Uma conversa sobre música e história

Sarah da Costa Galasso (ex-bolsista do LEPHIS)
Escolhi pesquisar “História e Música” porque gosto muito de história, principalmente quando ela pode ser estudada utilizando a arte. A música é uma das formas de expressão artística, presente no meu dia a dia, que mais me interesso. Elas conseguem relatar vivências, através da melodia, da letra, do contexto histórico inserido, do ponto de vista dos artistas, entre outros. Ser capaz de estudar vários temas abordados em sala de aula por meio da pesquisa no universo musical, com certeza é uma oportunidade que eu (como estudante) não havia pensado ser possível até iniciar esse trabalho. Usar a música como fonte histórica é incentivar o pensamento crítico de uma forma leve e eficaz, que deve ser apresentada, principalmente, aos jovens estudantes.
Como diz Lady Whistledown, personagem fictícia da série televisiva Bridgerton: “Eu sempre fui da opinião de que nossa capacidade de apreciar a arte é o que nos torna mais do que meros animais. A arte alimenta paixões, eleva o espírito e, pelo menos espero, inspira discussões mais interessantes”. De fato, as discussões promovidas por meio da arte são as mais cativantes a meu ver, sempre há divergências no público que a obra alcança e assim se desenrolam as melhores e as piores manifestações de opinião. Desta forma, para decidir o tópico que abordaria no texto, busquei aquele que dentre os outros, desenvolveria uma crítica mais promissora e escrita mais fluida.
Considerando tudo isso, cheguei à conclusão que não haveria como escrever melhor sobre um tema que não este: desigualdade de gênero. Já que infelizmente é uma questão, que até o presente momento, todas as mulheres são obrigadas a encarar em todas as fases da vida. Um exemplo a ser ressaltado na fase adulta são as desigualdades enfrentadas no âmbito profissional. Segundo o IBGE, no Brasil, 62,6% dos cargos gerenciais eram ocupados por homens e 37,4% pelas mulheres, em 2019. Esses dados evidenciam não somente a falta de representatividade no ambiente corporativo, mas também as oportunidades disponíveis para as mulheres em posição de influência.
Além disso, o IBGE também constata que as mulheres só são a maioria em cargos relacionados ao cuidado, como nas áreas da educação, saúde humana e serviços sociais. Essas estatísticas refletem os estereótipos de gênero, onde acredita-se que a mulher e o homem têm papéis específicos a desenvolver profissionalmente. Assim, podemos observar que existem barreiras impostas por uma sociedade patriarcal, que dificultam as mulheres de alcançar cargos de liderança que não sejam nos setores predeterminados como “femininos”.
Antes de finalmente dar início a análise, gostaria de pontuar que o objetivo desse texto não é exaurir todas as informações sobre o tema, mas apresentar alguns fatos e instigar as leitoras a refletir. Selecionei duas músicas que possuem similaridades e diferenças, mas que no geral abordam o tema com pontos de vista distintos. Estas são: “Triste, louca ou má” de Francisco el Hombre lançada em 2016 e “Faixa amarela” de Zeca Pagodinho lançada em 1997.
As críticas sociais na composição “Triste, louca ou má” já começam pelo seu título, que é tradução da expressão “sad, mad or bad” que surgiu nos Estados Unidos e era muito utilizada para se referir, pejorativamente, às mulheres que escolhiam ir contra os padrões, como por exemplo: não se casar. Ou seja, aquelas que decidiam fazer escolhas visando priorizar a própria felicidade e não necessariamente suprir expectativas sociais. Acreditava-se que as mulheres que faziam isso só poderiam ser tristes, amarguradas, loucas ou más. Daí surgiu a expressão que nomeou a música.

Essa canção traz em sua letra o empoderamento feminino, desafios aos estereótipos sobre o papel da mulher na sociedade (que são definidos como receita cultural na composição) e questionamentos sobre as definições tradicionais da feminilidade. Isso fica evidente nos trechos:
Triste, louca ou má
Será qualificada
Ela quem recusar
Seguir receita tal
A receita cultural
Do marido, da família
Cuida, cuida da rotina
Além disso, o eu-lírico mostra estar descobrindo sua identidade, contradizendo o discurso equivocado replicado por muitas pessoas (devido aos resquícios estruturais da dominação masculina), que tenta caracterizar mulheres por meio de coisas que não as definem:
E um homem não me define
Minha casa não me define
Minha carne não me define
Eu sou o meu próprio lar
Por fim, também incentiva as mulheres a se libertarem daquilo que as aprisionam e machucam; a enfrentarem as limitações que o mundo e sua vida pessoal apresentam; e as encorajam a finalmente perceber ou aceitar, mesmo que seja através da dor, que coisas devem mudar. Que se conformar com a desigualdade de gênero não é o caminho a ser traçado se quiser chegar até a liberdade. Podemos observar isso nos versos:
Quem não sem dores
Aceita que tudo deve mudar [...]
