História nos Quadrinhos, vol. 4

Em sintonia com o clima futebolístico da Copa do Mundo de 2026, organizada pela FIFA em três países-sede (Canadá, EUA e México), organizamos uma lista com Histórias em Quadrinhos produzidas por quadrinistas das nações envolvidas nesse evento. A composição desta curadoria seguiu determinadas regras autoimpostas: 1) um país – apenas uma única sugestão; 2) a seleção de quadrinistas inclui profissionais responsáveis pelos roteiros, pelas ilustrações ou pela colorização; 3) as escolhas não se restringiram a obras em língua portuguesa, mas, na medida do possível, envolveram idiomas estrangeiros mais acessíveis ao público do Brasil (inglês e espanhol); 4) nossas opções ignoraram o mercado editorial brasileiro, ou seja, não nos limitamos a indicar produções quadrinísticas que estivessem imediatamente disponíveis em nosso país para que nosso horizonte cultural pudesse ser o mais amplo possível; 5) todos os quadrinhos escolhidos possuem algum potencial didático para atividades de história em sala de aula; cabe a quem nos lê construir essas pontes; 6) as indicações das HQs seguem uma proposta freiriana de estímulo à curiosidade epistemológica, que necessita estar presente no processo educativo; dessa forma, não iremos resenhar as obras, apenas elencar alguns apontamentos que consideramos importantes; 7) se não encontrarmos alguma obra representativa de qualquer país, registraremos essa ausência. Bom, o apito inicial já soou. Vamos às obras!

África do SulCrossroads: I Live Where I Like. A Graphic History (Koni Benson, roteiro; Nathan Trantraal, Andre Trantraal e Ashley E. Marais, arte), 2014.

Crossroads é uma localidade situada em Cape Flats, uma área arenosa e empobrecida, espremida entre a capital, Cidade do Cabo, e a região vinícola do Cabo. Durante o regime de apartheid, algumas pessoas eram deslocadas para lá, destinadas ao trabalho rural das fazendas ou como empregadas domésticas na cidade. Muitas vezes, elas se mudavam ilegalmente dos superlotados bantustões em busca de trabalho. Com o tempo, construíram assentamentos informais e se tornaram um “incômodo” para o governo do apartheid. A HQ narra as inúmeras histórias de resistência de mulheres que lutaram constantemente contra todas as tentativas de remoção. Os relatos evidenciam os esforços femininos em prol do direito à terra, moradia, água, educação e segurança na Cidade do Cabo ao longo de meio século. Koni Benson foi professora do Departamento de História da University of the Western Cape, na Cidade do Cabo, e trabalhou colaborativamente com a comunidade local. As dezenas de depoimentos reunidos nos apresentam suas experiências, formas de luta (seja por meio da encenação de peças de teatro, seja pelo uso de porretes para espancar informantes da polícia) e os posicionamentos políticos das mulheres de Crossroads frente ao racismo, à violência estatal e ao patriarcado. Benson e os irmãos Trantraal pertencem à comunidade africâner da região do Cabo e, por vezes, usam metáforas visuais para contar aspectos dessa história, retratando, assim, a diversidade humana daquela localidade com empatia e respeito às lutas daquelas mulheres. Não apenas é uma ótima história em quadrinhos, como também constitui um excelente registro oral da história da comunidade.

MarrocosFronteira (José Luiz, roteiro/layout; Euniquis Aguiar, história/desenho/cores; Malika Dahil, desenho/cores), 2020.

Malika Dahil é considerada a primeira mulher quadrinista de Marrocos. Radicada no Brasil, mais especificamente em Manaus, Amazonas, desde a segunda metade dos anos 2010, desenvolve projetos artísticos que buscam construir pontes entre as culturas marroquina e brasileira. Fronteira é uma história inspirada em eventos reais, mas narrada sob o ritmo da fantasia. Convidada a participar de um projeto coletivo de quadrinhos no Brasil, Dahil conheceu o também quadrinista Eunuquis Aguiar e a paixão nasceu desse encontro improvável. Após o casamento, passaram a viver na capital amazonense. A HQ selecionada se baseia nessa espécie de conto de fadas contemporâneo para debater as diferenças culturais e as conexões possíveis entre Kika, uma jovem pastora marroquina, e Caboquinho, um jovem manauara residente na Amazônia. Os jovens, aparentemente com idades que variam entre 12 e 14 anos, estabelecem uma conexão através de um artefato mágico que teleporta Kika para a Floresta Amazônica, após ter entrado em uma caverna no Marrocos. O portal entre os dois países serve como mote para a apresentação de marcadores culturais e a defesa sobre a importância do diálogo entre universos tão distintos e que nenhuma fronteira é capaz de separar. Trata-se de um belo caminho para discutirmos as políticas contemporâneas relacionadas às fronteiras que dividem os países.

Costa do Marfim Aya de Yopougon (Marguerite Abouet, roteiro; Clément Oubrerie, ilustrações), 2005-2023.

Aya é uma jovem de 19 anos, repleta de sonhos, que vivencia alegrias, dúvidas, esperanças e tristezas com suas amigas em Yopougon (Yop City), bairro operário situado na antiga capital da Costa do Marfim, Abidjan. É uma obra sensível e divertida que se distancia enormemente dos estereótipos sobre a vida cotidiana dos habitantes de diferentes regiões do continente africano. Há espaços para observações críticas sobre a situação pós-colonial da Costa do Marfim, uma vez que a história de Aya, Bintou e Adjoua se desenrola ao longo das décadas de 1970 e de 1980. Estão presentes a proliferação de empresas transnacionais no território marfinense e as transformações ocasionadas pela expansão demográfica e urbana. À medida que as personagens envelhecem (conforme a série, composta por oito volumes, avança no tempo), dilemas comuns enfrentados na transição da juventude para a vida adulta desfilam pelas páginas da HQ: os relacionamentos amorosos, a gravidez precoce, o trabalho infantil, as decisões sobre carreira profissional, a busca por diversão e as dificuldades para lidar com a montanha-russa emocional em seus círculos familiares e de amizade. Cada edição apresenta, ao final, um glossário com algumas expressões usadas e receitas de pratos tradicionais, referências sobre vestimentas e práticas culturais. É por isso (e muito mais) que este quadrinho franco-marfinense se tornou um sucesso internacional. No Brasil, a obra foi publicada até o terceiro volume.

Tunísia Une Révolte Tunisienne, la légende de Chbayah (Aymen Mbarek, roteiro; Seif Eddine Nechi, ilustrações), 2022.

