Histórias que a História conta, vol. 1

Quem nunca ouviu falar de D. Pedro I, Joana D’Arc, Abraham Lincoln, Getúlio Vargas, Pedro Álvares Cabral ou Domenico Scandella? Bom, na verdade, se você não exerce algum tipo de profissão ligada à área de história dificilmente conhecerá este último personagem, que só está aí para nos lembrar o quanto o conhecimento histórico não é estático. Mas não quero me adiantar. Esses personagens históricos tremendamente conhecidos por qualquer pessoa que já frequentou uma sala de aula, ou mesmo consumiu algum tipo de material online sobre história, são figuras que de alguma forma produziram impactos na época em que viveram. Não há de se negar tal evidência.

O problema é que durante muito tempo eram apenas esses tipos de indivíduos que frequentavam os livros didáticos de história. Rios de tinta foram gastos para biografar suas trajetórias e garantir que suas imagens não fossem esquecidas pelas gerações posteriores que precisavam dominar os conteúdos de história. Apelava-se para a história dos grandes homens (sei que soa estranho usar esta expressão, mas ela já foi bastante usada como sinônimo de ‘seres humanos’ – é complicado, mas isso é uma conversa pra outro texto). Eram narrativas que se dedicavam a contar como determinadas pessoas modificaram a história de seus países, suas regiões e, quiçá, da humanidade, graças a sua inteligência ‘fora do comum’ ou por sua percepção ‘à frente do tempo’. Puxe pela memória: quantas vezes você ouviu esses argumentos?

Essa perspectiva foi hegemônica no campo do conhecimento histórico durante longos períodos e segue ressoando até hoje, seja em todos os tipos de materiais didáticos, seja nos mais variados espaços pedagógicos do nosso país. Esse passado ainda não passou. Contudo, há décadas essas ideias são confrontadas por outras formas de compreensão do passado. Como acessar outras trajetórias individuais? Justamente aquelas tidas como subalternas, de pessoas comuns, aparentemente sem conexões com os ‘grandes personagens’. Sob a inspiração de Walter Benjamin, “nada do que aconteceu deve ser perdido para a História (…) só à humanidade redimida o passado pertence inteiramente” (1993, p. 223), muitas pesquisas surgiram e o curioso personagem citado no início desse texto está associado a uma dessas práticas historiográficas disponíveis para pensar as sociedades humanas no tempo.

Há quase cinquenta anos um pequeno livro produziu grandes impactos no campo da historiografia. Trata-se de “Il formaggio e i vermi. Il cosmo di un mugnaio del ‘500” (‘O queijo e os vermes. O cosmo de um moleiro do século XVI’), escrito pelo historiador italiano Carlo Ginzburg e publicado em 1976. O autor integrava um grupo de intelectuais ligados à micro-história, surgida na Itália dos anos 1960 e com projeção internacional na década seguinte, cuja primeira geração (1966-1977) reuniu Edoardo Grendi, Carlo Poni, Giovanni Levi, além do próprio Ginzburg, através da revista Quaderni Storici, responsáveis por estruturarem projetos, conceitos e procedimentos metodológicos microanalíticos, quais sejam: reduzir a escala de observação e análise; apostar no uso exaustivo de fontes; examinar detalhadamente personagens anônimos ou coletividades marginalizadas; e estabelecer diálogos com outros campos de conhecimento, como a Antropologia, para a compreensão da dinâmica entre o objeto de estudo e o seu contexto histórico mais amplo. O uso do prefixo micro pode gerar confusão. Talvez a ideia de escala não seja a mais adequada. Macro e micro são formas diferentes de observar os agentes sociais e não a importância (o tamanho) do objeto estudado. A micro-história lida com as tensões em torno do peso que certas influências exercem sobre a ação social de determinado personagem ou daquela comunidade. É possível reconstruir uma trajetória a partir de tantas e múltiplas determinações que a vida apresenta? Quantos passados possíveis estavam à disposição daquelas pessoas? Quais futuros? São interrogações que orientam as pesquisas de uma prática guiada pela micro-história.

