O longa-metragem “A natureza das coisas invisíveis” (2025), dirigido por Rafaela Camelo, é uma coprodução entre Brasil e Chile aclamada em diversos festivais, como a 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, a 33ª edição do Festival Mix Brasil e o 53º Festival de Cinema em Gramado. A trama conta a história de Glória, de 10 anos, que está passando as férias no hospital onde sua mãe trabalha como enfermeira. Lá, ela conhece Sofia, uma menina que está convencida de que a piora na saúde da bisavó é causada pela internação no hospital. Unidas pelo desejo de sair dali, as crianças encontram conforto na companhia uma da outra. Quando a partida se torna inevitável, as meninas e suas mães seguem para um refúgio no interior do Goiás para passar os últimos dias de um verão inesquecível.

O filme, porém, vai além desta breve sinopse, com uma narrativa multifacetada que atravessa questões como a identidade de gênero, a amizade e o elo construído entre as duas meninas, a matriarcalidade e o cuidado feminino, a morte e o luto sob o olhar infantil e o misticismo e a sua relação com a fé espiritual. Esses e outros tópicos se interligam e configuram a autenticidade do filme. Com uma premissa simples, a obra discorre sobre o cotidiano e as suas miudezas, mas em um tom que aprofunda os temas e nos sensibiliza com questões existenciais da vida. Uma delas é a morte e o entendimento das meninas, que começam a ter os seus primeiros contatos com a finitude da vida e o luto, aquilo que fica após as perdas. Os eufemismos e as ‘mentirinhas’ contadas para as crianças (“cachorro que foi para a chácara”) caem por terra e elas encaram a realidade, em um ambiente onde estão cercadas de gente enferma e com objetos pessoais de quem já partiu, como a medalha de honra de um senhor, amigo de Glória. Porém, a moral e o desdobramento da obra focam em uma naturalização da morte, tornada uma protagonista do filme, já que se faz presente a todo momento. O longa vai tratar de mortes físicas e simbólicas. Despedida e luto são essenciais para a concretização de um ciclo. A religião católica se faz bastante presente neste encerramento, com suas rezas e seus rituais.

