Encontros Históricos – relatos de experiência em torno da produção de uma HQ em sala de aula

Maria Aparecida G. Ferreira (docente, Língua Inglesa – IFRJ-CAC)

Rafael Brasil (docente, História – IFRJ-CAC)
Meu nome é Maria Aparecida. Sou professora de inglês do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro (IFRJ), no campus Arraial do Cabo. O projeto que se chama “Encontros Históricos” começou em 2019, depois que conheci e li um pouco sobre Afrofuturismo (com Morena Mariah, Aza Njeri, Katiúscia Ribeiro) e sobre intelectuais e inventores africanos e afrodiaspóricos (com Bárbara Carine Soares Pinheiro).
Por se tratar de uma disciplina técnica – Inglês Instrumental – há anos eu trabalhava os conteúdos da disciplina refletindo sobre identidades de gênero e raça, com suas interseccionalidades e a relação com a formação técnica em informática. Mas eu percebia que, apenas denunciar as desigualdades sociais ou as opressões e violências vividas, deixava os/as estudantes das turmas tristes e sem perspectivas. Com base nas leituras e estudos feitos, decidi que a crítica às desigualdades e opressões poderia ser feita “pela contramão”: trazendo os nomes dessas intelectualidades e personalidades para a aula, estudando e aprendendo sobre elas e indagando às turmas, se eles/elas já as conheciam? Por que não as estudamos? E como essa ideia se relaciona com Afrofuturismo?
Pode-se pensar, a princípio, que afrofuturismo seja apenas sobre o futuro. Mas também é sobre o passado e sobre o presente. Não à toa, a adinkra Sankofa ensina que “nunca é tarde para voltar e buscar o que ficou para trás”.
Estudar sobre intelectuais e inventores africanos ou afrodiaspóricos, que normalmente não são apresentados nas escolas, é uma forma de voltar na história e resgatar esses saberes e intelectuais que foram apagados ao longo da história que nos é contada frequentemente com protagonismo exclusivamente eurocentrado. É também uma forma de ressignificar e transformar o momento presente, porque apresentamos pessoas negras de modo valorizado e positivado. Trazemos outras representatividades negras para esses jovens estudantes que se sentem orgulhosos ao conhecer essas histórias. Representatividades e personalidades históricas que poderão contribuir na construção e imaginação dos seus futuros. Assim, desenvolvi trabalhos em sala de aula, em 2020 e 2021, ainda em meio à pandemia de COVID-19. Até então, a iniciativa era apenas na disciplina de Inglês Instrumental.
Em 2022, imaginei que seria interessante pedir que a turma em questão escrevesse histórias em quadrinhos sobre as personalidades estudadas. E a ideia ficou melhor ainda quando conversei com o professor Rafael Brasil, que lecionava história para a mesma turma, e ele topou fazer um trabalho interdisciplinar, que nomeamos de “Encontros Históricos”.
Na proposta, os/as estudantes da turma, em grupos, deveriam escolher uma personalidade dentre as indicadas por mim na disciplina de Inglês Instrumental (inventores e cientistas afrodiaspóricos) e uma personalidade histórica dentre as estudadas na disciplina de História (do período da Primeira República brasileira) e propor um encontro histórico entre essas duas personalidades.
Nos quadrinhos, as personagens falariam sobre suas biografias, suas realizações e importância histórica. A escolha das personalidades ficava a critério dos/as integrantes do grupo e o diálogo entre as personagens seria bilíngue e passaria por processos de acompanhamento e orientação docente.