Lançada simultaneamente em francês, pela editora Alifbata, e em árabe, pela editora tunisiana Soubia, a obra alcançou um feito notável: foi a primeira HQ tunisiana publicada simultaneamente na Tunísia e na França. Culpa dos artistas tunisianos Seif Eddine Nechi (ilustrador) e Aymen Mbarek (roteiro), cofundadores da aclamada revista Lab619. E sobre o que trata esta HQ? Estamos em dezembro de 1983, a Tunísia ainda sentia os efeitos da crise mundial do petróleo da década anterior e o Fundo Monetário Internacional (FMI) recomendou ao governo de plantão adotar diretrizes que levaram à redução dos subsídios aos grãos mais consumidos pelo povo: o preço do pão subiu cerca de 50% e o da sêmola, 70%. A região mais pobre do país se levantou em protesto. Em janeiro de 1984, o país estava em chamas: todos os territórios se envolveram nas lutas que ficaram conhecidas como as “Revoltas do Pão”. O Exército foi mobilizado e iniciou a repressão (o saldo final será de mais de uma centena de mortos e milhares de presos). Misteriosamente, um personagem que passará à história como Chbayah (fantasma, em árabe tunisiano, palavra que, curiosamente, deu nome ao personagem Gasparzinho na versão do filme exibida no país) passa a transmitir, por meio de um rádio antigo, comunicados militares que sabotam a repressão. Acompanhamos esse momento histórico a partir da dinâmica familiar envolvendo o pequeno Salem Dridi, seus pais, Samir e Naïma, e seu avô, Ahmed. Há referências a outros episódios da história recente da Tunísia, bem como referências a fontes históricas disponíveis na própria HQ. Ah, após três dias de revoltas, as diretrizes governamentais tunisianas foram suspensas.

Egito Qahera (Deena Mohamed), 2013.

Em 2013, Deena Mohamed tinha 18 anos e começou a publicar sua primeira webcomic (publicada em inglês e árabe) que logo se tornou um grande sucesso. O nome escolhido foi “Qahera”, palavra com múltiplos significados: conquistadora, vencedora ou triunfante. Também é o nome árabe do Cairo, onde a história se passa. Nas palavras da própria autora: “Por ter sido criada principalmente para abordar questões sociais e priorizar o conteúdo em detrimento da forma, ela passou por diversas mudanças estilísticas à medida que meu estilo artístico amadureceu e se desenvolveu, mas sempre se destaca por sua estética em tons de cinza. A escala de cinza também é usada como um motivo visual: a protagonista em tons de cinza, os antagonistas frequentemente em preto e branco. Qahera foi onde aprendi a criar quadrinhos e, por isso, tem sido uma jornada bastante experimental. Atualmente, está em hiato, mas nunca terminou”. A personagem central é uma super-heroína egípcia, visivelmente muçulmana, usando hijab, que aborda questões sociais, como a islamofobia e a misoginia. A série pode ser lida gratuitamente no site oficial: https://www.deenadraws.art/en/qahera.

Cabo Verde Tunuka (Kitty Blunt, argumento; Wilson Lopes ‘Tozé’, ilustrações), 2023.

A tranquila vida dos habitantes da fictícia vila de Kawashi sofre um abalo diante da ameaça iminente representada pelos Vizi, um conhecido grupo de criminosos. Neste momento, Tunuka, uma guerreira que cuida de seus irmãos mais novos, assume a missão de investigar as atividades criminosas. Somos jogados em uma teia de conspirações, cujo objetivo é remover a liderança tradicional em prol de um regime tirânico, enquanto nossa heroína precisa confrontar segredos do passado. A história possui diferentes camadas de complexidade, as quais evidenciam as tensões contemporâneas entre os legados ancestrais e as novas dinâmicas da vida urbana, além de articular formas de expressão em língua portuguesa com o crioulo cabo-verdiano (língua nacional falada por praticamente toda a população do país). As ilustrações contribuem para a fluência da trama, mantendo nossa atenção sobre os mistérios que se desenrolam ao longo das páginas. Naturais de Cabo Verde, a artista Kitty Blunt e o ilustrador Wilson Lopes (Tozé) conquistaram uma bolsa de criação da BDPALOP (Banda Desenhada nos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa) que promove produção, circulação e difusão de bandas desenhadas em Moçambique, Angola e Cabo Verde.

Senegal Djeliya: uma fantasia épica africana (Juni Ba), 2021.

A história é construída a partir de influências culturais da África Ocidental, as quais se combinam com outras referências presentes na trajetória do artista senegalês Juni Ba. Em diversas entrevistas, Ba explicita as múltiplas estéticas e combinações que permeiam sua imaginação: mangás, desenhos animados estadunidenses dos anos 1990-2000, animes, histórias locais de Dakar e tantas outras narrativas africanas com as quais teve contato em sua vida. O ícone do djeli foi o pilar sobre o qual a sua HQ de estreia se construiu, figura central na preservação e transmissão de memórias e tradições orais ancestrais de suas comunidades. Música, narração, história, performance, responsabilidades e conhecimento são elementos associados a tais pessoas. Grosso modo, essa tradição tornou-se conhecida no Brasil pelo nome de griot. A narrativa de Djeliya nos apresenta a jornada protagonizada pelo príncipe Mansour Keita e sua contadora de histórias real, Awa Kouyatè, até a Torre Branca. Na companhia do inventor Oriundo, ambos partem em busca do feiticeiro Soumaoro, responsável por uma série de acontecimentos que mergulharam o mundo no caos. Tradição, modernidade, memória, fantasia, críticas políticas, permeiam as páginas belamente desenhadas e construídas de forma dinâmica e inventiva, inclusive por meio da representação gráfica de sons e performances orais. O autor, aliás, certa vez, declarou que buscava utilizar referências profundamente enraizadas no Senegal para falar sobre coisas que são relevantes no mundo todo. Não há dúvida de que foi bem-sucedido. A obra também recebeu edição brasileira.

Argélia Undesirables. A Holocaust Journey to North Africa (Aomar Boum, roteiro; Nadjib Berber, ilustrações), 2023.

Nos tempos da Segunda Guerra Mundial, a França foi derrotada pela Alemanha nazista em uma velocidade impressionante. Em junho de 1940, parte do território francês foi ocupada pela Alemanha, enquanto suas possessões coloniais no Magreb e na África Ocidental permaneceram sob a autoridade do regime de Vichy. O governo colaboracionista de Vichy sistematizou uma série de campos de trabalho, que serviam simultaneamente como colônias penais e espaços de confinamento, exilando todos os indivíduos considerados “indesejáveis” da França, incluindo judeus e republicanos espanhóis, por exemplo. O jornalista e ativista judeu Hans Frank, de origens espanhola e alemã, conduz o leitor por uma trajetória que começa com a ascensão do nazismo na Alemanha, passa pela Guerra Civil Espanhola e pelo avanço do Eixo sobre a França e a Noruega, até chegar à Argélia e ao Marrocos sob o regime de Vichy. O texto do antropólogo e historiador marroquino Aomar Boum constrói uma verdadeira etnografia histórica, capaz de suscitar reflexões sobre colonialismo, fascismo e antifascismo. Os traços, as cores, os enquadramentos e a composição das páginas de Nadjib Berber conduzem o nosso olhar, humanizando personagens e revelando os horrores de um episódio histórico pouco conhecido do grande público.