Scandella, também conhecido como Menocchio, é o protagonista de ‘O queijo e os vermes’: um moleiro, nascido em 1532, em Montereale, diminuta aldeia do Friuli, região localizada no nordeste da Itália. E por qual razão ganhou tamanho destaque? Por ter sido processado e executado pelo Tribunal da Santa Inquisição sob a acusação de heresia. Seus processos foram encontrados por Ginzburg nos arquivos da Cúria Episcopal do Estado de Udine, contendo os interrogatórios do moleiro, diversos testemunhos de pessoas que viviam em sua aldeia, além de uma lista dos livros mencionados por Menocchio. Tais documentos inquisitoriais forneceram, de um modo notável, pistas e fragmentos das concepções que animavam esse camponês alfabetizado, agente histórico de um período que lhe permitiu vivenciar uma multiplicidade de experiências únicas: a invenção da imprensa, o surgimento de inúmeros movimentos reformistas religiosos no interior do cristianismo e a escalada da ação repressiva católica (a ‘contrarreforma’, cujo aspecto mais visível foi a própria Inquisição e seus métodos de tortura e execução). Denunciado em setembro de 1583 pelo pároco local, por sempre discutir com os habitantes sobre ‘coisas da fé’ e por ter pronunciado ‘palavras heréticas’, Menocchio foi convocado, preso e inquirido pelo Santo Ofício em fevereiro de 1584. Nesse primeiro interrogatório, Scandella apresentou sua cosmogonia original:

“Eu disse que segundo meu pensamento e crença tudo era um caos, isto é, terra, ar, água e fogo juntos, e de todo aquele volume em movimento se formou uma massa, do mesmo modo como o queijo é feito do leite, e do qual surgem os vermes, e esses foram os anjos. A santíssima majestade quis que aquilo fosse Deus e os anjos, e entre todos aqueles anjos estava Deus, ele também criado daquela massa, naquele mesmo momento, e foi feito senhor com quatro capitães: Lúcifer, Miguel, Gabriel e Rafael” (Ginzburg, 2006, p. 36-37).

Mas suas ideias peculiares não se encerraram neste momento, posto que os inquisidores, juízes eclesiásticos e seculares, incentivaram-no a falar. E Menocchio compartilhou seus pensamentos.

Expôs seu materialismo não apenas através de sua percepção cosmogônica sobre queijos e vermes, mas também sua incapacidade em aceitar a teoria de um deus criador, a divindade de Cristo, a imaculada concepção ou mesmo a imortalidade das almas. Acusou os ricos de oprimirem os pobres através do emprego de uma linguagem incompreensível como o latim, incluindo aí, a cumplicidade criminosa da Igreja Católica, instituição enriquecida e vendedora de ‘mercadorias’, os sacramentos, que garantiam a exploração dos mais humildes – o que, de certa forma, transformava Domenico em defensor do igualitarismo num mundo profundamente desigual. Desfilou perante os inquisidores suas opiniões tolerantes e não-hierárquicas sobre a fé:

“A majestade de Deus distribuiu o Espírito Santo para todos: cristãos, heréticos, turcos, judeus, tem a mesma consideração por todos, e de algum modo todos se salvarão” (Ginzburg, 2006, p. 41).

Compartilhou seu desejo pela construção de um ‘mundo novo’, sua utopia que bebia na fonte imaginária de um passado idealizado, mais belo, diante da corrupção vivenciada no presente, ou talvez originária de uma esperança por uma sociedade mais justa, passível de ser alcançada através da luta camponesa: “Meu espírito era elevado e desejava que existisse um mundo novo e um novo modo de viver, pois a Igreja não vai bem e não deveria ter tanta pompa” (Ginzburg, 2006, p. 128). Será que você, após alcançar esta parte do texto, está com aquela expressão de espanto por causa de Menocchio?

