017.
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PEREIRA, Carolina C.; MENDES, Gabriel B. Andersen e Poe na construção de sentidos do texto literário: reflexões sobre a categoria espaço em uma rede vertical de leitura. Revista LEPHIS, vol. 2, n. 4. Disponível em: https://lephis.com.br/literatura-e-historia-vol-4/. Publicado em: 30 jun. 2026. ISSN: 3086-3597

Carolina Campos Pereira
Docente de Língua Portuguesa na rede estadual de Minas Gerais/Juiz de Fora e do estado do Rio de Janeiro/Três Rios.

Gabriel Barbosa Mendes
Docente de Língua Portuguesa na rede municipal de Juiz de Fora/MG e gestor educacional da Secretaria Estadual de Educação/MG.
Carolina Campos Pereira (docente de )


