Sobre o Menino do Pijama Listrado
Gabriela Guimarães Rangel (ex-integrante do LEPHIS)
“O menino do pijama listrado“, livro best seller lançado em 2007, foi escrito por John Boyne e publicado no Brasil pela Companhia das Letras, com o selo da Editora Seguinte. A publicação tem tradução de Augusto Pacheco Calil e é uma ficção voltada para o público jovem, sendo indicada para maiores de 12 anos, além disso possui a Alemanha Nazista e o Holocausto como “planos de fundo” de sua história.
Bruno, uma criança alemã de nove anos, é o personagem principal e um dia, ao chegar em casa, descobre que terá que se mudar devido ao trabalho de seu pai. A nova casa, chamada durante o livro de Haja-Vista (que tem pronúncia semelhante a Auschwitz), é cinza e entediante para a criança de nove anos e sua irmã mais velha de doze anos. O protagonista se aventura nos arredores e acaba por fazer um amigo que veste pijamas listrados, que se encontra em um local vasto delimitado por cercas. Assim, acompanhamos Bruno em seus encontros com Shmuel, o menino do pijama listrado, e em seu processo de adaptação na nova casa.

A obra recebe críticas negativas em redes sociais, nas quais se compartilha a falta de coerência entre conhecimentos históricos em relação ao nazifascismo e às informações divulgadas nas páginas do manuscrito. Com base nisso, o seguinte texto busca analisar o livro de John Boyne, por meio de três personagens que possuem grande destaque durante a narrativa e com realce nas informações históricas presentes ou não na obra literária, além de debater sua utilização em salas de aula. Vale ressaltar que, por ser uma análise sobre o livro, haverá menções a diversas passagens da obra.
Bruno, o menino que não sabia nada.
Conforme a biografia do livro postada no site da Companhia das Letras: Bruno tem nove anos e não sabe nada sobre o Holocausto ou a Solução Final contra os judeus. Também não faz ideia que seu país está em guerra com boa parte da Europa e muito menos que sua família está envolvida no conflito.
Para melhor entendimento é importante conceituar os termos mencionados que o protagonista desconhece. Segundo o Núcleo de Estudos das Diversidades, Intolerâncias e Conflitos (DIVERSITAS), da Universidade de São Paulo (USP), o Holocausto se tratou de um processo que se constituiu em: delimitar quem era os judeus europeus, logo em seguida exclui-los economicamente e socialmente e, por ultimo, expropriá-los para campos de concentração e guetos, em que eram deportados e assassinados. Desse modo, o Holocausto foi um acontecimento que perseguiu e almejou o extermínio de judeus e outros povos, como os romani. Adicionalmente, a Solução Final da Questão Judaica tratou-se da elaboração do plano de aniquilação dos judeus europeus, e, de acordo com o artigo do United States Holocaust Memoriam Museum (USHMM), “Enganando o público”, essa medida foi enunciada na conferência de Wannsee (em janeiro de 1942) para membros do alto escalão do governo alemão, membros importantes do Partido Nazista e oficiais de alta patente das SS, que seriam encarregados de colocar o aniquilamento em prática.
Ademais, a publicação do USHMM aponta que os líderes nazistas utilizavam a propaganda como meio de iludir a população alemã e o mundo exterior sobre a situação cruel e desumana dos campos de concentração (ou, segundo o texto, “a máquina de genocídio contra judeus”), assim como os acontecimentos da Segunda Guerra Mundial. Retomando os apontamentos da sinopse da obra em relação ao personagem principal, pode-se afirmar que Bruno desconheceria a realidade brutal dos campos de concentração, porém teria ideias distorcidas dos acontecimentos que englobam a Alemanha de 1943 (período em que se passa, na maior parte, o livro), devido ao fato elucidado anteriormente. Assim, a inocência de Bruno quanto aos conceitos discorridos se torna parte da liberdade poética que John Boyne possui.