Creio que mesmo um público contemporâneo ficaria perplexo diante dessas ideias. Agora, imagine este moleiro expondo tais opiniões naquele contexto histórico de intensas disputas religiosas, perante um tribunal do Santo Ofício. Elas soavam deveras perigosas para a Inquisição. E desse jeito foram tratadas. A série de interrogatórios foi finalizada em 12 de maio de 1584. Cinco dias depois, o advogado de Scandella enviou uma longuíssima carta a seus inquisidores, suplicando perdão por quaisquer erros cometidos em seu passado. No entanto, naquele mesmo dia veio a sentença, unânime, na qual Menocchio era declarado “não só um herético formal (…) mas também um heresiarca” (Ginzburg, 2006, p. 145). O horror e o choque provocados pelos argumentos do condenado levaram à confecção de um longo veredito: o moleiro deveria abandonar, publicamente, todas as suas crenças, cumprir rituais de penitência, vestir um hábito marcado com a cruz por toda a eternidade e viver o resto de seus dias atrás das grades, aos custos de seus filhos.

No início do processo Menocchio declarou ser casado e responsável por sete filhos. Apenas um deles, Ziannuto, apresentou uma súplica para a diminuição de sua pena. Já havia se passado quase dois anos. Só então o perdão da Igreja lhe foi concedido: sua aldeia natal seria o seu cárcere perpétuo, não deveria mencionar mais suas ideias perigosas e o hábito com a cruz deveria ser mantido. É importante mencionar que sua vida social e política naquela localidade não era marginalizada: Menocchio foi magistrado (podestá) da aldeia e indicado como administrador paroquial (cameraro), antes e depois do processo inquisitorial. Ou seja, ele transitava entre seus conterrâneos com relativa aceitação. A profissão de moleiro, ligada à moagem de cereais, especialmente à do trigo para a fabricação de farinha, lhe concedia um amplo acesso a uma rede de contatos culturais interclassistas que circulavam pelos campos italianos, por conta dos serviços prestados em seu ramo de atividade. Era um homem que havia aprendido a ler e contar. Ginzburg, inclusive, não mede esforços para tentar reconstituir a trajetória de leituras que Menocchio havia experimentado contrapondo suas falas ao longo dos interrogatórios com os possíveis livros que se difundiram pelas áreas rurais naquele momento histórico. Leituras com as quais ele teve contato: a Bíblia em língua vulgar, evangelhos apócrifos, textos reunidos no Fioretto della Bibbia, Decameron, Il Legendario dei Santi, viagens extraordinárias apresentadas em Il cavallier Zuanne de Mandavilla, Il sogno dil Caravia e outros textos como o Alcorão.

Todavia, a principal hipótese de Ginzburg é de que as ideias de Menocchio também possuíam raízes mais antigas, originárias de uma cultura popular camponesa ancestral. Não se relacionavam mecanicamente com os livros, pois havia um desacordo entre o que o moleiro lia e a interpretação que fazia – ao menos para Ginzburg. Segundo LaCapra, ele “interpreta essas discrepâncias sintomáticas como indicações de uma cultura oral, popular (mais especificamente, camponesa), que inconscientemente serviu como o crivo ou filtro para as leituras de Menocchio” (2015, p. 296). O historiador italiano defende a perspectiva de que o filtro, a chave de leitura usada por Menocchio, se baseava numa tradição pré-cristã, organizada em torno de uma cultura oralizada, popular e camponesa que emergiu no contexto reformista do século XVI. Esse código oral foi capaz de modelar as interpretações das leituras feitas pelo moleiro.

A ‘visão de mundo’ de Menocchio seria tributária dessa cultura popular oral e radical camponesa. Algo que não é possível de ser verificado em termos científicos. Há dificuldades em analisar e apresentar o que seria cultura popular oral. Havia divisões e diferenças internas, e não unidades, além de internalizações da cultura dominante – sobretudo a cristã. Talvez a grande dificuldade em lidar com essa obra historiográfica fundamental resida nessa questão: Ginzburg sustenta uma aparente existência de uma cultura camponesa primordial, ancestral, que se manteve circulando pelos campos italianos até alcançar, em certo contexto, o nosso personagem friulano.

