Cotidiano, infância e Satã: que diabo de livro é esse?

Rafael Brasil (docente, História – IFRJ-CAC)
Satanás, Lúcifer, Belzebu, Príncipe das Trevas, Pai da Mentira, Capiroto, Capeta, Coisa-Ruim, Tinhoso, Cramunhão, Sete Pele, Rabudo, Chifrudo, Sinteco Gelado… Caramba! O Diabo tem muitos nomes no Brasil e todos estão associados ao universo da maldade, da trapaça, das trevas e tudo que há de ruim neste mundo e no outro. Agora, imagine se alguém decidisse questionar a pertinência dessa imagem e criasse uma história fofinha sobre essa figura maligna chamada Satã? Pois bem, Rafael Sica e Allan Sieber ousaram e se uniram para criar a obra “Satã amigo das crianças boas”, em que o personagem principal se torna o benevolente guardião das boas regras que regem o comportamento infantil.

Satã não é o organizador de ações pecaminosas. Ele distribui amor, bacon, carinho e jujuba para as crianças disciplinadas e gentis, sem descuidar de punir a desordem. Afinal, todo bom comportamento merece uma recompensa. Essa inversão cômica atinge diretamente nossas expectativas, aquelas que foram criadas quando lemos o título e identificamos esta figura que é pensada como responsável pela balbúrdia e pelos descaminhos morais da humanidade. Sica e Sieber investem na lógica do absurdo como um combustível humorístico. É Satã quem age pedagogicamente na promoção de boas atitudes juvenis. No fim das contas, nos perguntamos: que diabo de crítica é essa?
Publicada em 2023 pela editora Veneta, a obra é roteirizada por Allan Sieber e desenhada por Rafael Sica. Tudo começou com uma representação simpática de Satã oferecendo um sorvete para uma criança. A serigrafia de Sieber foi vista por Rafael Sica que, prontamente, resolveu convidá-lo para desenvolver a história. Gaúcho nascido em Porto Alegre (1972) e radicado em terras cariocas, Sieber atua nas artes plásticas, como cartunista, animador e roteirista. Durante anos manteve, em parceria com a produtora Denise Garcia, entre 1999 e 2016, a Toscographics Desenhos Animados, no Rio de Janeiro. Suas produções são marcadas por um humor debochado e até mesmo mordaz, colecionando polêmicas em torno de debates acerca do ‘politicamente correto’. O outro nome dessa parceria, Rafael Sica, também é gaúcho (Pelotas, 1979) e possui trabalhos que repercutiram no circuito nacional de quadrinhos, conquistando, inclusive, o Prêmio HQ Mix por duas vezes: 2005 e 2009, nas categorias Novo Talento e Web Quadrinhos, respectivamente. Em entrevista ao jornal O Globo procurou sintetizar o núcleo central da obra: “Em poucas palavras, é um livro sobre um mal que não é de todo mal e um bem que não é de todo bem. É um livro humano”.

Esta história de reinterpretação do personagem é bastante curta e profundamente dedicada a zombar da imagética tradicional que apresenta o Demônio como a encarnação suprema do Mal, com ‘m’ maiúsculo. A narrativa é construída a partir de tercetos rimados que exibem um Satã benevolente e amoroso com as crianças, mas nem todas. As bem-comportadas, que ajudam pessoas com deficiência física, tratam os animais de forma decente e respeitam e valorizam o amor familiar e fraterno são adoradas pelo Diabo. Os maus exemplos também estão na obra. E quem se lança numa cruzada contra a violência paternal e a desobediência infantil? Exato! O Sete Pele, logo ele, o inimigo da corrupção moral, mas agente da punição de toda maldade provocada pelos adultos. Não deixa de ser um soco bem dado no meio da fuça daquela rigidez certeira que determinada narrativa moralizante e cristã construiu, ao longo de séculos, sobre o que simboliza o mal e o que está associado ao bem. O Satã desta história é bem mais complexo e multifacetado.
