Documentos Históricos, vol. 2


1: Três parceiros de dança. A participação da Coca-Cola é sempre de bom gosto. Sua saudável refrescância a tornou uma parceira bem-vinda por três gerações. Precisa ser muito bom para chegar neste patamar: 7 milhões por dia. Cartaz de propaganda, 1926.

2: Para manter uma silhueta esbelta. Ninguém pode negar… Pegue um Lucky ao invés de um doce. É torrado. Não irrita a garganta. Não provoca tosse. Cartaz de propaganda, 1929.

3: “Todo mundo tem um carro, menos nós”. Ao longo da década de 1920, novas empresas de crédito ofereceram aos consumidores a oportunidade de pagar por produtos em parcelas: os compradores recebiam um empréstimo para fazer uma compra ou investimento e o pagavam a uma taxa de juros fixa ao longo do tempo. A frase “Compre agora, pague depois” tornou-se popular em anúncios e incentivou a população a comprar novos bens de consumo que antes não podiam pagar. Anúncio dos anos 1920.

4: Negócios americanos. Pesquisa Nacional. Dr. Coolidge. “Saudável como um dólar”. Calvin Coolidge foi o 30º presidente dos EUA (1923-1929).Pesquisas regulares sobre a “saúde” das empresas foram realizadas pelo Departamento de Comércio dos Estados Unidos, sob a liderança do secretário de comércio de Coolidge, Herbert Hoover – que se tornaria o 31º presidente do país. Ambos pertenciam ao Partido Republicano.


DOCUMENTO 5 – Apesar da euforia econômica e consumista que alcançava certas parcelas da população estadunidense, havia dados informando que os salários em dinheiro, ao contrário do mito de prosperidade, não estavam subindo. Na verdade, estagnaram nos últimos anos após a Grande Guerra atingindo severamente grupos historicamente marginalizados: pequenos agricultores, classe trabalhadora e afro-estadunidenses. W. E. B. Du Bois, sociólogo e historiador, já alertava em 1926: “Temos hoje nos Estados Unidos, lado a lado, Prosperidade e Depressão”. A charge abaixo foi publicada no The Pittsburgh Courier, periódico semanal afro-estadunidense.

“É difícil enganar quem está nos bastidores”. Na parte da frente: Todoot [apito da fábrica]. Prosperidade. Trabalhador. Refeição completa. Na parte de trás: Fábricas. Em tempo parcial. Famílias necessitadas. Marmita vazia. Em primeiro plano: Tio Sam (com o ponto de interrogação). Cal (presidente Calvin Coolidge). A mídia estadunidense: “Maravilhoso, hein?”.


DOCUMENTOS 6, 7 e 8 – No campo das transformações sociais é necessário destacar a figura feminina. Em 1919 foi aprovada a 19ª Emenda Constitucional garantindo a igualdade política e o direito ao voto feminino. Elevou-se o número de mulheres que passaram a ocupar cargos públicos em diversos órgãos governamentais, por exemplo. Alguns dos impactos provocados por essas mudanças são indicados nos fragmentos abaixo.

6: “O caráter das mulheres americanas sob o impacto das condições modernas parece, aos olhos do observador, ter ganhado em força, honestidade, iniciativa, camaradagem e autoconfiança, mas talvez tenha perdido um pouco em paciência, doçura e nos traços ‘femininos’ mais superficiais. Não há evidências que indiquem que sua qualidade moral tenha se deteriorado” [Beatrice Forbes-Robertson Hale, “The Women’s Revolution,” Current History, October 1923].

