Iluminismo
Histórias nas telas:
– Alexandria, de Alejandro Amenábar. Espanha: 2009. [Cinebiografia da filósofa e astrônoma egípcia Hipátia que, no século IV, lecionava na Biblioteca de Alexandria. O contexto histórico é outro, mas os debates temáticos podem servir de ponte para a discussão em torno de preceitos iluministas: racionalismo científico, disputa entre fé e razão, intolerância religiosa].
– Caindo no Ridículo, de Patrice Leconte. França: 1966. [A história se passa em um tempo pré-revolucionário, na corte do rei Luís XVI, em Versalhes. Acompanhamos as tentativas do engenheiro, integrante da nobreza, Grégoire Ponceludon de Malavoy, de obter apoio real para efetuar obras de drenagem nos pântanos da região, a fim de melhorar as condições de vida dos camponeses. No entanto, é fundamental que ele consiga provar o ‘valor’ de sua figura em disputas nos salões aristocráticos, onde insultos conquistam prestígio].
– Diderot, de Michel Favart. França: 1974. [Produzido para exibição na TV francesa, o filme tem um estilo teatral e está centrado na trajetória intelectual do filósofo Denis Diderot, seus dilemas pessoais e morais e suas intervenções políticas nos debates públicos da época].
– Existiram mulheres iluministas?, Historiar-se. Brasil: 2020. [Publicação do canal de divulgação científica na plataforma do YouTube apresentando quatro mulheres iluministas na Europa: Mary Astell, Mary Wollstonecraft, Olympe de Gouges e Émilie du Châtelet. Mulheres envolvidas nos debates científicos da época e nas disputas pelos diretos das mulheres].
– Jefferson em Paris, de James Ivory. EUA: 1995. [Aborda o período em que Thomas Jefferson atuou como embaixador dos EUA em Paris, entre 1784 e 1789. A produção se concentra nas questões políticas do contexto revolucionário francês e como isso afetou o futuro presidente estadunidense e, também, sua trajetória afetiva, com a artista Maria Cosway e com uma jovem escravizada, chamada Sally Hemings. De certa forma, o filme destaca a importância da circulação de ideias iluministas nos dois lados do Atlântico].
Nas trilhas da história:
– Alexander Hamilton, por Lin-Manuel Miranda, 2015. [A canção de abertura do musical estadunidense Hamilton fica responsável por apresentar ao público a figura de um dos ícones políticos do processo de independência dos EUA. Misturando hip-hop e R&B, a música questiona: Como é que um bastardo, órfão / Filho de uma prostituta e um de um escocês / Largado no meio de um lugar esquecido pelo destino no Caribe / Empobrecido, na miséria / Cresceu e se tornou um herói e intelectual? É mais um bom momento para debate pontos de contato e de distanciamento entre as ideias iluministas europeia e americana].
– Iluminismo: o que você precisa saber para entender, por História FM #160. Brasil: 2024. [Conversa com o professor de História Moderna na Universidade de São Paulo (USP), Daniel Gomes de Carvalho, sobre a história do Iluminismo, os debates sobre sua natureza e sobre seus principais proponentes].
– Iluminismo, por História Pirata #79. Brasil: 2021. [Nesse episódio Rafinha e Daniel Gomes de Carvalho conversam sobre o iluminismo. É possível compreender o programa como se fosse uma introdução ao pensamento histórico].
– Sinfonia nº. 3 (Eroica), por Ludwig van Beethoven. [A Sinfonia n.º 3 em mi bemol maior, Op. 55, foi composta entre 1803 e 1804. Sua duração de quase 50 minutos simbolizava quase o dobro do tempo médio das sinfonias. Ela possui uma característica trágica, com doses de morte, destruição e ansiedade. Originalmente foi dedicada à Napoleão Bonaparte, mas após ser proclamado imperador, o compositor reviu a homenagem. Tal qual a ironia histórica envolvendo os ideais iluministas, o legado da sinfonia se modificou e se tornou a ‘Sinfonia Heroica… composta para celebrar a memória de um grande homem’.