Muito se debate sobre a ausência da Juventude Hitlerista no livro, porém a publicação “Doutrinando a Juventude”, do USHMM, evidencia que apenas crianças a partir de 10 anos faziam parte das organizações de jovens nazistas e, assim, Bruno não poderia participar da Juventude Hitlerista devido a sua idade (pelo menos em grande parte do livro, no qual tem nove anos). Em relação a isto, os seguintes tópicos devem ser retratados:
- Gretel, irmã mais velha de Bruno, tem doze anos e não faz parte de nenhuma dessas organizações. Dessa forma, a existência da Liga das Meninas Alemãs é ignorada pelo autor.
- Na mesma publicação citada acima, é apresentado que as crianças alemãs eram orientadas para o “culto a Hitler” desde o primeiro dia de aula e que quadros com a imagem de Adolf Hitler eram exibidos em todas as salas de aula alemãs. Ainda no mesmo artigo é informado que, desde 1933, os acadêmicos e educadores nazistas glorificavam as “raças arianas” e disseminavam o ódio às raças tidas como inferiores (como judeus, poloneses etc.). Portanto, Bruno e Gretel deveriam estar emergidos no cenário de doutrina nazista presente nas escolas, o que não ocorre na obra (já que Bruno desconhece o racismo, antissemitismo, o culto a Adolf Hitler e várias outras práticas realizadas durante o Terceiro Reich). De tal forma, outra parte do cenário nazifascista é ignorada pelo autor.
Pai de Bruno, o comandante nazista.
É possível afirmar que o pai de Bruno é um comandante nazista de alta patente convocado para administrar o campo de concentração Auschwitz. Tal coisa é assegurada para que esses selecionados possam colocar a Solução Final da questão judaica em prática (mencionados acima), explicando, assim, a mudança repentina de domicílio que ocorre no início do livro. Logo, acima de toda ignorância frente ao assunto que o protagonista possui está o fato elucidado anteriormente, circunstância que ele próprio desconhece, dado que, na primeira parte da obra, Bruno relembra o dia em que seus amigos de escola conversaram sobre as profissões de seus pais e ele não tinha noção em que seu pai trabalhava, sabendo apenas – por meio de comentários de sua mãe e pela visita do “Fúria” – que era algo importante para todos.
O patriotismo, característica marcante do nazifascismo, é retratado principalmente através do pai de Bruno, que tem falas sobre a glória da pátria e recuperar o orgulho tirado da Alemanha através de Haja-Vista (que sabemos ser o campo de Auschwitz). O progenitor ensina para seu filho mais novo saudações nazistas, que aparecem em algumas páginas, como “Heil Hitler” (que Bruno acredita significar um “tenha uma boa tarde”). Também explica para Bruno, após ser interrogado por este, que as pessoas de pijama listrado não são pessoas, desse modo deixa explícito o senso de superioridade dos alemães nazistas perante aos judeus, poloneses e todos outros que eram perseguidos durante o período da Alemanha Nazista e que eram sentenciados para os campos de concentração.
Shmuel, o amigo judeu.
Um dos principais comentários sobre “O menino do pijama listrado” é o arco de desenvolvimento do personagem de Shmuel ao longo do livro, no qual se aponta sua falta de evolução na obra literária. Shmuel é uma criança judia, que nasceu no mesmo dia, mês e ano que o protagonista (portanto, tem nove anos em grande parte da obra), e é inserido no livro com a finalidade de ser o amigo judeu do personagem principal. Boyne não desenvolve a personalidade do menino do pijama listrado, apesar dele aparecer em um número considerável de páginas e ser uma personagem tida como importante para Bruno, assim a construção de Shmuel como personagem se resume em suas crenças e no fato de se encontrar no lado de dentro das cercas, levando a criança a servir apenas como o judeu e “amigo coitado” do protagonista.
Pode-se acrescentar que Shmuel é aquele que instiga Bruno a investigar sobre as pessoas que estão por trás das cercas e que usam pijama listrado, tal como o motivo para estarem ali. Shmuel apresenta outras informações para a personagem principal, como na passagem em que comenta para Bruno que eles estão na Polônia, fato até então desconhecido pelo protagonista. Vale relembrar que, na cena mencionada anteriormente, Bruno afirma para seu novo amigo que a Polônia não seria tão boa quanto a Alemanha e, após ser questionado por Shmuel o motivo para tal afirmação, defende que a Alemanha seria o maior de todos os países, tal qual explana que os alemães seriam superiores (retomando o senso de superioridade mencionado no tópico anterior). O amigo de Bruno também descreve alguns comportamentos dos militares, comentando que eles não gostavam de ver as pessoas do lado de dentro das cercas melhorando de saúde, tal como expressa sua repulsa pelos soldados.