Menocchio seguiu sua vida após deixar o cárcere do Santo Ofício. E novamente seguiu divulgando suas ideias ‘perigosas’ perante os moradores locais e alcançando outros habitantes de regiões mais distantes de Montereale, após conseguir outro relaxamento da pena para se afastar da aldeia, posto que também exercia o ofício de tocador de violão nos festejos. Entre 1598 e 1599 acumularam-se denúncias contra o moleiro. Em fins de junho foi novamente detido e encarcerado. No mês seguinte apresentou-se perante seus inquisidores:

“Quinze anos eram passados desde que Menocchio fora interrogado pela primeira vez pelo Santo Ofício. E passara três deles na prisão. Nessa altura já estava velho: magro, cabelos brancos, barba grisalha, sempre vestido como moleiro, túnica e gorro cinza-claro. Tinha 67 anos. Depois da condenação, exercera diversas profissões: ‘Fui marceneiro, moleiro, hospedeiro, dei aula de ábaco, ensinei crianças a ler e a escrever e também toquei violão nas festas’. Quer dizer, tentara se manter fazendo uso de suas aptidões – inclusive saber ler e escrever, que havia contribuído para pô-lo em dificuldades” (Ginzburg, 2006, p. 160).

A conclusão foi rápida: réu ‘relapso’ e reincidente. Teria a chance de denunciar seus cúmplices, sob pena de ser torturado. Mas não conseguiu escapar da sevícia das cordas. Sobreviveu mais alguns dias na prisão. Seu caso chegou até o conhecimento do papa Clemente VIII, que lhe sentenciou à morte na fogueira. Por volta de 1601, Domenico Scandella, o Menocchio, foi executado.

Valorizar vozes subalternas, desenvolver pesquisas reveladoras de dinâmicas locais de poder e recuperar formas de resistência diante das normas impostas são elementos possíveis de encontrar nesta obra quase cinquentenária. Conseguimos perceber que a onda de violência repressiva efetivada pela Inquisição atingiu as elites intelectuais e, também, os camponeses alfabetizados que se atreveram a criar interpretações próprias do mundo. Isso que chamamos de cultura não pode, nem deve, ser compreendida de forma estática, nem essencialista. Reelaborar elementos, eruditos e populares, é um traço fundamental dessa atividade social própria dos seres humanos.

A análise microscópica é capaz de desvelar as coerências e incoerências vivenciadas no chão da realidade em que os indivíduos se movimentam. Apesar das muitas críticas possíveis de serem direcionadas a Ginzburg, nada lhe priva do mérito de nos apresentar uma trajetória de vida tão significativa quanto a de Menocchio. Seja qual for a lente que escolhermos para olhar esse passado, lá estará Domenico Scandella e sua ousadia político-intelectual para confrontar o mundo. No Brasil, a obra foi editada sob o título “O queijo e os vermes: o cotidiano e as ideias de um moleiro perseguido pela Inquisição” pela editora Companhia das Letras – inclusive em formato de bolso, respeitando o texto integral. Tradução para o português de Maria Betânia Amoroso, sob revisão técnica do historiador Hilário Franco Jr.

REFERÊNCIAS:

ACRUCHE, Hevelly F.; DAIBERT JR., Robert. 2025. Micro-história e saberes situados: colonialidade do poder e translocalidade. Locus: Revista de História, v. 31, n. 1, p. 3-8, 2025. Disponível em:  https://doi.org/10.34019/2594-8296.2025.v31.49328. Acesso em: 12 ago. 2025.

BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas: Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1993.

CARNEIRO, Deivy F.; VENDRAME, Maíra I. Avanços e novas perspectivas a partir da segunda geração da microstoria italiana. In: ____________. (Org.). Espaços, escalas e práticas sociais na micro-história italiana. Rio de Janeiro: FGV Editora, 2021, p. 7-23.

GINZBURG, Carlo. O queijo e os vermes: o cotidiano e as ideias de um moleiro perseguido pela Inquisição. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

LACAPRA, Dominick. O queijo e os vermes: o cosmo de um historiador do século XX. Topoi, Rio de Janeiro, v. 16, n. 30, p. 293-312, jan./jun. 2015.

LIMA, Henrique E. A micro-história italiana: escala, indícios e singularidades. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.

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