Um olhar sociológico sobre Robinson Crusoe

Ricardo César Costa (docente, Sociologia – IFRJ-CAC)
Recentemente, aproveitando o tempo proporcionado pelas minhas últimas férias escolares, tive a oportunidade de “reler” uma das obras literárias que havia me marcado profundamente quando eu tinha cerca de 11 anos de idade: Robinson Crusoe, de Daniel Defoe. O livro, que data de 1719, se tornou um dos romances mais populares desde então, sendo traduzido do original inglês para várias línguas – informação que, evidentemente, eu não detinha naquele tempo em que o conheci. Sua linguagem extremamente acessível explica uma das razões tanto para a sua popularidade desde o século XVIII, quanto para ter sido relacionado em listas de obras infanto-juvenis compartilhadas em salas de aula brasileiras há algumas décadas.

O sobrenome original do escritor londrino Daniel Defoe (1660-1731) era Foe. O “de” foi acrescido pelo próprio, aos 35 anos, para representar uma fictícia ascendência nobre – o que, por si só, já denota uma característica que acompanha a obra que nos propomos a comentar. Em Robinson Crusoe, Defoe narra em detalhes, em formato de diário, em primeira pessoa, a história de um britânico nascido e residente na cidade de York, em 1632, que, aos 18 anos, resolve deixar a estabilidade e a comodidade da sua família – cujo pai, oriundo da Alemanha, acumulara posses como comerciante, e cuja mãe pertencia a uma família “distinta” da região – para realizar o seu sonho de virar um navegador, cruzando os mares em busca de aventuras. De nada adiantaram as palavras sábias do seu pai já idoso: nada conseguiria demover Crusoe do seu projeto e, algum tempo depois, apesar da sua inexperiência, conseguiu embarcar no navio do pai de um amigo, na cidade litorânea de Hull, numa viagem em direção a Londres. Já nessa primeira viagem a embarcação encalha e depois vem à pique ainda na costa britânica, atingido por uma forte tempestade.
O acidente não fez com que o jovem desistisse em razão desse primeiro infortúnio e retornasse para casa, o que poderia ter feito por ter recebido generoso auxílio financeiro para esse fim. Pelo contrário, tendo seguido por terra até Londres, e recebendo contribuições monetárias de amigos, de parentes e até dos seus pais – apesar de continuarem contrários à sua aventura –, teve a sua tenacidade impulsionada para seguir adiante, embarcando em outro navio rumo à costa africana numa viagem que resultou bem-sucedida, com ganhos em aprendizado na arte da navegação e com boas recompensas financeiras como negociante de mercadorias que o livro nesse momento não descreve com precisão, mas que podemos concluir, pelos relatos posteriores, de que se tratava do tráfico de escravizados [Uma nota importante a esse respeito: a Organização das Nações Unidas (ONU), em Assembleia Geral realizada em 25 de março de 2026, aprovou Resolução que define o tráfico transatlântico de escravizados como “o crime mais grave contra a humanidade”. A votação final teve 123 Estados-membros da ONU votando a favor da resolução, proposta por Timor-Leste, com três votos contrários – EUA, Israel e Argentina – e 52 abstenções, incluindo, evidentemente, Portugal, Espanha, Reino Unido e França – cf. Nações Unidas (2026)].

Estimulado por esse primeiro sucesso, Robinson Crusoe retornou ao mar como ajudante em outra embarcação para fazer o mesmo percurso, com bastante disposição. No entanto, seu navio negreiro foi atacado por mouros e o protagonista do romance feito refém e escravo do capitão pirata marroquino por um período de dois anos. Ao conseguir escapar, depois de novas aventuras, encontra em alto mar, próximo às ilhas Canárias, uma nau portuguesa rumo ao Brasil, na qual trava durante a longa viagem uma relação de grande amizade com o capitão. Curiosamente, mas nada surpreendente, em sua fuga do cativeiro, o protagonista foi ajudado por um menino mouro, que havia lhe jurado obediência, mas Crusoe, sem qualquer margem de questionamento moral, vende-o como mercadoria para o seu bom amigo capitão português.
