O ensino de Sociologia e a cultura

Ricardo César Costa (docente, Sociologia – IFRJ-CAC)
A definição de “cultura” é historicamente complexa e controversa, em função da multiplicidade de significados que esse termo adquiriu desde o seu surgimento, que remonta ao século XV como derivado de “agricultura”, relacionado aos cuidados com a lavoura. O conceito moderno e europeu de cultura, com o reconhecimento das variadas “culturas” com as quais o continente teve contato desde o século XV, é fruto principalmente do século XIX e da afirmação do método científico sobre outras formas de compreensão e interpretação do mundo. Nesse sentido, cultura passa a se referir “[…] a todos os elementos do modo de vida de uma sociedade que podem ser aprendidos, como idioma, valores, regras sociais, crenças, hábitos e leis” (Giddens; Sutton, 2016, p. 213). Durante o século XX, os bens materiais das diferentes sociedades, pelo seu valor histórico, passaram também a ser considerados como “patrimônios culturais da Humanidade”, definindo a chamada “cultura material”.
A Antropologia é a ciência social que surge no século XIX voltada ao estudo das diversas culturas do planeta. É considerado como marco inicial a publicação, em 1871, da obra Cultura primitiva, do inglês Edward Burnett Tylor (1832-1917), que apresenta a concepção de cultura como um “todo complexo que inclui conhecimentos, crenças, artes, moral, leis, costumes e quaisquer outras capacidades e hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade” (apud Laraia, 2006, p.25) – portanto, praticamente a mesma definição apresentada por Giddens e Sutton, com a diferença de que a perspectiva teórica evolucionista de Tylor apontava o “primitivo” como sendo “o ancestral do civilizado” europeu, a sua própria “origem”, cujo conhecimento se torna fundamental para o colonialismo. Duas décadas depois, o antropólogo de origem alemã naturalizado norte-americano Franz Boas (1858-1942) formula a crítica radical ao evolucionismo, demonstrando que as culturas somente podem ser entendidas em seu contexto particular, com as diferenças culturais derivadas da trajetória histórica e autônoma de cada sociedade.
A crítica de Boas é fundadora do culturalismo, responsável pela noção de relativismo cultural: “[…] se cada cultura é o que é, por sua própria essência e dinâmica, ela não pode ser entendida em relação a outra cultura – que, por sua vez, é distinta e única” (Gomes, 2014, p. 65). A Antropologia britânica, através de etnógrafos como Malinowski (1884-1942) e Radcliffe-Brown (1881-1955), propõe uma abordagem funcionalista da cultura. Suas pesquisas de campo apresentam cada elemento cultural (como leis e crenças religiosas) tendo como função central a garantia do equilíbrio, da reprodução e da coesão da sociedade. Uma abordagem distinta é realizada pelo franco-belga Claude Lévi-Strauss (1908-2009), fundador da Antropologia Estrutural. Esta entende que as distintas culturas são estruturas que obedecem a regras comuns e universais, sendo modelos inconscientes construídos em todas as sociedades conhecidas e que dão sentido e organizam a vida social. O exemplo clássico desses estudos são as relações de parentesco, com suas regras de interdições sexuais. Por fim, o antropólogo estadunidense Clifford Geertz (1926-2006), em A interpretação das culturas, de 1973, entende a cultura como “[…] um padrão de significados transmitido historicamente, […] um sistema de concepções herdadas expressas em for- mas simbólicas por meio das quais os homens comunicam, perpetuam e desenvolvem seu conhecimento e suas atividades em relação à vida” (Geertz, 1989, p. 66). Assim, para Geertz, cabia aos antropólogos a tarefa de interpretar os símbolos que serviam como referências das culturas – daí a denominação Antropologia Interpretativa ou Simbólica.
Além do debate presente na Antropologia, no ensino da Sociologia há de se destacar também os estudos da Escola de Frankfurt – Theodor Ludwig Wiesengrund Adorno (1903-1969) e outros –, que apresentam o conceito de cultura sob outra perspectiva. Sinteticamente, podemos dizer que esses autores definem a cultura de massa como a base para a construção de um consenso social que objetiva homogeneizar e massificar as aspirações e os desejos humanos, transformados em mercadoria. Assim, essa cultura padronizada trata os indivíduos como passivos e acríticos, absorvidos pela indústria cultural. Um debate relacionado se refere à ideia de cibercultura, segundo Pierre Lévy (1956-).
Os livros didáticos de Sociologia, aprovados nas três versões do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), abordam a temática da cultura com sistematizações distintas. Algumas obras apresentam o debate da Antropologia sobre as diferentes concepções de cultura, do século XIX à atualidade, destacando as diversas correntes e escolas. Outras dão maior ênfase às discussões da Escola de Frankfurt. Há também a preocupação em se debater o conceito em contraposição à visão do senso comum, que associa cultura à ideia de escolarização e erudição. Uma das obras discorre sobre a relação entre “cultura e civilização”, discutindo o processo civilizador da cultura – uma referência aos estudos do sociólogo alemão Norbert Elias (1897-1990). Outras discutem sobre “cultura e ideologia”, entendendo esta última como um “conjunto de visões de mundo”, de acordo com a concepção de Antonio Gramsci (1891-1937).
Um conceito que tem um caráter de interseção nos livros didáticos é o de etnocentrismo, que significa considerar apenas os valores da própria cultura ao analisar todas as demais. O termo – cunhado em 1906 pelo sociólogo norte-americano William G. Summer (1840-1910) –, etimologicamente derivado do grego “ethnos”, se referindo à etnia, raça, clã, é a base explicativa que sustentou não somente a experiência de estranhamento do “outro”, distinto sob o ponto de vista cultural, mas que representou fenômenos de violência contra o que era visto não somente como dife- rente, mas também “ameaçador” e “selvagem”, resultando no genocídio – inclusive, epistemológico – de diversos povos considerados como “inferiores”.