Ademais, vemos alguns pontos do Holocausto através de Shmuel, como os pontos a seguir:
- O desaparecimento repentino do pai e avô do amigo do protagonista deixa implícito que ambos foram enviados para a câmara de gás, prática aplicada para assassinar os prisioneiros de Auschwitz.
- Em uma das cenas, Shmuel é enviado para realizar um trabalho na casa de Bruno, ilustrando assim a prática de trabalho escravo realizada nos campos de concentração. Vale apontar que o cozinheiro da casa, Pavel, também era uma pessoa judia forçada a trabalhar como serviçal.
Para além disso, as duas crianças se encontram em uma parte da grade que está mais desprotegida e solta, o que fica evidente na cena em que Bruno afirma que poderia rastejar por debaixo da cerca, logo em seguida levantando o arame. Um questionamento surge durante essa passagem e no momento em que Bruno entra no campo de concentração: se era tão fácil para uma criança de nove anos entrar, por qual motivo era difícil de uma criança, menor e desnutrida, sair? Shmuel em momento nenhum tenta fugir do campo de concentração, mesmo vivendo em um cenário horripilante.
O uso da obra em escolas.
Faz-se relevante destacar que livros de ficção são opções de introdução a assuntos históricos e, como dito por André Cabral Honor no artigo “Podemos aprender História com romances históricos?”, é possível moldar a memória social sobre fatos históricos.
Para além disso, o Centre For Holocaust Education, departamento da University College London (UCL), publicou a pesquisa “The Boy in the Striped Pyjamas in English secondary schools” (em português, “O menino do pijama listrado nas escolas secundárias inglesas”) em 2016, em que apresenta dados acerca da utilização do livro na Inglaterra em escolas nos anos finais do fundamental (ou seja, do sexto ao nono ano). Segundo a publicação, 35% dos professores entrevistados afirmaram utilizar “O menino do pijama listrado” em sala de aula, sendo que 29% apontaram usar o livro e 26% o filme. Durante a entrevista, os educadores apontaram que o livro e filme geraram um desafio a ser superado nas salas de aula, uma vez que a publicação de Boyne, de acordo com os docentes, criou ou reforçou pensamentos equivocados em relação ao nazismo. Um dos mentores da disciplina de história entrevistados observou que alguns alunos apontavam pensamentos imprecisos sobre o Holocausto, em que a maioria desses ideais provinha da leitura de obras fictícias como “O menino do pijama listrado”, esse docente também elucidou que tais alunos afirmam sentir pena dos militares alemães da época. Assim, a utilização de tal livro em salas de aula do fundamental é capaz de criar uma memória social baseada na simpatia por famílias nazistas, tal memória coletiva pode ser gerada em crianças e adolescentes que estão tendo seu primeiro contato com os temas debatidos no livro de Boyne.
Assim como é importante salientar que o livro “O menino do pijama listrado” não é catalogado como ficção histórica ou romance histórico, e sim como ficção para jovens, portanto tem licença poética para representar conhecimentos históricos de outras formas ou simplesmente não representá-los (como vimos, John Boyne não desenvolve no livro diversos pontos da Alemanha Nazista). Em uma entrevista divulgada em 2021 pelo jornal britânico The Guardian, Boyne defendeu que sempre quis destacar o fato de sua obra ser fictícia e desejava que seu manuscrito despertasse uma curiosidade em crianças e adolescentes sobre os temas que discorre ao longo do livro.
