Artigos, vol. 3

Olá, sou Luís, professor do Ensino Médio do Estado do Rio de Janeiro. Hoje atuo na cidade de Petrópolis. Recentemente terminei minha dissertação no programa de Ensino Profissional em Ensino de História na UFF (ProfHistoria-UFF). Hoje o ProfHistoria é adotado em 39 instituições por vários Estados brasileiros oferecendo mestrado e, mais recentemente, também o doutorado. Defendi o mestrado em 2025 e, a partir deste ano de 2026, me tornei doutorando do programa.

Uma das características básica deste programa é formar professores do ensino básico, principalmente das redes públicas estaduais e municipais. O ProfHistoria tem mudado a realidade do ensino de história no país segundo o relato dos próprios mestres oriundos dele. Eu, particularmente, saí muito satisfeito e realizado, pois as aulas propiciavam discutir questões da sala de aula e do ensino de história. A troca com colegas e professores contribuíram muito para reflexão e mudança de postura em sala de aula. Abaixo vou falar um pouco sobre o trabalho que desenvolvi ao longo de dois anos (2023-2024) e no fim do texto deixar o link para, quem se interessar, ler a dissertação.

A dissertação “Um lampião para iluminar os becos: ensino de história e as homossexualidades na ditadura brasileira através do jornal Lampião da Esquina (1978-1981)” investiga as possibilidades do Ensino de História como espaço de reflexão crítica sobre as violências sofridas por pessoas LGBTQIAPN+ no período da ditadura empresarial-militar brasileira e suas permanências no tempo presente. Partindo da constatação de que o currículo escolar silencia essas experiências históricas, o trabalho se ancora no uso do jornal Lampião da Esquina como fonte histórica e pedagógica, buscando dar visibilidade a sujeitos historicamente marginalizados e contribuir para a formação cidadã dos estudantes.

Lampião da Esquina, ano 3, n.º 32, jan. 1981. Fonte: memoriasdaditadura.org.br

 O problema central da pesquisa pode ser sintetizado na seguinte questão: como o Ensino de História pode contribuir para a compreensão crítica das opressões e das formas de resistência das homossexualidades durante a ditadura, rompendo com os silenciamentos curriculares e enfrentando discursos conservadores e negacionistas? A partir desse problema, a dissertação levanta como hipóteses que: (1) o ensino de História possui potencial para promover uma leitura crítica das desigualdades e violências historicamente construídas; (2) o uso de fontes históricas como o Lampião da Esquina possibilita dar concretude às experiências dessas populações, favorecendo a identificação dos estudantes com esses sujeitos históricos; e (3) a abordagem das resistências, e não apenas das violências, contribui para a construção de uma consciência histórica mais ativa e transformadora. Como objetivo geral, o trabalho propõe analisar de que maneira o ensino de História pode mobilizar estudantes para refletirem sobre a relação entre ditadura, repressão às homossexualidades e direitos humanos, tendo como objetivos específicos: problematizar o silenciamento curricular, discutir o contexto histórico e político do jornal e desenvolver uma proposta pedagógica aplicada em sala de aula.

No que se refere à dimensão propositiva, a dissertação apresenta uma sequência didática estruturada para turmas do 2º ano do ensino médio, baseada na análise do jornal Lampião da Esquina como documento histórico. A proposta parte da instrumentalização conceitual dos estudantes — com discussões sobre memória, narrativa histórica, ditadura e linguagem — e avança para atividades de leitura, interpretação e problematização das fontes. O trabalho com a fonte não se limita à compreensão do passado, mas busca estabelecer relações com o presente, permitindo que os alunos percebam as permanências de discursos e práticas discriminatórias na sociedade contemporânea.

Como culminância, os estudantes são organizados em grupos e produzem seus próprios jornais, nos quais expressam interpretações sobre o passado e reflexões sobre o presente, exercitando o protagonismo e a autoria. As respostas dos alunos evidenciam engajamento, identificação com as temáticas e capacidade de análise crítica, revelando tanto a compreensão das violências históricas quanto a percepção de suas continuidades. A experiência mostra que o contato com fontes históricas  para o trabalho de temas sensíveis, aliado a uma mediação pedagógica estruturada, favorece a construção de empatia, consciência histórica e posicionamento crítico frente às desigualdades e preconceitos ainda vigentes.

Assim, a dissertação articula pesquisa histórica, reflexão teórica e prática docente para defender um ensino de História comprometido com os direitos humanos, a diversidade e a formação de sujeitos críticos, demonstrando que a escola pode — e deve — atuar como espaço de enfrentamento às violências e de valorização das múltiplas experiências humanas.


Esta dissertação pode ser encontrada no Portal eduCapes através do link: http://educapes.capes.gov.br/handle/capes/1134164

“Um lampião para iluminar os becos: ensino de história e as homossexualidades na ditadura brasileira através do jornal Lampião da Esquina (1978- 1981)”.

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