7: “À medida que as barreiras iam sendo derrubadas, em toda parte, as mulheres começavam a fumar cigarros e, o que parecia ainda pior que tudo para os tradicionalistas, exigiram e afirmavam o direito de beber com os homens. Como era cada vez maior o número de mulheres empregadas, decidiram repudiar históricos símbolos de feminilidade e, ironicamente, tratavam de se aproximar da imagem masculina. A primeira vítima da independência feminina foi o tradicional traje que cobria o pescoço, os braços e ocultava os tornozelos, zelosamente, dos olhos masculinos. A saia média estava a cerca de 15 centímetros do solo, em 1919. Desse ano em diante, a ascensão foi espetacular, até que a saia alcançou o nível dos joelhos, ou ainda mais acima, por volta de 1927. Ao mesmo tempo, as mulheres repudiaram os espartilhos e procuraram, por todos os meios, apagar os contornos da parte superior das respectivas anatomias, usualmente com resultados aterradores. Finalmente, para completar a desfeminização, as mulheres cortaram as tranças e passaram a usar o cabelo curto e liso. Mas havia uma exceção curiosa nessa tendência. Quanto mais curtos eram os cabelos e as saias, tanto maiores doses de cosméticos passaram a ser usados – batom, rouge etc… – como se o rosto se tivesse convertido no último refúgio da feminilidade” [LINK, Arthur S. História Moderna dos Estados Unidos, v. 2. Rio de Janeiro: Zahar, 1965, p. 454-455].

8: “Mulheres que ocupam empregos masculinos”, Popular Science Monthly, março/1926.


DOCUMENTOS 9 e 10 – A ideia de que o crescimento do país não teria fim se ancorava na perspectiva de um consumismo infinito. Há uma produção massiva de diferentes produtos nos EUA, ainda que não houvesse possibilidade de escoamento dessa avalanche industrial. A variação dos salários pouco acompanhava o desenvolvimento econômico acelerado e dificultava a aquisição desses produtos pelo mercado interno do país. O clima de euforia impactava no mercado de ações, com empréstimos visando investimentos na bolsa, havendo, também, facilidades para a aquisição de volumes cada vez maiores de créditos. As áreas rurais enfrentavam dificuldades e praticamente já estavam em situação crítica antes mesmo dos acontecimentos de 1929. Pequenos bancos, ligados ao crédito rural, iam à falência às centenas durante a década de 1920. Ou seja, havia sinais no horizonte de que o ‘progresso’ sonhado pelos ideais do american way of life não teria uma vida tão longa assim. Edmund Gale publicou duas charges satirizando a perspectiva otimista dominante que levou um historiador, Thomas Jefferson Wertenbaker, da Universidade de Princeton, a sentenciar, em 1928: “Em suma, o resultado foi que hoje neste país os seres humanos alcançaram um estado mais elevado de bem-estar material do que em qualquer outra era da história mundial ou em qualquer outra nação do mundo”.

9: O mais alto padrão de vida da história do mundo. O Pico da Prosperidade. Roma Antiga: “cuidado onde pisa!”.

10: Prosperidade nacional: “Ei! Esperem pelo resto de nós!”. Boom das ações na bolsa de Wall Street. “À frente da multidão!”.


DOCUMENTO 11 – Em fins de 1929 a euforia estadunidense recebeu um duro golpe com a quebra da Bolsa de Valores de Nova Iorque em outubro. Entretanto, a percepção de que o fundo do poço ainda não havia sido atingido veio nos meses seguintes quando a economia do país não conseguia se recuperar e o número de falências e desempregados cresciam exponencialmente. A miséria se instalou, generalizadamente, nos diversos espaços sociais dos EUA. As manchetes abaixo revelam a trajetória rumo ao precipício.

15 meses antes do crash: “A maquinaria através da qual a acirrada especulação em ações está operando começou a ranger e gemer à medida que pressões, que nunca foram projetadas para suportar, são exercidas sobre ela. O combustível do desejo de ganhar dinheiro vendendo algo por um preço mais alto do que o pago por ele ainda está sendo derramado no mercado, e esse desejo, como diz o coronel Ayres [economista], de Cleveland, não pode ser eliminado; ele deve cometer suicídio. Portanto, o observador das questões financeiras, à medida que maio [de 1928] termina, deve compartilhar alguns dos sentimentos de quem observa à distância. Ele está observando um movimento popular que leva a uma quebra do mercado de ações, cujos efeitos somente os mais acrobáticos, os mais favorecidos e aqueles que menos participaram em proporção aos seus recursos podem esperar escapar” [Alan H. Temple (economista), “Suicídio iminente”, The North American Review, julho de 1928].