República Democrática do Congo Lumumba. Un homme. Une histoire. Un destin (Asimba Bathy), 2021.

Biografia em quadrinhos da principal figura que liderou o processo de independência congolesa: Patrice Emery Lumumba (ou Isaie Tawosa Tasumba). A obra foi escrita por Asimba Bathy, jornalista, quadrinista e fundador da editora Kin Label, na República Democrática do Congo. Sua proposta era abordar a vida de Lumumba para além de sua atuação política anticolonial, aspecto pelo qual é mais conhecido. Dessa forma, a HQ nos apresenta sua aldeia natal, o contexto de seu nascimento, o período de sua adolescência, a rotina escolar e outros aspectos de sua formação pessoal. A narrativa se fundamenta em documentos históricos, reportagens, depoimentos e entrevistas com pessoas que conviveram com Lumumba. Bathy costuma divulgar seus trabalhos em francês e Lingala, mas, segundo suas próprias ideias, almeja ser publicado em todo o mundo. Quem sabe a obra não ganhe em breve uma edição brasileira?

Gana MoonGirls (Drama Queens Ghana), 2020-2026.

A série afrofuturista de histórias em quadrinhos criada pela ONG feminista panafricana Drama Queens Ghana acompanha quatro super-heroínas africanas. Elas recebem uma missão concedida pela Grande Rainha Maidaki, inspirada no princípio kemético do Ma’at, oriundo do Egito Antigo, (associado à verdade, à justiça, ao equilíbrio, à ordem, à reciprocidade, à retidão e à harmonia). Elas enfrentam a ordem fascista e heteropatriarcal conhecida como The Seti, ao mesmo tempo que lidam com problemas concretos como a cultura do estupro, a poluição e as mudanças climáticas. As protagonistas apresentam habilidades ligadas a elementos ancestrais e têm sexualidades e identidades diversas. A estudante Fu utiliza o som tanto como arma quanto como instrumento de cura. Fatima é uma profissional do sexo, movida por um profundo senso de justiça e guiada pela fúria contra a opressão. Dede é a idealista do grupo e faz da força de sua mente uma de suas maiores armas. Wadjet é aquela que cura, inspirada em divindades protetoras, refletindo equilíbrio espiritual e conexão com a natureza e as águas. As histórias podem ser acompanhadas gratuitamente no site oficial do projeto: https://moongirls.live/comics/.

MéxicoTormenta de Mayo (Paulina Márquez), 2019.

Tormenta de Mayo conta a história de duas crianças que vivem em uma pequena vila mexicana onde nada parece acontecer… até a chegada de uma nova garota. A vila é emoldurada por um rio, que assume forte valor simbólico sobre o curso da vida que flui apesar de toda a resistência. A água, aliás, se faz presente ao longo de toda a HQ: ora simboliza pertencimento e paz; ora, medo e incerteza. Estamos em maio e Isabel, ‘gente da cidade’, chega nessa bucólica região, onde encontra Manu e Dani. Corre pela vila o rumor de que Isabel tenha poderes mágicos, graças à herança deixada por sua mãe, tida como uma bruxa. Manu e Isa possuem muitas diferenças, mas nada que impeça a construção de laços de amizade. Depois, é claro, de se defrontarem com os preconceitos que cada uma nutre pela outra. Premonições, magia, encontros, desencontros, solidão e amizade constituem alguns dos temas que atravessam esta HQ. O primeiro capítulo pode ser lido em: https://www.tierraadentro.cultura.gob.mx/.

CanadáTrillium (Jeff Lemire), 2013-2014.

Publicada originalmente em oito edições pela Vertigo Comics, em 2013, nos Estados Unidos, e reunida em volume único pela Panini no Brasil, em 2018, Trillium narra um encontro interdimensional entre duas figuras de épocas bem distintas. William Pike, ex-combatente da Primeira Guerra Mundial, tornou-se explorador e aventureiro, chegando, em 1921, a um templo inca perdido no Peru. Nika Temsmith é uma botânica dedicada ao estudo de uma flor peculiar encontrada na periferia de uma colônia espacial no ano de 3797. Nem mesmo os milhares de anos que os separam serão capazes de impedir o nascimento desse amor improvável. Jeff Lemire já teve diversas obras publicadas no Brasil, entre elas O Soldador Subaquático, Condado de Essex, Nada a Perder, Sweet Tooth, Black Hammer e Apanhadores de Sapo. Trillium talvez seja uma de suas obras mais experimentais. A HQ brinca com experimentações gráficas, com as idas e vindas pelo espaço-tempo e nos convida para um velho questionamento antropológico: como lidar com o outro?

Haiti A Revolução que deu origem ao Haiti (Laurent Dubois, roteiro; Rocky Cotard, arte), 2021.

O historiador Laurent Dubois e o artista haitiano Rocky Cotard criaram essa história em quadrinhos para narrar o contexto histórico da Revolução Haitiana, as diferentes formas como ela é lembrada e representada no presente, o protagonismo das mulheres nesses acontecimentos e a centralidade da revolução para a abolição da escravidão e para os processos de independência na história global. Conforme descreve a equipe do projeto da Universidade Duke: “Dubois forneceu textos, ideias e imagens de arquivo como base para o trabalho, enquanto Cotard recorreu ao seu próprio conhecimento e experiências no Caribe, além de sua habilidade artística, para tornar a história da Revolução envolvente para todas as idades”. A publicação está disponível gratuitamente em inglês, crioulo haitiano e português: https://fsp.duke.edu/projects/haiti-comic/.

Curaçau W.O.

Estados Unidos Fun Home – Uma tragicomédia em família (Alison Bechdel), 2006.

Uma das obras autobiográficas mais seminais já produzidas em histórias em quadrinhos. Alison Bechdel constrói uma narrativa que alterna momentos divertidos e cativantes com passagens de profunda melancolia e luto. Uma jornada que envolve sexualidade, as tensas relações entre pai e filha e a busca pela felicidade. Nós recebemos um convite, da própria autora, para adentrarmos os meandros de sua vida. Conhecemos o ‘lar divertido’ da família (a funerária onde seu pai trabalhava), o fim do casamento de seus responsáveis e suas experiências afetivas e sexuais e amorosas. A honestidade de Bechdel é impressionante e cativa a leitura do início ao fim.