A pesquisa da faculdade britânica mencionada aponta que é essencial os educadores considerarem o quão bem preparados (em relação a conhecimentos históricos) os alunos estão, o texto indica que não é impossível utilizar obras como “O menino do pijama listrado” para ensinar jovens assuntos como nazismo ou Holocausto, mas destaca que sua utilização deve ser feita de modo crítico. Como exemplo da utilização desta produção artística em escolas, o programa “Cultura é currículo”, realizado pela Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, sugere utilizar a adaptação cinematográfica do livro para tarefas críticas em sala de aula, em que é proposto deveres nos quais os alunos apontariam símbolos nazistas presentes. Adicionalmente, o docente poderia apresentar documentários que discorrem sobre o nazismo, no qual os aprendizes observariam se as características da época foram abordadas no filme de “O menino do pijama listrado”. O texto da Secretaria da Educação também destaca que é importante que os discentes compreendam as razões pelas quais o nazismo apontou o povo judeu como principal alvo de seu ódio, mesmo que o livro e sua adaptação cinematográfica não abordem de forma direta essa questão. Dessa forma, a obra de John Boyne pode ser utilizada para formar pensamentos críticos nos alunos de ensino fundamental ou médio em relação aos tópicos que aborda ou não menciona.

Por fim, a diretora do Centre For Holocaust Education, Ruth-Anne Lenga, reflete que o potencial de dar impressões erradas sobre os alemães nazistas, tornando-os vítimas do Holocausto, é algo insensível e perigoso, uma vez que o crescimento do antissemitismo na Inglaterra é notório (e vale mencionar que o crescimento de movimentos neonazistas em todo o globo é crescente), Lenga conclui que “O menino do pijama listrado” pode causar mais mal do que bem para os estudantes.
Conclusão
Desse modo, “O menino do pijama listrado” é um meio de introdução ao tema do nazifacismo quando utilizado de forma questionadora e guiada por docentes em sala de aula pode render excelentes caminhos para a análise e compreensão desse contexto histórico e dos caminhos que interligam história e literatura. Utilizada dessa forma, a obra de Boyne pode agregar novos conhecimentos a estudantes, sobretudo do Ensino Fundamental, sendo que há os seus riscos: quando não há apontamento sobre seus pontos negativos.
REFERÊNCIAS:
BOYNE, John. O menino do pijama listrado. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
Núcleo de Estudos das Diversidades, Intolerâncias e Conflitos, DIVERSITAS. Holocausto e Anti-Semismo. São Paulo: DIVERSITAS . Disponível em:<https://diversitas.fflch.usp.br/holocausto-e-anti-semitismo>. Acesso em: 15 fev. 2023.
O menino do pijama listrado. São Paulo: Companhia das Letras. Disponível em:<https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535911121/o-menino-do-pijama-listrado>. Acesso em: 23 jan. 2023.
HONOR, André Cabral. Podemos aprender História com romances históricos? Uma reflexão de um historiador romancista. In: Café História. Disponível em:<https://www.cafehistoria.com.br/podemos-aprender-historia-com-romances-historicos>. Acesso em: 24 jan. 2023. Publicado em: 15 fev. 2021. ISSN: 2674-5917.
United States Holocaust Memoriam Museum (USHMM). Deceiving the public. Disponível em: <https://encyclopedia.ushmm.org/content/pt-br/article/deceiving-the-public>. Acesso em: 20 jan. 2023.
United States Holocaust Memoriam Museum (USHMM). Indoctrinating youth. Disponível em: <https://encyclopedia.ushmm.org/content/pt-br/article/indoctrinating-youth>. Acesso em: 20 jan. 2023.
Centre For Holocaust Education. The Boy in the Striped Pyjamas in English secondary schools. In: The Guardian. Disponível em: https://holocausteducation.org.uk/research/the-boy-in-the-striped-pyjamas-in-english-secondary-schools/. Acesso em: 27 jan. 2023. Publicado em: 27 jan. 2022.
SHERWOOD, Harriet. The Boy in the Striped Pyjamas ‘may fuel dangerous Holocaust fallacies’. In: The Guardian, Inglaterra, 27 jan. 2022. Disponível em:<https://www.theguardian.com/world/2022/jan/27/the-boy-in-the-striped-pyjamas-fuel s-dangerous-holocaust-fallacies>. Acesso em: 18 abril 2023.
Secretaria da Educação do Estado de São Paulo. Roteiro – Caixa 3 – O menino do pijama listrado. São Paulo: Cultura é currículo. Disponível em: <http://culturaecurriculo.fde.sp.gov.br/administracao/Anexos/Documentos/320120601 170235O%20MENINO%20DO%20PIJAMA%20LISTRADO.pdf>. Acesso em: 27 jan. 2023.