10 meses antes do crash: “Milionários foram criados muitas vezes com o aumento sem precedentes de certas ações individuais. De uma lista de vinte ações bem conhecidas que aumentaram de 600 a 6.000 por cento durante os últimos dez anos, doze nomes famosos aparecem acima da marca de 1.000 por cento, com uma ação automotiva excepcional liderando a lista com um aumento de 6.493 por cento. Não é de se admirar que nosso país tenha enlouquecido com o mercado de ações” [H. W. Moorhouse (economista), “O que está acontecendo em Wall Street?”, The North American Review, dezembro de 1928].

55 dias antes do crash: “Repito o que disse nesta mesma época no ano passado e no ano anterior: mais cedo ou mais tarde, ocorrerá uma queda que afetará as principais ações e causará um declínio de 60 a 80 pontos no Índice Dow Jones. O tempo bom não pode durar para sempre. O ciclo econômico está em andamento hoje, assim como estava no passado. O Sistema da Reserva Federal colocou os bancos em uma posição forte, mas não mudou a natureza humana. Hoje, mais pessoas estão tomando empréstimos e especulando do que nunca em nossa história. Mais cedo ou mais tarde, ocorrerá uma queda, e ela poderá ser terrível. Sábios são os investidores que agora estão saindo das dívidas e recolhendo suas velas. Isso não significa vender tudo o que você tem, mas sim pagar seus empréstimos e evitar a especulação com margem. Um dia chegará o momento em que o mercado começará a cair, os vendedores excederão os compradores e os lucros contábeis começarão a desaparecer. Então, haverá imediatamente uma corrida para salvar os lucros contábeis que ainda existirem” [Roger Babson, (empresário e analista de investimentos), Discurso na Conferência Nacional de Negócios, 5 de setembro de 1929, (trechos conforme publicados no The New York Times, 6 de setembro de 1929)].

7 dias antes do crash: “Em meio a cenas de grande confusão e preços drasticamente mais baixos, o mercado de ações continuou ontem a pagar o preço por sua longa dança de preços inflacionados e em alta. As negociações estavam tão confusas, o mercado era tão grande e amplo, e a fita [de cotações] tão atrasada, que a maioria dos corretores de ações não tinha ideia de onde estavam em um determinado momento. De qualquer forma, nas ações que refletiam vulnerabilidade, as perdas no valor de mercado aberto chegaram a centenas de milhões de dólares” [“Ações caem novamente, mas se recuperam no fechamento com forte apoio”, The New York Times, 22 de outubro de 1929].

5 dias antes do crash: “Assustados com a queda nos preços das ações durante o último mês e meio, milhares de acionistas se desfizeram de suas ações no mercado ontem à tarde, em uma avalanche de vendas que provocou uma das maiores quedas da história. Mesmo as melhores ações, com dividendos garantidos, foram vendidas independentemente dos preços que alcançariam, e o resultado foi uma queda tremenda, na qual as ações perderam de alguns pontos até 96 pontos” [“Preços das ações caem em forte liquidação; queda total de bilhões”, The New York Times, 24 de outubro de 1929].

1 dia após o crash: “É evidente que o mercado está passando pelo maior desastre de sua história. Nenhuma palavra gentil pode encobrir esse fato” [“O Mercado de Ações”, New York Evening Post, October 30, 1929].

15 dias após o crash: “O pior pânico da história de Wall Street, pelo menos em tempos de paz — recorde em magnitude e em perdas generalizadas —, foi, no entanto, um tipo de pânico totalmente novo. Os historiadores do futuro, prevê-se livremente, falarão dele como ‘o pânico da prosperidade de 1929’. ‘Os pânicos do passado foram causados por algo fundamentalmente errado com as finanças ou os negócios, quebras de safra, terremotos, relações internacionais tensas, taxas proibitivas para o dinheiro, estoques inflacionados e coisas do gênero’, observa o Wall Street Journal. Mas esta catástrofe de outubro em Wall Street foi puramente um pânico especulativo do mercado de ações, todas as autoridades concordam. Os movimentos de queda em outros mercados foram repercussões da queda nos valores das ações em Nova York. Um escritor o chama francamente de ‘pânico dos apostadores, e não dos investidores’. Como observa Laurence Stern no New York World, ‘no declínio total desde 3 de setembro, a queda nos valores das ações é estimada conservadoramente em US$ 50 bilhões, a deflação [queda no valor] mais drástica dos títulos na história do mundo’. A orgia final de vendas foi ‘um pesadelo financeiro, incomparável a nada jamais experimentado em Wall Street’, continua o escritor, ‘abalou o distrito financeiro em seus alicerces, sobrecarregou irremediavelmente suas instalações mecânicas e gelou o sangue com terror’. O clamor por dinheiro de Wall Street abalou a cidade, com jornais relatando que casas de penhores recusavam centenas de pessoas ansiosas por levantar quase qualquer quantia com joias e prata. Um restaurante da moda, em um anúncio de jornal, pediu a seus clientes que, por favor, não ‘discutissem Wall Street’ [“O mercado pode ser controlado?”, The New Republic, 13 de novembro de 1929].