Vale a pena fazer um brevíssimo panorama histórico sobre a figura do Diabo na Europa e, por tabela, no Brasil. Em termos gerais, foi no período medieval que a maldade passou a ser canalizado para uma única figura, aquela que se tornaria a condensação de todo o mal, capaz de corromper a criação divina desde o princípio dos tempos e que seguiria nessa tarefa eternamente nos seus contatos com a humanidade, em uma disputa sem fim por corações, mentes e almas com Deus. O Novo Testamento bíblico ressoou essas interpretações, quando o Diabo se tornou a personificação do mal, sobretudo a partir dos episódios envolvendo Jesus no deserto e todo o rol de tentações a que foi exposto pela figura demoníaca. Nem a própria serpente que havia tentado Eva para cometer o pecado original costumava ser associada ao Coisa-Ruim. No Medievo e na Modernidade, o Capeta passou a ser visto e reconhecido em diversas passagens bíblicas, no Gênesis, Levítico, Livro de Jó, Evangelhos e, claro, no Apocalipse – sua biografia, por assim dizer.


As desgraças naturais, a peste que dizimou o continente europeu, as constantes guerras, os largos períodos de fome devastadora, os inimigos cristãos e não-cristãos que rondavam vilas, cidades e campos da Europa durante as reformas religiosas. Tudo (e muito mais) possuía uma origem comum, o mesmo promotor desses eventos: o Diabo. Dessa forma, ganhando cada vez mais protagonismo, o Cramunhão cativou as audiências europeias e semeou o medo no imaginário coletivo. Dos feitos mais grandiosos aos mais banais ocorridos nos confins de vilarejos perdidos no tempo, lá estava o Satanás agindo malignamente para corromper cada representante da espécie humana (Magalhães et al, 2012).
Era necessário identificar suas manifestações e seus mensageiros. Complexas e intricadas operações ideológicas mobilizaram um discurso teológico durante a conquista europeia colonial das Américas e de África. No caso brasileiro, os povos originários passaram a ser compreendidos como uma outra humanidade, com muitas reticências sobre essa tal humanidade, já que para uma parcela considerável de colonizadores, entre religiosos ou não, os indígenas eram nada mais do que selvagens. Seres portadores de vícios da carne, preguiçosos, com práticas hediondas de canibalismo e desprovidos de qualquer contato com a religião cristã. Ou seja, um prato cheio para as maquinações do Diabo nestas terras brasileiras. Com o tempo, sobretudo a partir das resistências frente à escravização e aos castigos, o Demônio, por suposto, passou a se ocupar de outros corpos: os africanos e seus descendentes negros no Brasil. Posteriormente, os demais colonos, ainda que seletivamente, também passaram a ser alvo do Capeta, ao menos nas concepções cristãs que compreendiam toda existência ‘fora do comum e do esperado’ como sendo inspirada por motivações demoníacas (Souza, 1986).
Esse pequeno giro histórico pode nos ajudar a compreender toda a polêmica envolvida no lançamento e circulação de “Satã amigo das crianças boas”. Quando Sieber e Sica veicularam anúncios sobre a publicação em suas redes sociais foi uma enxurrada de mensagens condenatórias, de fundo religioso, escandalizadas com o teor e o título da obra. Quase como se estivéssemos assistindo a materialização daqueles versos da canção dos Titãs: ‘Bichos escrotos, saiam dos esgotos’. Houve, por evidente, muitas postagens elogiosas e de apoio. Entretanto, vídeos de líderes religiosos na plataforma do YouTube condenando o ‘satanismo’ dos autores começaram a circular, além da polêmica artificialmente fabricada por deputados da extrema direita mineira no contexto de realização do Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ) em Belo Horizonte, em 2024. Parlamentares divulgaram vídeos condenando a exposição de crianças da capital mineira a obras consideradas inadequadas para a faixa etária. Quais eram essas produções quadrinísticas? ‘Diário de uma Mãeconheira’, de Maíra Castanheiro; ‘Boy dodói’, obra coletiva; ‘Kit Gay’, de Kael Vitorelo e ‘Satã amigo das crianças boas’. Havia um componente político adicional, por conta das eleições municipais que se desenrolavam naquela época.