Panamá Martina and the Bridge of Time (Aaron O’Dea, texto; Ian Cooke Tapia, arte), 2021.

Martina e a Ponte do Tempo é uma história em quadrinhos panamenha de ficção científica escrita pelo paleobiólogo marinho inglês Aaron O’Dea em parceria com o ilustrador panamenho Ian Cooke Tapia. A obra questiona a narrativa histórica tradicional de matriz eurocêntrica que situa o ‘nascimento’ do Panamá com a ocupação espanhola no século XVI. A proposta é narrar a história do Panamá em uma perspectiva de longa duração, desde sua formação geológica até os processos de ocupação e organização das sociedades humanas. Martina, a jovem protagonista, inicia a narrativa ao questionar sua professora sobre a história de seu próprio país. Esse questionamento serve como ponto de partida para questionamentos acerca de memória, esquecimentos, percepções de mundo e construção de pertencimento e identidade.

Brasil Mukanda Tiodora (Marcelo D’Salete), 2022.

O multipremiado quadrinista Marcelo D’Salete (Prêmio Jabuti, Eisner, Grampo de Ouro e vários HQ Mix) produziu uma obra dedicada às resistências negras em tempos de escravidão, ambientada na cidade de São Paulo da década de 1860. Inspirado em personagens da época, D’Salete traça quadros sobre a vida da população negra, escravizada e livre, que circulava e trabalhava em diferentes espaços da capital paulista. Podemos acompanhar as atividades combativas de Luiz Gama, as movimentações quilombolas no entorno da cidade e os sonhos de liberdade de Tiodora, mulher escravizada em busca de sua alforria. Conhecemos Teodora Dias da Cunha, a Tiô, mulher escravizada que luta para conquistar sua liberdade e reencontrar a família. As palavras ditadas por ela e registradas por Claro Antônio da Silva, homem negro escravizado e letrado, nos conduz pela São Paulo escravista e pelos diversos caminhos que a resistência negra assume para obter uma vida para além do cativeiro. A edição da HQ traz uma pérola: pela primeira vez, a reprodução integral das cartas de Tiodora. A edição também reúne textos de contextualização histórica e referências documentais. Apesar de termos acesso a fragmentos da história de Tiodora, os registros históricos não dão conta de sua trajetória. A HQ de D’Salete amplia nossa compreensão sobre a trajetória dessa mulher do século XIX, preenchendo, pela imaginação, as lacunas deixadas pela documentação.

Paraguai Labirinto (Roberto Goiriz), 2023.

Labirinto foi concebida para o formato digital, mas, pelos caminhos tortuosos do mercado dos quadrinhos, alcançou grande repercussão e acabou sendo publicada também em edições impressas em diversos países, como Paraguai, Estados Unidos, Reino Unido, Itália, Argentina e Brasil. A HQ é uma grande homenagem ao poder transformador da leitura, permeada por referências a diversos ícones da literatura, especialmente Jorge Luis Borges. Aliás, este é o nome do protagonista, um jovem solitário em busca de emprego numa cidade com arquitetura peculiar e que recebe a chance de trabalhar na Sur, uma biblioteca (alusão à revista literária associada à Borges). O personagem fictício possui trejeitos que lembram o grande escritor argentino, mas se distancia enormemente dele ao percebermos que o jovem Borges não lê, escreve ou por qualquer manifestação cultural. Segundo Goiriz: “Labirinto não é baseado em nenhuma história específica de Lovecraft, mas sim um tributo aos meus heróis literários e dos quadrinhos, principalmente Jorge Luis Borges, cujo homônimo protagoniza a história, Lovecraft e Robin Wood. Há também várias alusões que incluem pessoas, lugares e até mesmo os torcedores do meu clube de futebol, o Cerro Porteño. O que Labirinto faz é usar tudo e misturar o universo mítico de Lovecraft para definir o inimigo, os poderosos seres ancestrais. Deve-se lembrar também que o Labirinto é um dos temas centrais da obra de Borges”.

Equador Vírus Tropical (Power Paola – Paola Gaviria), 2011.

Autoficção da artista equatoriana que transforma um episódio inusitado vivido por sua mãe no ponto de partida para refletir sobre sua própria trajetória. Durante uma consulta de saúde, a mãe de Paola foi informada que possuía um vírus tropical responsável por alguns dos sintomas que vinha sentindo. Aquele ‘vírus tropical’, na verdade, era a pequena Paola crescendo na barriga de sua mãe. A HQ acompanha sua infância, adolescência e chegada à vida adulta, em uma família conservadora, cercada por mulheres de forte personalidade, enquanto ela própria é impulsionada pelos ventos da rebeldia. Pequenos capítulos estruturam a narrativa, dedicados a episódios que construíram a identidade da autora. Seu relato combina humor, honestidade e crítica social por meio de ilustrações expressivas, capaz de traduzir experiências da infância e da juventude que despertam identificação e empatia de quem não consegue interromper a leitura.

Uruguai El viejo (Alceo Thrasyvoulou, texto; Matías Bergara, arte), 2010-2013.

Originalmente publicada na revista uruguaia Freeway, a série é composta por histórias curtas de apenas duas páginas. O protagonista em questão é um senhor de idade avançada, profundamente ressentido com o mundo e de comportamento taciturno. Ironicamente, suas reações exageradas e e seu temperamento detestável o transformaram num personagem cativante. É difícil não termos a sensação de que conhecemos alguém como o ‘velho’, responsável por converter qualquer situação cotidiana em uma razão para desfilar seu cinismo e sua misantropia. O roteiro explora diálogos impregnados de humor ácido, enquanto as ilustrações reforçam, com grande expressividade, a dificuldade do protagonista em estabelecer qualquer forma saudável de convivência.

Argentina Perramus (Juan Sasturain, texto; Alberto Breccia, arte), 1982-1989.

A culpa. Quanto ela pode pesar? Após abandonar seus camaradas de luta contra a ditadura dos Marechais, nosso personagem busca o esquecimento para se livrar da dor incomensurável que o atormenta. Em um dos momentos mais característicos dessa narrativa fantástica, seu desejo finalmente se realiza em uma noite no bordel “O Aleph”. Renomeado Perramus, desprovido de identidade, de passado e de crimes na consciência, o destino volta a alcançá-lo, como em uma tragédia alegórica. O regime ditatorial regressa como seu mais novo antigo inimigo. Sem fugas dessa vez. É uma luta da qual ele não voltará a escapar. Esta obra é uma fábula sociopolítica sobre um período histórico da América Latina, aquela dos tempos das ditaduras que assolaram o continente. A narrativa se desenvolve em quatro livros: o primeiro acompanha Perramus e seus companheiros na luta contra os Marechais; o segundo narra a busca pelo “espírito” da cidade de Santa María; o terceiro concentra-se nos acontecimentos envolvendo a misteriosa ilha; e o quarto acompanha a missão para recuperar os dentes perdidos do crânio de Carlos Gardel. As imagens abstratas e de enorme força expressiva de Breccia complementam de maneira magistral o texto de Sasturain. Uma verdadeira obra-prima dos quadrinhos.