Bem, eu sou Rafael Brasil, professor de História do IFRJ – CAC. Apesar de estar há um longo tempo circulando por essa estrada chamada educação, nada poderia me preparar para o que estava por vir quando cheguei, em Arraial do Cabo, após uma transferência, em fevereiro de 2020. Não havia vivenciado nem um único mês de aulas no campus e a pandemia de Covid-19 surgiu. Antes das vacinas, ficamos um longo período afastados do chão da escola, desses contatos em sala de aula que são capazes de nos transformar. No entanto, desde que as aulas presenciais retornaram à rotina, em 2022, houve muitos e muitos debates, intensas trocas de ideias e uma profunda sensibilidade para a construção de um ambiente educacional acolhedor e inspirador.
Resolvi experimentar novas propostas educativas e assumir, com mais ênfase do que antes, a aposta freireana de provocar a curiosidade epistemológica em cada discente com quem eu tivesse a chance de dialogar. Nessa caminhada, tive o prazer de encontrar uma parceira: a professora Cida.
Foi preciso um longo processo para elaborarmos nossa proposta de trabalho com a turma, convencê-la, e a nós também, de que esses “Encontros Históricos” poderiam materializar duas perspectivas que nos movimentam dentro do campo educacional: a aposta no diálogo e a imaginação que o conhecimento provoca.
Em se tratando da disciplina História, é necessário reconhecer o quanto determinadas versões oficiais e oficiosas podem ser nocivas ao desfilarem em nossas salas de aula e nas telas que capturam os olhares da juventude brasileira. É fundamental (e urgente!) desenvolvermos inúmeras táticas político-educativas que falem, abordem, representem as vidas do conjunto da coletividade humana e não se restrinjam a exibir recortes históricos da realidade, inspirados por anseios econômicos, racializados, capacitistas, sexistas ou de qualquer outra ordem discriminatória.

Por isso, nas aulas que leciono, insisto para que cada estudante possa reconhecer suas formas de vivência e experiência nos eventos e personagens da história e, sincronicamente, ter acesso a outras formas de existência, abrindo-lhe espaços para correr o mundo através de contatos com experiências humanas diversificadas e estimulando-lhe o engajamento na tarefa de fruição, discussão, análise e produção de novas narrativas. A confecção dessas histórias em quadrinhos, com personalidades tão distintas, representa o nosso desejo em fazer circular uma diversidade de olhares.
Em poucas palavras, nossa dedicação era garantir que a existência humana não pudesse ser resumida a um único padrão ou modelada por uma figura histórica heroificada. Tratou-se, ao fim, de expandir os horizontes dessas histórias. Torná-las plurais, posto que profundamente humanas.
Realizamos esse projeto pela primeira vez, no segundo semestre de 2022. E depois prosseguimos pelo ano de 2023. O projeto foi realizado com turmas do 5º período do curso Médio Técnico Integrado de Informática, com diferentes escolhas de personalidades feitas por cada estudante participante do projeto. As reflexões e os quadrinhos foram apresentados em Semanas Acadêmicas do IFRJ-CAC, sempre em auditórios lotados e com o protagonismo estudantil.
Desde 2022, a proposta do projeto foi ganhando mais fôlego e consistência e gradativamente as narrativas dos quadrinhos ficaram mais complexas. No 2º semestre de 2023, inclusive, o Projeto contou com a participação de outra docente – Viviane Bartho – que lecionava Língua Portuguesa e Literatura e topou se reunir conosco nesses “Encontros Históricos”. Decidimos confeccionar um livro digital reunindo alguns dos quadrinhos realizados por três turmas distintas, ao longo de três semestres consecutivos.
Abaixo você pode acompanhar, uma pequena fração, dessa nossa proposta: assegurar que essas referências e personalidades históricas sejam estudadas, conhecidas, citadas e lidas por outras pessoas. Ter acesso a novos ângulos e personagens da história pode contribuir para tornar visível aquilo que nos torna humanos: a pluralidade que nos forma. Que possamos nos conhecer por outras lentes e por tantos traços. Esperamos que você goste.
Hotep!
P.S.: Caso mantenha o interesse, a curiosidade em conhecer nosso projeto, é possível ter acesso à íntegra do livro a partir desse link: https://drive.google.com/file/d/1w-LLC_XNYUBwcmLmy49xluG3uG5CU3hw/view?usp=drive_link
REFERÊNCIAS:
FERREIRA, M. A. G. “Eu gostaria de ter aprendido todas essas histórias antes”: Educação antirracista e Afrofuturismo no Instituto Federal do Rio de Janeiro – Arraial do Cabo. Caminhos para uma educação antirracista: teorias e práticas docentes. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2023, p. 227-245.