Histórias contadas:
– As Ligações Perigosas, de Pierre Ambroise François Choderlos de Laclos, 1782. [Romance francês que ataca a hipocrisia e a corrupção da aristocracia de sua época. O romance é composto inteiramente por cartas trocadas entre personagens da alta sociedade parisiense, principalmente a Marquesa de Merteuil e o Visconde de Valmont. Embalados por um jogo de sedução e intrigas, tais figuras se divertem manipulando a corte e destruindo relacionamentos. Escrito às vésperas da Revolução Francesa, o romance se conecta com as críticas iluministas sobre os privilégios da corte e sua decadência].
– Cândido ou o otimismo, de Voltaire, 1759. [Publicado anonimamente por conta da censura, o livro combina humor ácido, crítica filosófica e narrativa recheada de aventura para questionar o otimismo racionalista e metafísico de Gottfried Wilhelm Leibniz]. Em um mundo marcado por experiências trágicas (em 1755 houve um terremoto em Lisboa e França e Inglaterra estavam envolvidas num conflito bélico que, mais tarde, seria conhecido como a Guerra dos Sete Anos, 1756-1763), o jovem Cândido vai perdendo seu otimismo inicial e sua trajetória revela seus esforços para enxergar a realidade a partir de lentes cada vez mais racionais].
– O Mundo de Sofia, de Jostein Gaarder, 1991. [Romance filosófico bastante conhecido. Mesmo sem ser uma obra específica sobre o Iluminismo, sua linguagem acessível e o cuidado com a apresentação de princípios filosóficos associados ao contexto das Luzes do século XVIII a tornam relevante, sobretudo para um público mais jovem].
– Robinson Crusoe, de Daniel Defoe, 1719. [Bastante popular no século XVIII esta obra recebeu inúmeras adaptações para diversas mídias. Reúne múltiplos elementos para um bom debate, desde a mentalidade colonizadora europeia dos oitocentos, passando pela dimensão de superioridade racial e chegando aos princípios iluministas vinculados ao aprofundamento do capitalismo, como o elogio ao individualismo e ao self-made man. Livremente inspirado nas experiências de um marinheiro escocês, Defoe nos apresenta a trajetória do jovem Crusoe abandonando a casa dos pais, sendo escravizado na África, se tornando latifundiário escravista no Brasil e náufrago em alguma ilha caribenha. Sozinho naquele ambiente inóspito, ele se utiliza de seus conhecimentos científicos, se revela profundamente resiliente e, após décadas, encontra um ‘bom selvagem’ para chamar de seu, Sexta-Feira que sequer ganha um nome ou possui voz para contar sua própria história].
Quadrinhos históricos:
– Lady Mechanika, por Joe Benítez. [Série em vários volumes publicada desde 2010. Pertencente ao gênero de fantasia steampunk e ambientada em um universo vitoriano alternativo, a obra combina elementos de ficção científica, mistério e aventura. A protagonista tem ‘melhorias’ corporais cibernéticas e age como detetive para a resolução de crimes nesse universo alternativo, recheado de invenções retrofuturistas, emulando um tipo de racionalismo iluminista. O visual da personagem foi inspirado em Kate Lambert (conhecida profissionalmente como ‘Kato’), modelo, estilista, cantora e empresária britânica].
– O Mundo de Sofia em Quadrinhos, dois volumes, por Nicoby e Vincent Zabus, 2023-2025. [Adaptação para os quadrinhos do romance de Jostein Gaarder].