Colômbia Cómica 1. Antología de chicas comiqueras (várias artistas, Mapache Comics), 2020.

A Mapache Comics, editora criada e dirigida pela artista Ángela Pérez (Gelatina), nasceu com a proposta de colocar em prática aquilo que dá sentido à sua existência. Não por acaso, na língua náuatle, mapach significa “aquele que tem mãos”. Narrar o mundo é fazer circular experiências, conectar pessoas e provocar reflexões e mudanças. Cómica 1 é um dos primeiros trabalhos desta iniciativa. Pérez destaca que o projeto editorial surgiu da intenção de evidenciar a presença de numerosas mulheres atuando nos quadrinhos colombianos e que os temas que elas exploram vão além dos limites impostos pelos estereótipos. A antologia reuniu quadrinistas de Bogotá, Medellín, Santa Marta e Barranquilla. Cada uma das 23 participantes contribuiu com histórias em quadrinhos de uma a seis páginas, apresentando narrativas diversas com técnicas e temas variados, confirmando que o tema não define uma quadrinista. A antologia também inclui alguns textos curtos escritos por outras pessoas interessadas em quadrinhos. Quadrinistas: Makentine (Camila Pulido), Erika Montoya, Silvia Martín, Natalia Duque, Rainaro (Oriana Russo), Tamal Gucci, Adriana, Sarays Miranda, Ana Guarín, Winnie Liotti, Ángela Pérez, Estefanía Lopera, Alejandra Oreti, Laura Grajales Díez, Soy pirata (Tatiana Ríos), Fade Lasu, Ana Fino, Laura Alejadra Velásquez, 30cc (Catalina Cuadros), María Leubro. Textos: Ni Arte ni Sana, Lucas Marín, Sol Clari.

Austrália Bottled (Chris Gooch), 2017.

A história se desenrola nos subúrbios de Melbourne e acompanha uma trama marcada por ciúme, amizade e narcisismo, conduzida pelo traço cartunesco de Chris Gooch. A juventude costuma ser um período de incertezas e dúvidas. Para que servem os amigos? Quem nunca fez este tipo de pergunta, quando jovem, que abandone este texto imediatamente. Jane se incomoda com uma vida mergulhada na mesmice e na ausência de perspectivas. Ela anseia por mudança. O ambiente familiar adiciona mais problemas, pois seu padrasto parece manter um caso extraconjugal e sua mãe não consegue reagir a um relacionamento em ruínas. Jane e seu namorado, Ben, planejam morar juntos, mas não há grana para o aluguel. Nesse ínterim, uma antiga colega de escola, Natalie, retorna do Japão como uma modelo de sucesso. Seria essa a oportunidade que Jane esperava para transformar sua vida? Não importando os meios para obter essa transformação. Gooch traça um retrato perturbador da alienação juvenil, repleto de cenas de horror e com pitadas de tragédia e glamour.

Nova Zelândia The Dharma Punks (Ant Sang), 2015.

A obra surgiu originalmente como uma série independente de oito edições. Em algum momento dos anos 1990, em Auckland, um grupo de punks planeja explodir uma loja, a fim de sabotar sua inauguração. Chopstick, o protagonista, experimenta uma súbita iluminação espiritual durante um show da banda Loves Ugly Children. Cabe justamente a Chopstick instalar a bomba na noite anterior à abertura desse estabelecimento pertencente a uma rede transnacional de fast-food. A noite se torna cada vez mais complicada para Chopstick: encontros casuais, lembranças de um passado que ainda o assombra, dúvidas existenciais sobre sua militância política e dilemas metafísicos que insistem em persegui-lo. Como conciliar o pacifismo budista com a radicalidade da atitude punk? As escolhas que fazemos e as amizades que cultivamos definem quem somos? A HQ de Sang é uma meditação profunda sobre luto, subjetividade e engajamento diante das questões que nos cercam.

República da Coreia – Grama (Keum Suk Gendry-Kim), 2017.

A premiada obra Grama tem como contexto histórico a Segunda Guerra Sino-Japonesa e a Segunda Guerra Mundial. A história real narra a vida da sul-coreana Ok-sun Lee, vendida pela própria família na infância e forçada à escravidão sexual pelo Exército Imperial Japonês. A crítica anti-guerra acompanha os horrores vividos por várias mulheres que foram capturadas e exploradas nas chamadas “casas de conforto” espalhadas pela China e por territórios ocupados pelo Japão durante o período. O grande êxito de Grama está em trazer à tona a questão desse gravíssimo crime de guerra em uma narrativa leve e chocante ao mesmo tempo, sempre com ênfase na força e determinação de sua protagonista para superar adversidades e manter-se viva. 

CatarKhartoon! (Khalid Albaih), 2011-2026.

O artista romeno criado no Catar, Khalis Albaih, é um premiado artista responsável por fundar diversas plataformas digitais para divulgação artística. Albaih se posiciona como ativista dos direitos humanos e seu trabalho circulou por diversas organizações como a Anistia Internacional. Além disso, publica seus comentários sociais e políticos – escritos ou gráficos, em jornais e revistas como Al Jazeera, The Guardian e The Atlantic. As charges produzidas pelo artista estão nas páginas de mídia social sob o nome de “Khartoon!”, um trocadilho com cartoon e Khartoum, a capital do Sudão.

Japão – O homem que passeia (Jiro Taniguchi), 2017.

Você já imaginou uma história quase silenciosa ao acompanhar um homem percorrendo as ruas da cidade em que mora? O homem que passeia é uma obra na qual a narrativa abre mão da linearidade e foca em acompanhar um homem comum enquanto caminha pelos subúrbios e arredores de uma cidade japonesa. Em tempos cada vez mais agitados das grandes cidades, com pessoas e seus aparelhos tecnológicos se deslocando para cumprir afazeres, observar o silêncio e contemplar o que passa despercebido em tempos de correria se constitui em algo raro. Caminhar, sentir cheiros, escutar os sons ao redor, observar e parar. Os detalhes do cotidiano servem como uma forma de desacelerar o ritmo, parar o tempo e meditar em silêncio. Com desenhos de Taniguchi, a obra é formada por oito passeios de um homem comum que revela o verdadeiro valor de caminhar – ou passear – pela vida. 

República Islâmica do Irã – Persépolis (Marjane Satrapi), 2000.