Há uma longa história envolvendo ações religiosas e pautas políticas coletivas em terras brasileiras. Se considerarmos apenas o período republicano, vale lembrar as atividades da direita e extrema direita católicas ao longo dos anos 1930 e 1960, além do surgimento e crescimento da chamada ‘bancada da Bíblia’ no Congresso Nacional em fins dos anos 1990 até o presente, parte integrante de um movimento neopentecostal com fortes tintas políticas (Brito et al, 2024). É inegável que o próprio título da HQ provoca um espanto, graças ao contexto histórico de formação da sociedade brasileira, mas nada pode servir de justificativa para a campanha de ódio orquestrada contra esta obra de arte. Aliás, isso está longe de ser uma novidade.
Quem não se lembra do impacto que o desfile da Acadêmicos do Grande Rio, vencedora do Carnaval carioca em 2022, provocou? Com um samba-enredo homenageando Exu, divindade conectada com religiões de matriz africana, “Fala, Majeté! Sete chaves de Exu”, Gabriel Haddad e Leonardo Bora, os carnavalescos da escola, organizaram um espetáculo para desfazer a tradicional e equivocada associação entre Exu e a figura do diabo. O longo processo histórico de demonização de Exu pode ser identificado nas atividades missionárias cristãs europeias em território africano entre povos iorubás. A transformação de uma entidade ligada aos povos africanos e, depois, brasileiros no contexto da diáspora, cumpriu um importante papel na colonização. Segundo uma pesquisadora:
Os carnavalescos lembram que a associação de Exu com as ideias de mal e pecado remonta aos tempos coloniais escravistas, em que o catolicismo se valia de diversas estratégias para se impor, dentre as quais a depreciação de divindades que não a sua, usando a figura do demônio para mobilizar uma “máquina domesticadora de corpos e mentes”. Em contrapartida, os próprios povos de terreiro se apropriaram desse imaginário como tática de sobrevivência: se Exu é o diabo e o diabo é perigoso, que os outros tenham medo dele! Mas é (ou deveria ser) evidente, e esse é o cartaz da Grande Rio, que Exu não é o belzebu de doutrinas cristãs. É uma energia complexa, que a Escola colocou na avenida em toda sua exuberância. E não poderia ser diferente, pois Exu é o portador do Axé, da energia vital. Segundo as cosmogonias iorubás, Exu foi criado por Olorum com uma série de potências, inclusive a de dar movimento a deuses e homens e de fazer a mediação entre eles. Exu é o princípio dinâmico, símbolo de mudança, da comunicação, da liberdade. A rua, a esquina e a encruzilhada são seus templos. É o que cobra e dá. É o que abre os caminhos (Lacerda, 2022).

Desse modo, a HQ de Sieber e Sica assume uma dimensão crítica fundamental nesses tempos em que vivemos, ao subverter o arquétipo perverso de Lúcifer e produzir reflexões sobre o que seria uma ‘criança boa’. Pode parecer óbvio para muitas pessoas, mas é necessário lembrar que nossas ideias sobre o ‘bem’ e o ‘mal’ são construções sociais condicionadas historicamente. As convenções simbólicas sobre o Diabo, abastecidas em grande medida por diretrizes teológicas cristãs, são postas sob análise nesse quadrinho, a partir da ótica do humor e da leveza. O modelo de boa conduta infantil é alvo de uma sutil ironia, pois se espera, segundo uma pedagogia quase sacralizada, que as crianças se comportem, obedeçam, não briguem, se alimentem, sigam as regras sociais, enfim. O guardião dessa moral e dos bons costumes é o próprio Satã, aquele que vê tudo, inclusive quando ‘Pepe não ri do amigo rechonchudo’.