DOCUMENTO 12 – Alvah Posen ou simplesmente Al Posen foi um cartunista estadunidense responsável pelas tirinhas “Them Days Is Gone Forever”, publicadas em jornais dos EUA entre 1921 e 1927. Estruturadas em quatro quadros, os três primeiros contavam com letras rimadas e o quarto apresentando a expressão que dava título àquela criação artística: “Them Days Is Gone Forever” (Esses dias se foram para sempre). Na parte superior das tirinhas havia uma linha musical na qual as “letras” da tira podiam ser cantadas. Com humor peculiar, Posen satirizava aspectos ligados ao cotidiano da população estadunidense, incluindo a mulher ‘recatada e ligada às tradições de antigamente’.

Você disse que me amaria e honraria — isso é muito gentil da sua parte. Mas a frase não foi concluída — que coisa engraçada! A palavra obedecer é sempre usada — e também é muito importante. Esses dias se foram para sempre!

Como está a distância, Jimmy? Nossa, quase bateu naquela parede! Não acho que isso foi tão maravilhoso assim, só observe onde isso cairá. Vocês acham que nós, mulheres, não podemos fazer nada! Esses dias se foram para sempre!


DOCUMENTO 13 – A Universidade de Yale, em parceria com a Biblioteca do Congresso Americano, liberou um acervo online com mais de 170 mil fotos produzidas no contexto da Grande Depressão de 1929. O site é o Photogrammar (https://photogrammar.org/maps) organizado por áreas temáticas, profissionais da fotografia, além das regiões afetadas nos EUA. Nesse acervo impressionante, uma fotografia chama a atenção: trata-se da imagem feita pela fotojornalista Dorothea Lange, enquanto cobria o movimento migratório de trabalhadores rurais para o leste do país. Ela integrou a Resettlement Administration (RA), agência criada pelo governo, em 1935, para reassentar famílias afetadas pela crise. Logo depois, o órgão foi incorporado à Farm Security Administration (FSA), que contratou diversos profissionais para registrarem as duras condições vivenciadas por parte da população estadunidense a fim de sensibilizar governo e contribuintes para direcionarem recursos que as amparassem. Numa habitação precária em Nipomo, California, Lange acionou sua câmera e produziu umas das imagens mais icônicas desse momento histórico. Apenas em 1975 a mulher fotografada, transformada na “Mãe Migrante”, Florence Owens Thompson foi identificada e deu seu testemunho daquele momento. Que tal pesquisar mais sobre este fato e ouvir as palavras de Lange e Thompson?


DOCUMENTO 14 – O Dust Bowl: por volta de 1934, as Grandes Planícies sofreram desastres simultâneos – invasões de lebres e gafanhotos, queda vertiginosa de produtos agrícolas e violentas tempestades de poeira. Uma conjunção catastrófica de ondas de seca e práticas agrícolas que provocaram a erosão do solo devastaram a região. Houve desespero nas áreas rurais e milhões migraram, sobretudo para a Califórnia – apelidados de ‘Okies’. Milhares morreram por conta da fome e/ou das condições severas de saúde, graças às crises respiratórias que dispararam neste contexto. Não havia empregos para todo mundo. As remunerações eram péssimas. Havia muita discriminação. Moradias precarizadas foram erguidas. A quadrinista holandesa Aimée de Jongh produziu uma História em Quadrinhos em torno desta temática. “Dias de Areia”, publicada em 2021, originalmente em francês, narra a história de um fotógrafo chamado John Clark, contratado pela Farm Security Administration (FSA) para registrar os efeitos do “dust bowl”, partindo de Nova York até Oklahoma.