O Irã tem uma diversidade de artistas que se posicionam criticamente e produzem diversas obras apesar dos diversos desafios. Não poderíamos deixar de citar a renomada Marjane Ebihamis (cujo nome artístico é Marjane Satrapi inspirado em Satrapia, província do antigo Império Persa), que escreveu sua autobiografia em quadrinhos chamada Persépolis. A obra foi publicada em quatro partes entre os anos 2000 e 2003 pela editora L’Association na França. No Brasil é possível encontrar em volume único, publicado pela editora Companhia das Letras. Seu contexto histórico tem como pano de fundo a Revolução Iraniana, a Guerra do Irã contra o Iraque e a forte repressão política da época. Marjane escreve sobre questões relacionadas ao islamismo, a cultura persa, o feminismo e a relação Ocidente e Oriente a partir da cultura. Ao criticar os usos políticos do islamismo, a autora navega pelo papel da mulher na sociedade iraniana abrindo portas para muitas mulheres contarem suas histórias através da linguagem dos quadrinhos. Através de sua obra, da sua importância artística, de sua sensibilidade e de seu posicionamento político e social, Marjane se faz eterna para a história das mulheres na cena mundial.

Arábia Saudita – Planet Wars (Ameen Alhabarah), 2024. 

Na Arábia Saudita, Ameen Alhabarah se destaca como cartunista. Nascido em 1986, em Al-Ahsa, publica seus desenhos em suas redes sociais e participa de diversas exposições, tendo conquistado vários prêmios há mais de cinco anos. Além de ser membro do Movimento de Cartunistas e da revista Birkitapbindost, seus trabalhos abordam temas como política internacional, meio ambiente e direitos humanos. Ele foi o primeiro saudita a receber uma menção honrosa no 23º Festival Mundial de Cartuns Portocartoon, em Portugal, em 2021. Em Planeta das Guerras o autor utiliza o humor visual e a caricatura para abordar o peso dos conflitos armados, a diplomacia internacional e a fragilidade da paz mundial. Como o próprio título sugere, o livro é uma reflexão metafórica sobre como o nosso planeta se tornou um palco constante de guerras e lutas de poder.

Iraque – W.O. 

Jordânia – Grey is… (Diana Alabbadi), 2010-2026. 

Dee Juusan (ou Diana Alabbadi) é uma premiada artista de mangá da Jordânia, que cria histórias emocionalmente ricas através de imagens em preto e branco de alto contraste. Ela tornou-se a primeira escritora árabe do gênero mangá, além de se firmar como uma produção independente. Sua série principal, Grey is…, é uma webcomic em andamento desde 2010. Alabbadi optou por não retratar personagens árabes e afirma que sua cidade natal, Amã, é bastante cosmopolita e conta com a presença de diferentes nacionalidades. Segundo o texto da página oficial da webcomic (https://www.greyismanga.com/), a série é sobre duas amigas de infância, Black, uma estilista emotiva com amnésia seletiva, e White, uma escritora racional que esteve ausente por dois anos, se reencontram para confrontar seus passados ​​traumáticos e navegar pelo frágil espaço entre o coração e a mente enquanto lutam para preservar sua amizade às vésperas da vida adulta. Apresentada como uma série de amadurecimento sobre a complexa jornada de autodescoberta, amizade e o delicado equilíbrio entre emoção e razão.

Uzbequistão – Russian Tales: Traditional Stories of Quests and Enchantments (Dinara Mirtalipova), 2021.

Dinara Mirtalipova é uma ilustradora e autora de livros infantis, através de histórias populares que lidam com narrativas fantásticas, temas como memória e origens familiares. Originária do Uzbequistão e radicada em Ohio, EUA, trabalha principalmente com mídias tradicionais e é professora assistente de ilustração no Instituto de Arte de Cleveland. Coletânea de contos tradicionais russos ambientados em fabulosas florestas e palácios luxuosos. Uma misteriosa garota nascida da neve, a assustadora figura mítica Baba Yaga e uma série de heroínas e heróis destemidos, se apresentam dispostos a lutar contra dragões, atravessarem rios em chamas e nos conduzirem a jornadas com tons épicos. A narrativa combina magia fantástica com drama magnífico, através de contos populares da cultura russa.

República Tcheca – Death After Life (Pavel Reisenauer), 1995.

A história em quadrinhos Morte após a Vida foi concluída em 1995 por Pavel Reisenauer. O pintor e artista tcheco criou diversas obras entre 1991 até a sua morte, tendo atuado como artista gráfico e ilustrador para a revista semanal Respekt, onde realizou diversas capas. Ao longo de sua atuação tornou-se admirado por seus comentários perspicazes sobre o cenário político e econômico e a sociedade tcheca. Reisenauer domina o atalho visual típico do gênero dos quadrinhos e sua HQ sobre a morte após a vida é menos conhecida, mas igualmente profunda.

Bósnia e Herzegovina – Passage en douce ou Restless Sea 1 (Helena Klakočar), 1999. 

Helena Klakočar nasceu em Tuzla, ela é uma aclamada cartunista que ganhou o prestigioso Prêmio Alph-Art no Festival Internacional de Quadrinhos de Angoulême por sua obra documental e autobiográfica. Sua ascendência étnica é croata, onde, inclusive, realizou estudos na academia de arte nacional. Durante uma viagem de férias no verão de 1991, velejando com sua família, teve que estender o passeio por conta da guerra na antiga Iugoslávia. Nesse momento, fez esboços e escreveu suas memórias da terra natal. Tudo foi reunido na graphic novel Restless Sea 1 (em francês, Passage en douce), que foi traduzida para diversos idiomas. A família mudou-se de porto em porto, na Grécia e Itália, e, finalmente, para os Países Baixos. Klakočar fazia retratos de turistas para sobreviver financeiramente. Durante suas andanças, ela e sua família encontram preconceitos étnicos e conhecem outros exilados.

Suíça – Pílulas Azuis (Frederik Peeters), 2015.

A partir de um roteiro simples, Frederik Peeters aborda temas complexos como o amor e a morte. A história percorre o cotidiano de uma família que convive com o HIV e trata o assunto de forma sensível. O autor se inspira em traços de sua própria história pessoal e amorosa para tratar diferentes emoções como amor, raiva e compaixão. O roteiro vai contando em capítulos sobre o desenvolvimento da relação de Peeters e Cati, sua futura esposa. A história de amor aborda a rotina de cuidados e prazeres, além de quebrar visões estereotipadas e preconceituosas que revelam a ignorância do senso comum nas décadas de 1980 e 1990 a respeito do HIV. A obra é considerada a principal de Peeters que trata a vida com leveza e humor. Uma história de amor pode ser contada de diferentes maneiras e vivida de diferentes formas. Afinal, o amor é revolucionário como disse bell hooks. 

