Análise crítica de um bem cultural: texto literário

Rafael Brasil (docente, História – IFRJ-CAC)
Para aquelas pessoas que frequentaram os cursos universitários de História nos anos 2000, propor um diálogo entre história e literatura pode trazer à tona lembranças sobre debates acalorados em torno das fronteiras que separavam as duas disciplinas. Virada linguística, o retorno da narrativa, história tem tanta ficção quanto as produções literárias e tudo é um texto eram elementos recorrentes nos circuitos acadêmicos que frequentei durante minha formação na UFRJ, há duas décadas. Faço referências a estas memórias apenas para desarmar aqueles espíritos docentes que ainda guardam receio de reunir em um mesmo trabalho esses dois campos do conhecimento. A história nada tem a perder de sua dimensão crítica e científica em sua relação com o texto literário; tanto quanto a literatura não sofrerá com o tédio de narrar eventos e personagens históricos.
Claro que ambos pertencem a domínios diferentes, implicando em textos distintos. O discurso científico da história segue um método e cobra o seu preço: está recheado por uma linguagem hermética, decifrada, em grande parte, apenas por especialistas e pouco alcança o grande público. Mas há uma enormidade de pessoas interessadas e curiosas sobre eventos e personagens históricos, que pouco conhecem do trabalho que é produzido por profissionais do campo da história. Ainda que os tempos atuais sejam desafiadores para quem se dedica à escrita literária (publicar, viabilizar sua circularidade e cativar a recepção do público), as obras que abordam temas históricos possuem um potencial para atingir audiências mais amplas e desempenham funções pedagógicas, ao contrário de algumas produções acadêmicas. Trabalhos de literatura que ostentam a ideia de ficção histórica pretendem não ser ‘apenas’ uma obra desse campo, mas simbolizam o desejo de revelar verdades históricas, aspectos factuais daquela realidade estampada no texto. Seja um texto literário, seja um texto acadêmico de história, ambos impactam na formulação de uma memória social em torno de personagens, eventos ou temáticas associadas ao passado.
Considerações feitas, vamos à proposta de trabalho: analisar textos literários. Cada estudante (ou equipe) precisa escolher uma obra de literatura que tenha conexão com algum dos temas discutidos nas aulas de História. Antes de tudo, é importante destacar pra turma que não podemos nos esquecer de considerar que uma obra cultural é uma representação da realidade, uma visão específica sobre qualquer tema, evento ou pessoa. Cada elemento que a compõe é escolhido com um propósito e cumpre uma finalidade: emocionar, dialogar, politizar, questionar, investigar, polemizar etc. A seleção de palavras, portanto, não é feita por acaso. Há um propósito por trás destas escolhas. As obras culturais estão impregnadas de valores, conceitos, ideologias, expectativas e visões de mundo do momento em que foram produzidas. Como orientação geral, é fundamental solicitar que sejam identificadas todas as fontes consultadas e utilizadas no desenvolvimento do trabalho.
Este roteiro de análise crítica foi pensado para estudantes do Ensino Médio, podendo ser modificado e adaptado conforme as necessidades e os objetivos definidos por cada docente. Oferecer um guia para a elaboração do trabalho tem a vantagem de ajudar na sistematização da leitura.
1 – Apresente os dados técnicos da obra literária para uma melhor compreensão do seu contexto histórico:
a) autoria;
b) gênero literário;
c) época de sua produção;
d) local em que foi produzida;
e) razão para a escolha do título;
f) a história é original ou adaptada?
Essas informações podem ser encontradas em sítios eletrônicos, bases de dados online ou na própria ficha catalográfica do livro.
2 – A RESENHA literária é uma produção textual com o objetivo de apresentar uma análise sobre uma obra literária. Trata-se de uma análise breve e objetiva a fim de proporcionar ao público um contexto prévio do livro resenhado. Seu objetivo é auxiliar numa escolha: além do resumo da trama, o texto já traz algum posicionamento crítico e outras informações importantes que auxiliem na decisão sobre ler ou não aquela obra. [Conceito de resenha literária. Disponível em https://booklabs.com.br/resenha-literaria/#:~:text=A%20resenha%20liter%C3%A1ria%20%C3%A9%20uma,contexto%20pr%C3%A9vio%20do%20livro%20resenhado. Acesso em: 01 jun. 2022]. Elabore uma resenha sobre a obra lida, lembrando que o texto não pode conter spoilers e precisa ser algo original (pois resulta de uma criação inédita – nenhum outro texto no mundo é igual a esse).
3 – Faça uma análise de aspectos que revelem as ideias presentes na obra literária:
a) apresente o período histórico que o enredo literário se propôs a contar;
b) descreva uma cena/capítulo que mais lhe provocou impacto, indicando a razão;
c) explique uma ideia que lhe chamou a atenção ao longo do livro;
d) justifique se o título da obra condiz com o seu conteúdo;
e) demonstre uma relação possível entre as ideias presentes na obra e a época em que ela foi produzida.
4 – Concentre sua atenção para realizar uma leitura crítica do livro:
a) destaque um ponto positivo e um aspecto negativo da obra – justificando suas escolhas;
b) após ler a obra e conhecendo o tema histórico que ela aborda, julgue o que pode ser considerado historicamente correto e o que foi invenção de quem a escreveu – dando suas justificativas;
c) avalie, criticamente, qual o sentido de um texto literário abordar um tema histórico;
d) defenda, com argumentos, qual a principal mensagem que a obra se esforçou em transmitir.
Pensar em um roteiro para que estudantes examinem uma produção literária é desafiador, até por que não há a intenção de “medir” o nível de precisão das informações acumuladas. Os apontamentos se preocupam mais em ajudar estudantes a organizarem suas leituras. Por isso, cada parte desse itinerário foca em um aspecto: sua dimensão técnica, a capacidade de síntese, o viés analítico e seu posicionamento crítico diante daquela obra de literatura. Como mencionado, há outros caminhos possíveis e muitas adaptações podem (e devem) ser feitas. O que conta, no fim das contas, é cativar audiências mais jovens a se aventurarem nessa jornada literária.
REFERÊNCIAS:
LASSO, Marixa. ¿Por qué y para quién escribimos los historiadores? El Magazín Cultural. Disponível em: https://www.elespectador.com/el-magazin-cultural/por-que-y-para-quien-escribimos-los-historiadores-article-635072/. Acesso em 20 mar. 2023.
CALVINO, Ítalo. Por que ler os clássicos. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 9 – 16.
HONOR, André Cabral. Podemos aprender História com romances históricos? Uma reflexão de um historiador romancista. In: Café História. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/podemos-aprender-historia-com-romances-historicos. Publicado em: 15 fev. 2021.
PESAVENTO, Sandra J. O mundo como texto: leituras da História e da Literatura. História da Educação, Pelotas, nº. 14, p. 31 – 45, set./2003.