Os tercetos rimados apresentam uma sucessão de momentos cotidianos em que o personagem-título interage com o mundo infantil. Se não há a tentativa de conscientizar as crianças e jovens (mesmo os adultos), é improvável que a leitura não provoque dúvidas e, talvez, um exercício de reavaliação em torno da simbologia aprendida sobre o Anjo Caído e os valores que supostamente ele representa. O roteiro de Sieber foca na humanização de Satã, convertido numa figura tão amável que pratica atividades cotidianas e banais, como jogar futebol ou presentear uma criança com brinquedos. Essa face humana casa perfeitamente com sua função protetiva, nos instigando a considerar que talvez os limites entre vilania e bondade não sejam tão intransponíveis assim. Já os traços de Sica são simples e inventivos, desenhando os personagens em cenários cotidianos, mas transitando entre uma natureza bucólica e divina, com uma espécie de chão que emana inúmeras labaredas, a nos lembrar que Satã está por ali. Não há, inclusive, nenhum tipo de expressão no rosto do personagem-título. Ele está mais para uma figura caricata que exala gentileza e amor paternal, cujo efeito desarma quem lê a obra esperando aquela estética grotesca que tradicionalmente simboliza o Satanás.

Reimaginar Satã como um símbolo da simpatia e proteção infantil poderia soar apenas como um panfleto provocativo, mas as escolhas estéticas e a construção narrativa são utilizadas como ferramentas críticas que nos convidam a questionar as convenções sobre altruísmo e malvadeza. Machado de Assis já havia mobilizado sua imaginação para reinventar a figura demoníaca: em 1883 publicou o conto chamado ‘A igreja do Diabo’. Nele, ficamos sabendo que o Diabo quis fundar a sua própria igreja, garantindo a legitimidade de todo e qualquer vício e nomeando as virtudes como qualidades hipócritas. Entretanto, apesar do sucesso inicial, a empreitada diabólica fracassou. Os seres humanos são incapazes, reconheceu o Diabo, de fidelidade absoluta, seja ao bem ou ao mal. O ceticismo de Machado dá o tom do que ele considera a condição humana, seu caráter ambíguo, incapaz de encontrar outro caminho. Disputar as almas com Deus é a grande motivação do Diabo.
Em “Satã amigo das crianças boas”, seu personagem central se envolve em situações cotidianas, imerso em atividades lúdicas, longe das discussões metafísicas do conto machadiano. Os episódios da vida comum nos convidam a questionar os discursos disciplinadores e a pedagogia que aprisiona corpos infantis em modelos comportamentais. A reapropriação de Satã é bem-humorada, sagaz e encoraja uma postura crítica diante das concepções sobre o que simboliza o bem e o mal. Ressignificar os sentidos da existência humana é uma tarefa complexa e, por vezes, dolorosa, de autocrítica, um autêntico ‘conhece-te a ti mesmo’. Esta obra gráfica consegue extrair esse horizonte crítico de quem a lê. Impressiona. Assusta. Que História em Quadrinhos diabolicamente provocativa!
REFERÊNCIAS:
ASSIS, Machado de. A igreja do diabo. In: ______. Histórias sem data. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977.
BRITO, Adriane et al. A lei da bala, do boi e da Bíblia: cultura democrática em crise na disputa por direitos. São Paulo: Tinta-da-China Brasil, 2024.
GALVÃO, Camila. 9 representações do Diabo ao longo dos séculos. Mega Curioso, 8 jul. 2016. Disponível em: https://www.megacurioso.com.br/religiao/99524-9-representacoes-do-diabo-ao-longo-dos-seculos.htm
LACERDA, Marina Basso. Exu, Grande Rio e o paradoxo da encruzilhada. Le Monde Diplomatique Brasil, 27 abr. 2022. Disponível em: https://diplomatique.org.br/exu-grande-rio-e-o-paradoxo-da-encruzilhada/
MAGALHÃES, A. et al. (Orgs.). O demoníaco na literatura. Campina Grande: EDUEPB, 2012.
NAVEGA, Télio. Antologias reúnem o melhor das tiras de Rafael Sica e André Dahmer. O Globo. Rio de Janeiro, 2023. Disponível em: https://oglobo.globo.com/cultura/livros/noticia/2023/11/09/antologias-reunem-o-melhor-das-tiras-de-rafael-sica-e-andre-dahmer.ghtml
SIEBER, Allan; SICA, Rafael. Satã amigo das crianças boas. São Paulo: Veneta, 2023.
SOUZA, Laura de Mello e. O diabo e a Terra de Santa Cruz: feitiçaria e religiosidade popular no Brasil colonial. São Paulo: Companhia das Letras, 1986.