DOCUMENTO 15 – Trecho de um texto em que o romancista e ensaísta francês André Maurois (1885-1967) disserta sobre a grande depressão nos EUA. “As ruínas são ainda visíveis e são terrificantes. Logo no porto de Nova York o viajante fica surpreendido, chocado pela calma trágica de um lugar antes o mais ativo do mundo. Há neste momento, nos Estados Unidos, cerca de 14 milhões de desempregados, e, como muitos deles têm família, 20 a 30 milhões de homens e mulheres vivem de esmolas. O espetáculo de uma grande nação da qual um quarto se encontra reduzido à mendicância produz emoções bem mais fortes do que uma estatística em branco-e-preto. Desde que chega nesse país, o estrangeiro logo se dá conta de que nunca a Europa imaginou a dolorosa intensidade da depressão dos Estados Unidos”. [MAUROIS, André. apud. FREITAS, G. 900 textos e documentos de História. Lisboa: Plátano, 1978, p. 311.


DOCUMENTO 16 – O historiador Eric Hobsbawm escreveu uma das obras historiográficas mais influentes sobre o século XX. Neste fragmento tente organizar uma resposta que permita compreender algumas consequências políticas que a crise mundial de 1929 provocou.

“A Grande Depressão confirmou a crença de intelectuais, ativistas e cidadãos comuns de que havia alguma coisa fundamentalmente errada no mundo em que viviam. Quem sabia o que se podia fazer a respeito? (…) Na verdade, à medida que continuava a Depressão, argumentava-se com considerável vigor, entre outros por J. M. Keynes — que em consequência disso se tornou o mais influente economista dos quarenta anos seguintes —, que tais governos estavam piorando a Depressão. (…) Não surpreende, portanto, que os efeitos da Grande Depressão tanto sobre a política quanto sobre o pensamento público tivessem sido dramáticos e imediatos. Infeliz o governo por acaso no poder durante o cataclismo, fosse ele de direita, como a presidência de Herbert Hoover nos EUA (1928-32), ou de esquerda, como os governos trabalhistas na Grã-Bretanha e Austrália. A mudança nem sempre foi tão imediata quanto na América Latina, onde doze países mudaram de governo ou regime em 1930-1, dez deles por golpe militar. Mesmo assim, em meados da década de 1930 havia poucos Estados cuja política não houvesse mudado substancialmente em relação ao que era antes do crash. Na Europa e Japão, deu-se uma impressionante virada para a direita, com exceção da Escandinávia, onde a Suécia entrou em seu governo social-democrata de meio século em 1932, e na Espanha, onde a monarquia Bourbon deu lugar a uma infeliz e, como se viu, breve República em 1931. Falaremos mais disso no próximo capítulo, embora se deva dizer logo que a quase simultânea vitória de regimes nacionalistas, belicosos e agressivos em duas grandes potências militares — Japão (1931) e Alemanha (1933) — constituiu a consequência política mais sinistra e de mais longo alcance da Grande Depressão. Os portões para a Segunda Guerra Mundial foram abertos em 1931. O fortalecimento da direita radical foi reforçado, pelo menos durante o pior período da Depressão, pelos espetaculares reveses da esquerda revolucionária. Assim, longe de iniciar outra rodada de revoluções sociais, como esperara a Internacional Comunista, a Depressão reduziu o movimento comunista fora da União Soviética a um estado de fraqueza sem precedentes. (…) Certamente em 1934, depois que Hitler já destruíra o PC alemão, outrora a esperança de Moscou para a revolução mundial e ainda a maior e aparentemente mais formidável e crescente secção da Internacional, (…), muito pouco parecia restar de um movimento revolucionário internacional organizado significativo, legal ou mesmo ilegal. Na Europa de 1934, só o Partido Comunista francês tinha ainda uma presença política verdadeira. Na Itália fascista, dez anos depois da Marcha sobre Roma e nas profundezas da Depressão internacional, Mussolini sentiu-se suficientemente confiante para libertar alguns dos comunistas presos em comemoração àquela data. Tudo isso iria mudar dentro de poucos anos. Mas permanece o fato de que o resultado imediato da Depressão, pelo menos na Europa, foi