Escócia – A vingança das bibliotecas (Tom Gauld), 2024.

Imagine só: uma HQ que ironiza as pilhas de livros na sua mesa de cabeceira? E que não para por aí; os críticos do mercado editorial também são criticados e sobra até para os escritores, que tem a sua procrastinação revelada por Tom Gauld. Na coleção de tiras A vingança das bibliotecas, Gauld trata com humor e muita provocação o tema da leitura e com isso fez sucesso mundo afora. As tiras foram publicadas no jornal britânico The Guardian e foram reunidas no livro lançado em 2024. O mundo dos leitores, editores, escritores, livreiros, bibliotecários é trazido de forma colorida e lúdica para refletirmos sobre o papel da leitura nos dias atuais.

Turquia – Até aqui tudo ia bem (Ersin Karabulut), 2022.

Karabulut, o jovem cartunista turco, se firma no cenário dos quadrinhos com seu traço singular e relatos fantásticos. Em Até aqui tudo ia bem o autor ilustra suas angústias e de uma geração de reféns de um sistema repressor. Ao descrever perfeitamente as mazelas da sociedade e o momento em que tudo muda, podemos imaginar o que aconteceria se as pessoas abrissem mão de suas liberdades por causa de crenças, de novas tecnologias ou de um vírus. A antologia de histórias de ficção especulativa traz o desconforto de imaginar uma sociedade distante – ou não – do que podemos considerar razoável como forma coletiva de vida.

Alemanha – Bei mir zuhause (Paulina Stulin), 2020.

Em Bei mir zuhause (Aqui em casa), Paulina Stulin conta, através de uma arte gráfica sofisticada, sobre sua vida ao falar de dança, sexo, boas conversas e experiências frustrantes. Nascida na Polônia, se mudou para a Alemanha um ano depois do seu nascimento, relata em sua terceira e mais extensa obra – com mais de 600 páginas – episódios menores e maiores de cerca de um ano de sua vida. A pandemia da COVID foi sentida de formas distintas e complexas ao redor do mundo e a partir do relato pessoal de Stulin podemos sentir a complexidade de sentimentos diante da tragédia. Focando em seu próprio cotidiano, a autora aborda diferentes temas desde o uso de drogas passando pelo feminismo, imagem corporal, desilusão amorosa, política e sexo. O seu apartamento no sótão, que abriga seu estúdio e onde ela mora desde os 18 anos, é um cenário central na HQ. Diante de experiências negativas, Stulin traz com coragem seu relato de amadurecimento como pessoa mostrando que diante de uma tragédia mundial sobreviver também é um ato político. 

Holanda – De ontdekking (Eric Heuvel), 2003.

De ontdekking foi feita em parceria com a Casa de Anne Frank e conta a história da invasão nazista na Holanda pelos olhos de uma garota que vê sua família dividida pelo conflito. Quando Jeroen vai ao sótão da avó Helena procura algo interessante para vender, ele descobre o livro de recortes que ela manteve durante a Segunda Guerra Mundial. Esse fato desperta memórias dolorosas, e leva a avó a contar pela primeira vez a Jeroen como foi ser uma menina em Amsterdam durante a ocupação alemã da Holanda e sobre a perda de sua melhor amiga judia, Esther. Após ouvir a história, porém, Jeroen fará uma descoberta surpreendente. A obra é fiel aos acontecimentos históricos – detalhes importantes para Eric Heuvel formado em História – e mostra pessoas comuns assumindo diversos papéis. Ao trabalhar assuntos sensíveis como o Holocausto e a ocupação nazita, Heuvel traz as memórias e diários de uma família holandesa para entender o tema a partir do ponto de vista das novas gerações. A dualidade entre memória e esquecimento se faz presente e em constante disputa.

Suécia – Kunskapens frukt (Liv Strömquist), 2016.

Por que falar de menstruação ainda hoje em dia é um tabu? Se mulheres menstruam há séculos e se é algo natural do corpo humano, como pode existir uma relação de estranhamento e distanciamento sobre tal assunto? Ao longo dos anos, o movimento feminista buscou tratar de temas ligados ao feminino e a libertação das mulheres em serem quem são. Liv Strömquist criou uma obra que aborda a temática de forma necessária e genial. A origem do mundo desafia mitos e tabus através do humor afiado da artista sueca. Apesar das tentativas de domar, castrar e padronizar o sexo feminino ao longo da história, Liv analisa a construção social do sexo ao refletir sobre como a culpabilização do prazer foi utilizado como instrumento de dominação e demonstra de forma hilária e libertadora de que forma as mulheres descontroem essa narrativa dia após dia. 

Bélgica – O lugar errado (Brecht Evens), 2026.

O Lugar Errado gira em torno do misterioso e carismático Robbie que com energia vivaz cativa a atenção de homens e mulheres, enquanto seu brilho contrasta com a personalidade deslocada de seu amigo de infância, Gert. Com uma mão tão sensível quanto exuberante, a HQ de Brecht Evens captura a estranha química da interação social. A obra começou como um projeto de graduação da faculdade do autor e foi publicada em 2009, sendo amplamente premiada. Recém chegada no Brasil, a obra contrasta a vida como ela é tanto angustiada como desajeitada, com a vida.

Espanha – Ocultos (Laura Pérez), 2023.

Existem outros mundos dentro do mundo em que vivemos. A realidade está repleta de forças e leis desconhecidas, cuja natureza é um mistério. O livro “Escondido”, da autora valenciana Laura Pérez, reúne histórias, sensações, momentos e reflexões sobre essas outras realidades, ocultas aos nossos olhos, mas presentes em nossas vidas. Esta obra conquistou o primeiro prêmio no El Ojo Crítico Comic Book Awards 2020, o Prêmio Ignotus 2020 de melhor quadrinho nacional e o Prêmio Splash Sagunt 2019 de melhor álbum nacional. Mistérios narrados com uma linguagem que mescla ilustração e quadrinhos, criando realidades em si mesmas, com diferentes recursos gráficos adaptados às necessidades de cada história, gerando um universo de mensagens e imagens que transformam. Segundo o ilustrador David Sánchez, “Corujas não são o que parecem; nem máscaras, OVNIs ou fantasmas. Laura Pérez sabe disso e nos fala sobre o mistério da realidade, mesmo que insistamos em negá-lo.”

França – Não era você que eu esperava (Fabien Toulmé), 2014.