Fêmea alvo de caça
Conformada vítima
Prefiro queimar o mapa
Traçar de novo a estrada
Já a canção denominada “Faixa Amarela” de Zeca Pagodinho lançada em 1997, relata o que deveria ser uma história de amor. Mas na verdade, seus versos são apenas reflexos da comunidade que o eu-lírico está inserido. No início, a canção se mostra completamente inofensiva ao expressar o desejo do eu-lírico de presentear sua amada e assim demonstrar o suposto amor que sentia por ela, como podemos observar no trecho:
Eu quero presentear
A minha linda donzela
Não é prata nem é ouro
É uma coisa bem singela
Vou comprar uma faixa amarela
Bordada com o nome dela
E vou mandar pendurar
Na entrada da favela
Porém, a obra não se resume a esses trechos bonitos. Nos próximos versos, vamos perceber através do olhar do eu poético da composição, ou seja, o ponto de vista masculino, o que era entendido como normal ou aceitável em um relacionamento (na época que a letra foi escrita). A obra criada para falar de amor, possui partes em que a violência é tratada como algo banal e justificável caso a mulher cometa algum “vacilo”. Viabilizando a interpretação de que o homem possuía o direito de corrigir sua companheira como julgasse necessário. A presença da naturalização da violência contra a mulher é irrefutável nas seguintes linhas:
Mas se ela vacilar
Vou dar um castigo nela
Vou lhe dar uma banda de frente
Quebrar cinco dentes e quatro costelas
Conforme pesquisa do DataSenado, publicada em 2013, 1 em cada 5 brasileiras assumiu que já foi vítima de violência doméstica e familiar provocada por um homem. Esse dado é muito alarmante e revela a magnitude da violência doméstica no Brasil. Destacando a necessidade urgente de medidas eficazes para diminuir a ocorrência desse crime.
Além disso, segundo o Instituto Maria da Penha, algumas vítimas desenvolvem uma sensação de isolamento e ficam paralisadas, sentindo-se impotentes para reagir e sair dessa situação. Após passarem por inúmeros tipos de violência, a vítima se sente sem forças para reagir ou buscar ajuda, então o apoio é essencial e indispensável, para que ela consiga se libertar, quebrando o ciclo.
Após a descrição das agressões que cometeria contra sua companheira, o sujeito lírico segue contando como vai presenteá-la durante a maior parte da composição, trazendo cada vez mais, a dimensão romântica para a letra. O que faz a violência expressa por ele parecer pequena em relação às coisas boas que fará. Isso também acontece na vida real. Muitas mulheres que se encontram em um relacionamento assim, ficam presas às atitudes que o agressor toma para “compensar” seus erros.
O livro ficcional, inspirado em fatos “É assim que acaba”, expõe um pouco da complexidade de um relacionamento tóxico normalizado, como o citado na produção de Zeca Pagodinho. A protagonista Lily Bloom teve um marido violento que a agredia e sempre distorcia a situação fazendo-a acreditar que não foi ferida intencionalmente. Depois a recompensava através de boas atitudes. Por estar profundamente envolvida, Lily o perdoava, até perceber que estava repetindo os passos da própria mãe, que também sofreu com a violência doméstica. A personagem só conseguiu terminar o relacionamento após o nascimento de sua filha, entendendo que ao evitar que a criança crescesse no mesmo ambiente em que ela havia crescido, estaria quebrando o ciclo.
Por fim, tanto “Triste, Louca ou Má” quanto “Faixa Amarela” oferecem visões profundas sobre a desigualdade. Após a análise, podemos tirar algumas conclusões. Como descrito na canção de Francisco El Hombre, mulheres não são um objeto a ser rotulado, nem uma peça a ser encaixada onde o sistema sociopolítico patriarcal delimita. Se conformar com a injustiça, de fato, não é opção. Além disso, conclui-se que destacar a desconstrução de ideias retrógradas e equivocadas (que ainda estão presentes em algumas composições, como a de Zeca Pagodinho) é de suma importância para desnaturalizar a violência contra a mulher. Enquanto a primeira desafia estigmas sociais relacionados à saúde mental e à opressão feminina, a segunda, embora nostálgica, carrega elementos que reforçam estereótipos machistas e normalizam a violência doméstica. Isso nos leva a pensar sobre como a música reflete a sociedade e os valores que perpetuamos através dela. Assim, é essencial abordar obras como essas, não apenas como entretenimento, mas como um ponto de partida para discussões sobre amor, respeito e desigualdade de gênero.