o exato oposto do que os revolucionários sociais tinham esperado. (…) Fora da Europa, no entanto, a situação era diferente. As regiões do Norte das Américas deslocavam-se acentuadamente para a esquerda, à medida que os EUA, sob seu novo presidente Franklin D. Roosevelt (1933-45), faziam experiências com um New Deal mais radical, e o México, sob o presidente Lázaro Cárdenas (1934-40), revivia o dinamismo original do início da Revolução Mexicana, sobretudo na questão da reforma agrária. Movimentos sociais/políticos bastante poderosos surgiram nas planícies assoladas pela crise do Canadá (…). Não é fácil caracterizar o impacto político da Depressão sobre o resto da América Latina, pois embora seus governos ou partidos governantes caíssem como pinos de boliche à medida que o colapso nos preços mundiais de seus produtos básicos de exportação quebrava suas finanças, não caíram na mesma direção. Mesmo assim, caíram mais para a esquerda do que para a direita, embora apenas brevemente. (…) No vasto setor colonial do mundo, a Depressão trouxe um acentuado aumento na atividade anti-imperialista, em parte por causa do colapso dos preços das mercadorias das quais dependiam as economias coloniais (ou pelo menos suas finanças públicas e classes médias), e em parte porque os próprios países metropolitanos apressaram-se em proteger sua agricultura e empregos, sem avaliar os efeitos dessas políticas sobre suas colônias. Estados europeus cujas decisões econômicas eram determinadas por fatores internos não podiam a longo prazo manter intatos impérios com uma infinita complexidade de interesses de produtores. Por este motivo, na maior parte do mundo colonial a Depressão assinalou o início efetivo do descontentamento político e social local, que só podia ser dirigido contra o governo (colonial), mesmo onde — como na Malásia — os movimentos políticos nacionalistas só fossem surgir após a Segunda Guerra Mundial. Tanto na África Ocidental (britânica) quanto no Caribe, a agitação social fazia agora sua entrada, em consequência direta da crise das exportações locais (cacau e açúcar). E mesmo em países com movimentos nacionais anticoloniais já desenvolvidos, os anos de depressão trouxeram uma escalada do conflito, sobretudo onde a agitação atingira as massas. (…) Provavelmente nada demonstra mais a globalidade da Grande Depressão e a severidade de seu impacto do que essa rápida visão panorâmica dos levantes políticos praticamente universais que ela produziu num período medido em meses ou num único ano, do Japão à Irlanda, da Suécia à Nova Zelândia, da Argentina ao Egito. Contudo, não se deve julgar seu impacto apenas, ou mesmo principalmente, por seus efeitos políticos de curto prazo, por mais impressionantes que muitas vezes tenham sido. Trata-se de uma catástrofe que destruiu toda a esperança de restaurar a economia, e a sociedade, do longo século XIX. O período de 1929-33 foi um abismo a partir do qual o retorno a 1913 tornou-se não apenas impossível, como impensável. O velho liberalismo estava morto, ou parecia condenado. Três opções competiam agora pela hegemonia intelectual-política. O comunismo marxista era uma. (…) Um capitalismo privado de sua crença na otimização de livres mercados, e reformado por uma espécie de casamento não oficial ou ligação permanente com a moderada social-democracia de movimentos trabalhistas não comunistas, era a segunda, e, após a Segunda Guerra Mundial, mostrou-se a opção mais efetiva. (…) A terceira opção era o fascismo, que a Depressão transformou num movimento mundial, e, mais objetivamente, num perigo mundial. (…) Mas, à medida que crescia a maré do fascismo com a Grande Depressão, tornava-se cada vez mais claro que na Era da Catástrofe não apenas a paz, a estabilidade social e a economia, como também as instituições políticas e os valores intelectuais da sociedade liberal burguesa do século XIX entraram em decadência ou colapso”.

Fragmento de texto retirado da seguinte obra – HOBSBAWM, Eric J. Era dos Extremos: o breve século XX [1914-1991]. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.