Aportando na Baía de Todos os Santos, Crusoe é recomendado pelo oficial português como empregado a um dono de engenho, onde aprende rapidamente sobre o ofício e, “vendo como os fazendeiros viviam bem, e com que rapidez enriqueciam”, resolve solicitar uma licença à Coroa lusa e se estabelecer na região. Em algum tempo, aumenta seus negócios, produzindo também tabaco e reunindo condições financeiras para “comprar um escravo negro”, além de contratar outro serviçal. Apesar das boas perspectivas de enriquecimento com a sua propriedade num breve espaço de tempo, depois de quatro anos no Brasil decide retornar novamente à costa africana como traficante de escravos, atendendo às demandas dos fazendeiros e comerciantes que havia conhecido. Foi em razão dessa última ambição que tivemos o naufrágio que marca a narrativa central da obra, quando o navio, ao largo do arquipélago Fernando de Noronha, foi atingido por uma tempestade tão intensa que o jogou à deriva após ultrapassar a linha do Equador, tirando-o da rota africana. Na ilha deserta onde a embarcação acabou encalhando, no mar do Caribe, próximo à ilha de Trinidad, temos a narrativa central da história de Robinson Crusoe durante um período de aproximadamente 28 anos, destacando a obra como um clássico da Literatura.

Segundo algumas fontes (cf. Domingues, 2017), a inspiração de Daniel Defoe para a redação desse romance teve como base a experiência real vivida pelo marinheiro escocês Alexander Selkirk (1676-1721), que foi abandonado e passou quatro anos em uma ilha deserta, na costa do Chile, cuja história, publicada à época, apresentava diversos elementos reapropriados e ampliados por Defoe na narrativa sobre Crusoe, inclusive a utilização de uma pele de cabra como vestimenta, apesar da localização da ilha desse personagem numa região de temperatura quente, próxima à linha do Equador.
Dentre diversas questões presentes na obra de Defoe, a característica que se apresenta de forma mais explícita é a sua visão radicalmente eurocêntrica, o etnocentrismo que considera a sua leitura de mundo como superior, “civilizada”, como parâmetro de avaliação e subalternização dos outros povos originários dos continentes africano e americano. Acima da visão de mundo europeia, no entanto, há uma afirmação da superioridade moral do colonialista inglês, cuja “postura civilizatória” seria incapaz de reproduzir e “justificar a conduta dos espanhóis em todas as atrocidades que praticaram na América” (Defoe, 2021, p. 197), mesmo com a condenação igualmente moral e sobretudo religiosa dos “rituais idólatras e sanguinários” que eram comuns entre os nativos do continente, como registra Crusoe em diversas passagens do seu diário.
A afirmação indignada de Daniel Defoe, transcrita acima, certamente se relaciona com a repercussão das denúncias do genocídio ameríndio relatadas pelo bispo de Chiapas, no atual México, o frade dominicano espanhol Bartolomé de Las Casas (1484-1566), publicadas na Inglaterra e em outros países europeus no século XVI, em um contexto de disputas territoriais e político-religiosas travadas com a Coroa espanhola. Bem antes da publicação da obra de Defoe, uma das edições mais influentes dos relatos de Las Casas havia sido publicada em Londres em 1645, na qual o seu editor inglês, na introdução a essa edição, clama por uma “vingança divina”, através dos ingleses da Sua Alteza Real, contra as “mais de vinte milhões de almas dos índios assassinados, cuja partida forçada de seus corpos é tão cruel que a própria crueldade se compadece” (cf. Bom, 2023, p. 29).
O espírito empreendedor europeu encarnado pelo protagonista do romance representa a exaltação do mito do racionalismo e do individualismo burguês ideologicamente predominante na era Moderna, com o enriquecimento proporcionado pela expansão colonialista, tão presente no século XVIII. A naturalização do tráfico e da escravização negra africana se insere no contexto de escrita da obra, com o papel de destaque assumido pela Inglaterra nesse processo histórico. O eurocentrismo se manifesta fortemente também nos momentos da narrativa em que Robinson Crusoe, ao perceber que a ilha, aparentemente deserta, recebia visitantes indígenas oriundos de terras próximas para a realização de rituais de antropofagia. Seus comentários de conteúdo moral e religioso, com o apelo à leitura de textos bíblicos, com citações que atravessam todo o texto, reafirmam o papel missionário e civilizador da Europa em relação a povos que viviam em “estado de selvageria e barbárie”, não condizentes com as características associadas como intrínsecas aos seres humanos, comparativamente aos animais.
Outro elemento marcadamente etnocêntrico presente na narrativa da epopeia sobre Crusoe se refere à sua fantástica engenhosidade! O personagem, tendo saído muito cedo de casa, sem qualquer experiência profissional anterior, se transforma num empreendedor pré-capitalista com uma habilidade absurda em quaisquer iniciativas com a qual se envolvia, como ocorreu em sua passagem pelo Brasil colonial, quando, além de ser exemplo de “bondade e de honestidade de caráter”, assumiu a gestão de um engenho de cana-de-açúcar e obteve uma produtividade tão destacada, que foi questionado pelos seus pares quando resolveu se aventurar novamente em uma empreitada como traficante de escravizados através do Atlântico.