Em sua HQ Não era você que eu esperava Fabien Toulmé fala sobre a chegada de sua filha com Síndrome de Down. O autor aborda a paternidade e as expectativas e medos em torno da criação de uma criança com muita sensibilidade, humor e fortes emoções. Tais emoções vão da fúria à rejeição, da aceitação ao amor e da descoberta de como é ser diferente. Desde então, publicou obras que exploram resiliência e conexões humanas: Duas vidas (2017), sobre a força do vínculo entre irmãos; a trilogia A odisseia de Hakim, crônica das provações de um refugiado sírio; e Suzette – ou o grande amor (2022), que captura a troca intergeracional sobre o amor entre uma viúva de 80 anos e sua neta. Dando continuidade à sua missão de refletir sobre questões sociais por meio da arte, iniciou em 2023 a série “reflexos do mundo”, com Na luta, dedicada às batalhas de mulheres contra a opressão ao redor do globo, e em 2024 com Trabalhar e viver, onde nos convida a pensar sobre o papel do trabalho em nossas vidas. Com Inesquecíveis, reafirma essa vocação de registrar narrativas significativas e profundamente humanas, consolidando-se como um autor essencial no panorama contemporâneo dos quadrinhos.

Noruega – Eu matei Adolf Hitler (Jason), 2019.

Eu Matei Adolf Hitler” é o título da aclamada graphic novel do quadrinista norueguês Jason. Vencedora do Prêmio Eisner em 2008, a obra chegou ao Brasil em 2019. Ela acompanha um assassino de aluguel contratado para viajar no tempo e eliminar o ditador, mas surpreende ao focar em um drama existencial sobre relações amorosas. A narrativa brinca com a ideia de um mundo em que o “assassino de aluguel” se tornou mais um profissional qualquer. Inclusive, um cientista chega a contratar um desses matadores para realizar o mais fantástico de sua carreira: voltar no tempo e matar Adolf Hitler antes de sua maligna ascensão ao poder. Mas, acredite, nada é tão fácil e o roteiro não entrega obviedades. Você nem precisa voltar no tempo pra ter acesso a esta obra fabulosa.

Áustria – Today Is the Last Day of the Rest of Your Life (Ulli Lust), 2013.

Ulli Lust é uma figura de destaque no cenário dos quadrinhos alternativos, ela é reconhecida internacionalmente por sua premiada graphic novel autobiográfica, Today Is the Last Day of the Rest of Your Life, que narra suas aventuras viajando de carona pela Itália. Sua road history foi feita com 17 anos. O que começa como uma aventura de viagem, transforma-se em uma poderosa história de amadurecimento e uma declaração feminista. Na descrição de sua obra há referências de que ela utiliza visualizações simbólicas tanto para seu estado de espírito quanto para a cultura e o temperamento machista italiano (com mãos saindo dos olhos dos homens, agarrando os seios e as nádegas das mulheres). Isso também se reflete na diagramação. Os textos em italiano aparecem como rabiscos sem sentido a princípio, e depois como rabiscos quase ilegíveis quando as protagonistas aprendem a entender o idioma. A experiência da autora em jornalismo de quadrinhos é evidente. Sua história não é romantizada, nem ela minimiza suas próprias ações e decisões.

Portugal – Sonho (Susa Monteiro), 2023.

O sonho permite que a gente viaje para dentro do que somos. Ao sonhar, chegamos aonde nunca estivemos antes. Afinal, nos sonhos todos os lugares e todos os fins são possíveis. Neste livro ilustrado, repleto de imagens exuberantes, a premiada autora e artista plástica portuguesa Susa Monteiro desperta para um mundo onde sonho, origens e pertencimento são reais. Tudo começa diante da grandiosidade da natureza e uma amizade improvável entre um homem e um tigre. O paraíso onírico evocado pela arte de Susa Monteiro transforma as cores em lar, as formas em poesia e nos permite sonhar de olhos abertos. Uma jornada possível, de encantamentos, surpresas e descobertas. A narrativa de Sonho permite que leitores criem e recriem suas histórias exclusivamente através de imagens. Publicado originalmente em Portugal, o livro ganhou o prêmio de Melhor Ilustrador Português no Festival Internacional de Banda Desenhada de Amadora 2018, o Prêmio Nacional de Ilustração ― Menção Especial e integrou o Plano Nacional de Leitura 2027, como livro recomendado para crianças dos 3 aos 5 anos. Segundo a autora, “se este livro falasse, diria para que se deixassem levar pelas cores e pelos espaços, pela sensação de voar, de querer fugir, que tantas vezes aparece nos nossos próprios sonhos”. Lindo, né? Um convite para sonhar!

Inglaterra – Lost Girls (Alan Moore e Melinda Gebbie), 2006.

O conhecido escritor britânico Alan Moore, famoso por seu trabalho em histórias em quadrinhos como Watchmen, V de Vingança e Do Inferno, escreve o roteiro que conta, com ilustrações de Melinda Gebbie, uma história com protagonistas femininos em sua obra Lost Girls. Por mais de um século Alice, Wendy e Dorothy foram nossas guias pelo País das Maravilhas, a Terra do Nunca e a Terra de Oz, durante nossas infâncias. Agora, assim como nós, essas três garotas perdidas cresceram e estão prontas para nos guiarem novamente, desta vez, através dos reinos de nossos despertares sexuais e de nossa satisfação. Por meio de seus contos de fada familiares, elas compartilham conosco suas revelações mais íntimas de desejo em suas muitas formas, revelações que fulguram radiantemente através das sombrias nuvens de guerra, se aglomerando ao redor de um luxuoso hotel austríaco. Inspirando-se na rica herança da arte erótica, Lost Girls é a redescoberta do poder extasiante da escrita e da arte.

Croácia – Thor: o Deus do Trovão (Jason Aaron, texto; Esad Ribić, arte), 2012-2014.

Você achou que não teria Marvel na nossa curadoria? Pois bem, ela apareceu! Com roteiro de Jason Aaron e arte de Esad Ribić a aclamada série acompanha três versões do Deus do Trovão (o jovem, o vingador moderno e o ancião) enfrentando o implacável Carniceiro de Deuses. O trabalho visual de Ribić elevou o tom épico da saga ao topo dos rankings de HQ’s do herói. Foram vários volumes publicados – só no Brasil foram 25! – mas a principal história desse arco foi a luta contra Gorr, o Carniceiro dos Deuses. O grande diferencial do roteiro de Aaron é explorar a evolução de Thor ao longo de milênios, dividindo a narrativa em três linhas temporais distintas que se entrelaçam: o Jovem Thor sendo impetuoso, beberrão e arrogante na era viking, quando ainda não era digno de empunhar o Mjolnir. O Thor do presente, um herói experiente lidando com o choque de descobrir deuses sendo assassinados pelo universo. E o Thor envelhecido e sendo o último governante de uma Asgard em ruínas, um ancião amargurado e cansado que protege o universo desolado. A raiva de Gorr é contra todos os deuses, que ele culpa pelas mazelas de sua vida. Daí, toma como missão a tarefa de exterminar todas as divindades do cosmos. 

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