Ambientada na Região Centro-Oeste do Brasil, com enfoque no interior de Goiás, a relação entre a fé e suas práticas ritualísticas revela parte da identidade da população residente no estado, pois 51,9% se declaram católicas, segundo o censo de 2022 do IBGE. No interior essa estatística se torna mais acentuada e a mistura entre o mundo material e o metafísico demonstra essa ligação. Em uma cena do filme, Francisca e Simone, bisavó e mãe de Sofia, dialogam e a neta ouve palavras de consolo:
A morte não é essas coisas ruim que o povo diz não. Bem, também não é coisa boa né?! Mas é coisa da vida, acontece, é assim mesmo. O importante é o amor que a gente sente de você ter sido boa pra ela.
Nessa frase, Francisca, que está se manifestando como um espírito, expõe uma mensagem fílmica central acerca da finitude da vida e da naturalização de algo inerente à condição de todo e qualquer ser vivo. Ademais, a personagem reforça o que mais deve importar: a demonstração dos afetos e carinhos pelas pessoas enquanto elas ainda estão vivas. A morte ocupa lugar na história, mas o amor também se faz presente no meio dessa rede de apoio, na qual todas essas meninas e mulheres estão vinculadas. Há também uma morte simbólica e biográfica: o luto identitário pelo qual Sofia passa. Designada ao nascer como um menino (Bento), Sofia, ao tomar consciência de sua verdadeira identidade, escolhe o próprio nome. Outrora o que foi imposto morre para dar espaço a quem realmente se é.
Michel Foucault, filósofo e historiador francês, dedicou-se a analisar o discurso e o poder. A linguagem não é apenas um reflexo de quem detém o poder, mas o próprio instrumento pelo qual se luta. O discurso é o lugar onde o poder e o saber se cruzam. Ele não é apenas um conjunto de palavras, mas um sistema que regula o que pode ser dito, quem tem autoridade para falar e o que deve ser silenciado. Dessa forma, é possível compreender que o ato de nomear e categorizar surge como um dos aspectos mais sofisticados do poder, pois quem nomeia define e delimita a realidade. Nesse sentido, compreende-se o nome social e o poder de se nomear como um verdadeiro acontecimento, justamente por romper com a lógica já instituída pelo registro civil. Negar ou silenciar essa transição impede que o sujeito reivindique sua identidade e ocupe plenamente os espaços públicos.
Junho é o mês do Orgulho e haver um filme que aborda a identidade de gênero LGBTQIA+ torna-se crucial, especialmente ao trazer pessoas trans na qualidade de protagonistas dessa produção cinematográfica. A obra mostra a naturalidade da existência trans e evidencia esta questão no âmbito das crianças. Afinal, o gênero, enquanto expressão da identidade, é fruto de uma construção social. No entanto, vigora socialmente um paralelismo supostamente natural entre gênero e sexo que exclui e violenta a existência da pessoa trans. Dar visibilidade a essas vivências é reconhecer que a humanidade é diversa, plural e potente, afirmando que não existe democracia sem inclusão.
Algo marcante que vai nos acompanhar durante o longa é a construção da amizade entre Glória e Sofia, que em um ambiente hospitalar doloroso, um lugar de passagem entre a vida e a morte, nasce um companheirismo entre as duas. Entre risadas, brincadeiras, conversas e confissões sinceras vão se estreitando os laços e um novo mundo, só delas, é forjado. Na segunda metade do filme, vamos acompanhar a ida da bisavó para um sítio no interior. Sofia acreditava que ela pudesse melhorar nessa nova localidade, sobretudo porque poderia passar os últimos dias em um lugar de conforto, algo que pudesse ser qualificado de lar. Podemos enxergar essa troca de ambiente, a saída do centro urbano para o interior rural, com o lema arcadista Fugere Urbem (do latim), Fuga da Cidade, amplamente relacionado a esse desejo de abandonar o caos e a agitação das cidades em busca de paz e simplicidade na vida campestre.
A matriarcalidade se faz presente tanto na direção do filme, assinada por uma mulher, quanto no elenco majoritariamente feminino. A obra envolve questões profundas sobre o cuidado, abordando desde o papel social historicamente atribuído à mulher até o zelo construído na rede de apoio entre as personagens. A maternidade solo é representada por Antônia (mãe de Sofia) e Simone (mãe de Glória), ambas enfrentando a jornada dupla de trabalhar e criar as filhas, mas que ao longo do enredo se unem e se apoiam. O filme retrata essa configuração familiar tida como não convencional, mas que reflete a realidade de muitos lares, e explora a relação entre mães e filhas, por vezes estremecida, mas profundamente importante. Nessas conexões maternas, até mesmo o detalhe sutil das mechas de cabelo verde-água, compartilhadas entre as várias gerações de mulheres da família, revela o afeto e o forte vínculo dessa linhagem.
Trata-se de um filme sinestésico, no qual as camadas visuais, sonoras e dramatúrgicas aprofundam e aguçam as emoções transmitidas, tendo o propósito de nos sensibilizar e comover mais do que de ser simplesmente compreendido. A coloração vibrante, os elementos naturais, como a cena das árvores que servem de respiro, e a beleza dos planos abertos traduzem o olhar das crianças, mostrando como elas enxergam o mundo com simplicidade e leveza.
REFERÊNCIAS:
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GIBELLINI, Maria Martha de Paula Machado. A escolha do nome social: um passo para exercer a cidadania. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Psicologia) – Faculdade de Ciências Humanas e da Saúde, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2019. Disponível em: https://repositorio.pucsp.br/jspui/handle/handle/28649.
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SALGADO, Lucas. Filme sobre luto e transição de gênero na infância cativa Gramado: “Importante mostrar que pessoas trans não nascem com 18 anos”. O Globo, 20 ago. 2025. Disponível em: https://oglobo.globo.com/google/amp/cultura/noticia/2025/08/20/filme-sobre-luto-e-transicao-de-genero-na-infancia-cativa-gramado-importante-mostrar-que-pessoas-trans-nao-nascem-com-18-anos.ghtml. Acesso em: 15 jun. 2026.
VOLTAS, Tainá. Poder em Foucault: o que é, saber-poder, microfísica e biopoder. Casa do Saber, [2025]. Disponível em: https://www.casadosaber.com.br/blog/poder-em-foucault-o-que-e-saber-poder-microfisica-e-biopoder. Acesso em: 15 jun. 2026.
Cite e compartilhe:
COSTA, Nathália. A natureza das coisas invisíveis: quando a morte não delimita o fim, mas um novo começo. Revista LEPHIS, vol. 2, n. 4. Disponível em: https://lephis.com.br/historia-nas-telas-vol-4/. Publicado em: 30 jun. 2026. ISSN: 3086-3597

Nathália Costa
Estudante e bolsista do projeto de extensão Cineclube Sal na Vista – IFRJ-CAC.