DOCUMENTO 17 – À medida que a Depressão se prolongava, eclodiram acirradas disputas entre trabalhadores e patrões. Em 1934, 1,5 milhão de trabalhadores americanos entraram em greve. Trabalhadores da indústria automobilística, siderúrgica e portuária se envolveram em greves violentas. Em Minneapolis, a polícia atirou em 67 grevistas do sindicato dos caminhoneiros. Em agosto, os trabalhadores têxteis organizaram a maior greve que o país já havia visto: 110 mil trabalhadores entraram em greve em Massachusetts e 60 mil na Geórgia. Embora algumas das greves tivessem como objetivo salários mais altos, um terço delas exigia o reconhecimento dos sindicatos.

Cartaz comemorativo sobre os 90 anos dos levantes grevistas nos EUA em 1934.


DOCUMENTO 18 – A crise desestruturou a vida de milhões de pessoas. Em um tempo em que conseguir algum punhado de grana era fundamental para seguir vivendo, houve quem elaborasse formas de explorar o desespero alheio. Antes de 1929 já existiam maratonas de dança, mas as chamadas ‘walkathons’ assumiram características mais sombrias e predatórias no contexto da Grande Depressão. Apenas duplas podiam participar e a vitória seria obtida pelo casal que passasse mais tempo dançando. Sem parar, sem realizar qualquer movimento que não se assemelhasse a uma dança, sob pena de desclassificação. Equipes de saúde acompanhavam a competição. Centenas de pessoas pagavam para assistir casais desesperados que bailavam por horas, dias e meses a fio (com meros 15 minutos de descanso por hora) em busca de um prêmio em dinheiro em tempos críticos e caóticos. Esses eventos grotescos são retratados no filme “A noite dos desesperados”, de Sydney Pollack. Lançado em 1969, com o título original “They Shoot Horses, Don’t They?”, o filme era a adaptação de um romance homônimo de Horace McCoy, recebendo diversas indicações ao Oscar. Rostos marcados pelo cansaço, cenas de exaustão física e enfermidade, olhares vazios, imagens da plateia realçam a brutalidade do espetáculo. Curiosidade: A “Million Dollar Steel Pier Marathon”, Atlantic City (Nova Jersey), foi a maior maratona registrada, entre junho e novembro de 1932, totalizando 173 dias, 4.152 horas e 30 minutos de dança.


DOCUMENTO 19 – A canção “Remember My Forgotten Man” se tornou um símbolo da crítica à crise de 1929. Apresentada no filme Gold Diggers of 1933 (As Caçadoras de Ouro), película de Busby Berkeley e Mervyn LeRoy, a música foi interpretada por Joan Blondell e composta por Harry Warren (música) e Al Dubin (letra). No ato de encerramento a canção contou com a direção coreográfica de Busby Berkeley e se caracterizou como um manifesto visual, uma poderosa denúncia social da miséria e do abandono dos soldados veteranos da Primeira Guerra Mundial e trabalhadores durante a Grande Depressão.

“Remember My Forgotten Man”

Remember my forgotten man?

You put a rifle in his hand

You sent him far away

You shouted, “Hip hooray!”

But look at him today

Remember my forgotten man?

You had him cultivate the land

He walked behind a plow

The sweat fell from his brow

But look at him right now

Remember my forgotten man?

You won’t be satisfied till every man in this great land

Has his job and his plan

Remember my forgotten man!

You put a rifle in his hand

You sent him far away

You shouted, “Hip hooray!”

But look at him today

Remember my forgotten man?

You had him cultivate the land

He walked behind a plow

The sweat fell from his brow

But look at him right now

Remember my forgotten man!

Tradução livre em português

Lembre-se do meu homem esquecido?

Você pôs um rifle em sua mão,

Mandou-o para longe,

Gritou “viva!”,

Mas olhe para ele hoje.

Lembre-se do meu homem esquecido?

Você o fez trabalhar a terra,

Caminhou atrás do arado,

O suor caiu de sua testa,

Mas veja onde ele está agora.

Lembre-se do meu homem esquecido?

Você não vai se satisfazer até que cada homem nesta grande nação

Tenha seu trabalho e seu propósito.

Lembre-se do meu homem esquecido!

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