Na ilha – da qual se apropriou como sua propriedade pessoal, como um “rei” governando a terra conquistada a partir do seu “castelo” –, demonstrou novamente sua “capacidade inata europeia” ao construir suas habitações e embarcações, a partir do que a natureza local lhe oferecia, assim como ter obtido enorme sucesso como agricultor – como teve na Bahia – e, em consequência, produzir pães e outros alimentos, na domesticação de animais selvagens (cabras) e até como artesão produtor de vasos e panelas de barro – nada que não pudesse ser explicado pela “superioridade intelectual do homem branco” que, anos mais tarde, no século XIX, juntamente com a atitude missionária e civilizatória cristã, serviu como base teórica de sustentação ao racismo científico utilizado como justificativa para a expansão imperialista europeia na ocupação dos continentes africano e asiático pós-Revolução Industrial.

Nas aulas de sociologia muitas vezes utilizamos a história de Robinson Crusoe para nos referir ao conceito de socialização, como exemplo de como os valores, as ideias e os fazeres humanos são apreendidos em nossa convivência em sociedade desde a nossa mais tenra idade. Tal processo é reafirmado pelo protagonista em todos os seus momentos de reflexão sobre a vida, na sua visão de mundo e nas suas atitudes concretas cotidianas na ilha deserta, para onde ele procura transportar integralmente a sociedade que ele traz em sua cabeça, independentemente de viver uma realidade completamente distinta da que ele vivia na cidade interiorana de York. Isso se dá nos momentos em que constrói o seu refúgio, assim como quando busca obter e produz a sua própria alimentação, suas barricadas e armadilhas de proteção, além de algumas vestimentas e até na confecção de um guarda-sol.
É importante registrar, em tempo, que o naufrágio vivido por Crusoe, que vitimou todos os demais marinheiros do navio, não significou o afundamento completo da embarcação, que ficou por algum tempo encalhada a uma certa distância da praia onde o protagonista fora jogado pelas fortes ondas que acompanharam a tempestade. Conseguindo construir com rapidez uma jangada para navegar até o barco, teve disponibilidade de acesso e conseguiu transportar para a ilha, em doze viagens, uma boa quantidade de armas, pólvora, grãos, mantimentos, roupas, bebidas, talheres, moedas, ouro, prata, bússolas, lunetas, bíblias, além de tinta e papel, com os quais o personagem, economizando ao máximo o seu uso, escreveu o seu diário. O navio naufragado também lhe proporcionou o encontro de dois gatos e de um cachorro que durante muito tempo lhe fizeram companhia na ilha.
A solidão de Crusoe em relação aos seres humanos se encerra somente após 23 anos na ilha, quando toma a iniciativa de salvar um indígena que seria vítima de um ritual antropofágico, matando os seus algozes. O personagem já havia presenciado, observando à distância e com bastante pavor, outras cenas assim ao longo desse tempo, mas essa foi a primeira vez em que ele tomou a iniciativa de intervir e evitar a morte de um nativo da região. Este se torna tão grato ao seu salvador branco que se prosta e põe a sua cabeça sob os pés de Crusoe, em um gesto de reverência e de total submissão, de devedor da sua vida dali por diante, colocando-se na condição de serviçal, de escravo.
Crusoe, do alto da sua superioridade europeia, não pergunta pelo seu nome – afinal, para ele isso não importa… –, mas o nomeia fazendo referência ao dia da semana em que o encontrou, Sexta-Feira, e dessa forma ele foi tratado no restante da obra. Crusoe ensina ao “novo amigo” algumas palavras na língua inglesa – inclusive a tratá-lo como “mestre” – para substituir parcialmente a linguagem de sinais com o qual se comunicavam; convence-o, com sucesso, a deixar de ingerir a carne humana, trocando-a pela carne animal; o introduz no conhecimento da agricultura e da domesticação de cabras; demonstra como utilizar as armas de fogo como forma de defesa; e, como não poderia deixar de ser, o catequiza na religião cristã. Enfim, aquele que antes fora qualificado como selvagem passa a ser socializado segundo o padrão europeu, inclusive sob o ponto de vista da fé. Entretanto, esse “processo civilizatório” não é completo, pois não permite ao nativo que seja tratado como um igual, mas sim como escravo a serviço do seu amo, a quem deve total obediência e subserviência por lhe ter concedido uma nova vida.