Desde o final do século XX cresce no Ocidente o reconhecimento de que as sociedades são multiculturais, com a coexistência de culturas numa mesma sociedade. O multiculturalismo crítico se afirmou como um movimento importante na educação (Canen; Oliveira, 2002). Sua concepção mais ampliada, entretanto, nem sempre representa “aceitação” e “tolerância”, mas sim violência, com atitudes de xenofobia e racismo. O antropólogo Adam Kuper (1941-) havia se debruçado sobre essa ques- tão numa crítica ao relativismo cultural, alertando para uma antropologia na África do Sul que procurava justificar o apartheid, afirmando que “[…] a segregação era o curso adequado […], pois só assim as diferenças culturais seriam preservadas” (Kuper, 2002, p. 15).
Nesse debate tem destaque a ideia de interculturalidade. Catherine Walsh, norte-americana radicada no Equador, a define como “[…] um processo dinâmico e permanente de relação, comunicação e aprendizagem entre culturas em condições de respeito, legitimidade mútua, simetria e igualdade” (Walsh, 2001, p. 10). A relação intercultural reconhece o direito à diferença e a necessidade de se lutar contra as discriminações.
A temática “cultura” tem sido abordada de forma bastante fragmentada entre pesquisadores acadêmicos vinculados ao subcampo ensino de Sociologia. A interculturalidade, por exemplo, foi abordada por Fagner Neves em sua dissertação de mestrado em Educação defendida na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, em 2014, sob a orientação da professora Vera Candau, intitulada Conhecimento, escola e cultura/s: ensino de Sociologia e educação intercultural (Neves, 2014). Recorte distinto – a definição de cultura popular – foi realizado por Anderson Duarte em sua obra A abordagem da cultura popular no ensino de Sociologia: a prática docente como estímulo à intervenção social ou à reflexão crítica do aluno na escola média, trabalho defendido em 2016 no Mestrado Profissional em Ciências Sociais para o Ensino Médio na Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), em Recife/PE, sob orientação da professora Patrícia Melo. Em seu sentido mais amplo, no entanto, a apropriação do conceito antropológico de cultura pelo ensino de Sociologia na educação básica foi tema da tese de doutorado Entre o ‘chão da escola’ e a universidade: a antropologia nos manuais didáticos de Sociologia, defendida em 2019 por Barbara Fontes na Universidade Federal do Rio de Janeiro. O trabalho de Fontes (2019), orientado pela professora Maria Laura V. de C. Cavalcanti, ao se debruçar sobre os cinco livros didáticos aprovados no PNLD 2018, analisou comparativamente como essas obras apresentaram a transposição didática do conhecimento antropológico para a educação básica, destacando, consequentemente, as definições de cultura.
O conceito de cultura tem uma amplitude quase imensurável, como procuramos apresentar. De qualquer forma, indicamos quatro itens enquanto agenda de pesquisa e desdobramentos sobre o tema: primeiro, en- tendemos como necessário o estudo do que se entende como cultura popular, objeto de uma das obras citadas neste verbete. Outra questão a ser discutida se refere à chamada “identidade cultural”, apresentada por vezes como um elemento de diferenciação entre as culturas. Sugerimos também a investigação do que alguns autores intitulam como “cultura da juventude”. Esta foi definida pelo sociólogo norte-americano Talcott Parsons (1902-1979) como resultado do processo de modernização e urbanização das sociedades ocidentais ao longo do século XX, com a ampliação do acesso à educação pública e a segregação e a estratificação com base na idade. Assim, pode-se discorrer sobre atitudes, comportamentos e valores identificados como característicos de uma cultura jovem em contraposição a uma cultura dominante “adulta”. No final da década de 1960 esse com- portamento da juventude recebeu nos EUA e na Inglaterra a denominação de “contracultura” – nossa quarta indicação –, exatamente por se caracterizar como uma ação questionadora do status quo da sociedade de consumo.
REFERÊNCIAS:
CANEN, Ana; OLIVEIRA, Angela M. A. Multiculturalismo e currículo em ação: um estudo de caso. Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, nº 21, p. 61-74, 2002.
FONTES, Barbara de Souza. O mundo do trabalho e os dilemas da modernização: percursos cruzados da Sociologia francesa e brasileira (1950-1960). 2018. 421 f. Tese (Doutorado em Sociologia) – Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2018.
GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: LTC, 1989.
GIDDENS, Anthony; SUTTON, Philip W. Conceitos essenciais da Sociologia. São Paulo: UNESP, 2016.
GOMES, Mércio P. Antropologia: ciência do homem, filosofia da cultura. São Paulo: Contexto, 2014.
KUPER, Adam. Cultura: a visão dos antropólogos. Bauru/SP: EDUSC, 2002.
LARAIA, Roque de Barros. Viver e interpretar o mundo social: para que serve o ensino de Sociologia? Revista de Ciências Sociais, Fortaleza, v. 45, n. 1, p. 45-61, jan./jun. 2014.
NEVES, Fagner H. G. Conhecimento, escola, cultura/s: ensino de Sociologia e educação intercultural. Rio de Janeiro, 2014. 144f. Dissertação (Mestrado em Educação) – Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2014.
WALSH, Catherine. La educación intercultural en la Educación. Lima/Peru: Ministerio de Educación, 2001.