Fico por aqui em relação à síntese comentada da obra, para deixar os leitores deste artigo minimamente curiosos quanto ao restante da narrativa e do seu final! Importante destacar ainda, no entanto, que Crusoe, ao deixar a ilha, a mantém como “sua” propriedade, deixando no local outros náufragos e navegadores europeus como seus colonos, reforçando o papel da obra como “um instrumento despudorado de propaganda a favor da expansão do poder mercantil da Inglaterra o Novo Mundo e do estabelecimento de novas colônias britânicas”, como qualifica apropriadamente o ensaísta sul-africano John Maxwell Coetzee (2021, p. 379). Alguns anos após a publicação de Robinson Crusoe, o filósofo contratualista Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), em uma passagem do seu livro Emílio: Tratado sobre a educação natural (1762), mesmo reconhecendo que o protagonista da história, isolado em sua ilha, não representa “o estado do homem social”, cita a obra como uma primeira leitura de referência para o estímulo à educação de adolescentes europeus (cf. Rousseau, 2021, p. 410-411). Já Karl Marx (1818-1883), um século depois, em uma passagem de O Capital (1867), utiliza o termo “robinsonadas” para se referir ao mito do individualismo capitalista presente na economia política que é objeto da crítica presente em sua grande obra – “mancadas”, segundo Marx, da qual nem o David Ricardo estaria livre, quando, anacronicamente, “transforma o pescador e o caçador primitivos em donos de mercadorias” (cf. Marx, 2008, p. 98).
Enfim, Robinson Crusoe segue até hoje como uma obra de relevância histórica e sociológica, como um exemplo concreto da visão de mundo eurocêntrica, racista e colonialista vigente naquele período da sua escrita, além da exaltação do mito do individualismo burguês, sendo objeto de diversos filmes, HQs etc., com releituras posteriores até no campo da ficção científica, como foi a série estadunidense produzida na década de 1960, Perdidos no Espaço (Lost in Space, CBS, 1965-1968), que retratava a saga da família Robinson, “náufragos” no Cosmos, na luta para conseguir retornar ao planeta Terra. Nesse caso, os outros, “selvagens”, passam a ser os perigosos alienígenas, não exatamente antropófagos, mas sempre representando a “barbárie”, uma ameaça à sobrevivência da civilização humana – na verdade, somente das sociedades cristãs ocidentais do Hemisfério Norte – tão presente em diversos filmes de Hollywood, que cumprem com o papel de apresentar e preservar determinados valores aparentemente tão superiores e nobres!
REFERÊNCIAS:
BOM, Gabriel Cardoso. Las Casas além dos Pirineus: circulação e disputas política nas traduções da Brevíssima relación de la destrucción de las Indias e outros escritos lascasistas. História e Cultura, v. 12, n. 2, dez/2023. Disponível em: file:///C:/Users/dark_/Downloads/3995-Texto%20do%20artigo-15135-1-10-20231220.pdf Acesso em: 13 abr. 2026.
COETZEE, John Maxwell. Daniel Defoe, Robinson Crusoe (1999). In: DEFOE, Daniel. Robinson Crusoe. São Paulo: Ubu Editora, 2021, p. 375-382.
DEFOE, Daniel. Robinson Crusoe. São Paulo: Ubu Editora, 2021.
DOMINGUES, Joelza Ester. “Robinson Crusoé”, a imagem do colonizador em uma obra interdisciplinar. Ensinar História, 2 de março de 2017. Disponível em: https://ensinarhistoria.com.br/robinson-crusoe-imagem-colonizador-obra-interdisciplinar/ Acesso em: 03 abr.2026.
LAS CASAS, Frei Bartolomé. O paraíso destruído: brevíssima relação da destruição das Índias. Porto Alegre: LP&M, 2001. (Coleção L&PM Pocket, vol. 230).
MARX, Karl. O capital: crítica da economia política: livro I. 25ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.
NAÇÕES UNIDAS. Resolução define escravização de africanos como o mais grave crime contra a humanidade. ONU News, 25 de março de 2026. Disponível em: https://news.un.org/pt/story/2026/03/1852716 Acesso em: 13 abr. 2026.
ROUSSEAU, Jean Jacques. Tratado sobre a educação natural (1762). In: DEFOE, Daniel. Robinson Crusoe. São Paulo: Ubu Editora, 2021, p. 409-412.