– Voltaire Apaixonado (2017) e Voltaire (muito) Apaixonado (2019), por Clément Oubrerie. [O primeiro volume apresenta Voltaire, com vinte e quatro anos e recém-saído da prisão da Bastilha, quando já triunfava no teatro com sua primeira peça, a tragédia Édipo. Ao final de uma apresentação, o jovem autor foi conduzido, sob aplausos da plateia, ao camarote da Duquesa de Villars, que desejava conhecê-lo. Este foi o início de um caso intenso e avassalador que levaria o futuro filósofo a experimentar todas as emoções possíveis. O segundo volume, se inspirando em fatos reais, Oubrerie conta a história conturbada e muitas vezes cômica de Voltaire e Emilie du Châtelet: dois amantes fora do comum. Após vinte anos de decepções amorosas, pensando ter chegado ao fim de sua existência, Voltaire conhece Émilie du Châtelet. Superdotada, fantasiosa e matemática, amante dos jogos de azar, ela não tem igual em fanfarronices e metafísica. Um encontro elétrico!].
– X-Men, por Stan Lee e Jack Kirby, vol. 1, nº. 1-11, 1963-1965. [Fenômeno atual da cultura pop, a equipe de mutantes nasceu em 1963, sob a orientação do Professor Charles Xavier, o ‘Professor X’, com cinco integrantes adolescentes: Ciclope, Jean Grey, Homem de Gelo, Anjo e Fera. Dotados de superpoderes, precisavam de orientação para ajudarem a humanidade e conseguirem ser aceitos. Discursos sobre a importância da razão no uso dos poderes, o convencimento racional no diálogo com pessoas preconceituosas para que possam ser iluminadas com argumentos que lhe destituam desse ódio e análise sobre o clima de Guerra Fria nos anos 1960 são apenas algumas das temáticas presentes nas primeiras edições dessa série de quadrinhos].
Obras históricas:
– A Filosofia do Iluminismo, por Ernst Cassirer, Unicamp, 1997. [A obra defende que o Iluminismo não se resumiu à exaltação da razão pura, mas sim ao uso da razão como ferramenta crítica para compreender e transformar todos os campos da experiência humana. Cassirer analisa como esse “século filosófico” aplicou seus métodos à ciência, à religião, à história, ao direito e à estética, buscando a autonomia do sujeito. O livro mostra a passagem de uma filosofia de sistemas para uma filosofia crítica do conhecimento, valorizando a observação e a análise dos fenômenos].
– A invenção dos direitos humanos, por Lynn Hunt, Companhia das Letras, 2009. [A obra investiga como os direitos humanos, tidos como “auto-evidente” nas declarações do século XVIII, são na verdade produtos de profundas transformações culturais e emocionais. A obra analisa o paradoxo de sociedades baseadas na desigualdade terem proclamado a igualdade universal, partindo de três documentos centrais: as declarações americana (1776), francesa (1789) e Universal de 1948. Sua tese inovadora é que a difusão dos romances epistolares no século XVIII ensinou os leitores a sentir empatia por personagens diferentes de si, criando as bases psicológicas para a noção de que todos merecem direitos. Hunt relaciona ainda a nova sensibilidade sobre o corpo com a invenção desses direitos e demonstra como a reivindicação de direitos universais desencadeou uma “cascata” de novas demandas por parte de minorias religiosas, mulheres e escravizados, expondo contradições que persistem até hoje].
– Iluminismo como negócio, por Robert Darnton, Companhia das Letras, 2021. [O livro investiga a difusão das ideias iluministas a partir de sua materialidade. Longe de focar apenas nos grandes filósofos, Darnton analisa o “lado comercial” do saber, utilizando arquivos inéditos de editores do século XVIII. A obra reconstrói a aventura editorial da Enciclopédia de Diderot e d’Alembert após 1775, mostrando como livros eram produtos do trabalho artesanal, objetos de troca econômica e veículos de ideias. O autor revela o papel de editores, contrabandistas e vendedores na circulação do conhecimento e expõe um duplo paradoxo: foram as camadas altas da sociedade, e não a burguesia, que primeiro abraçaram as novas ideias, e o Estado que inicialmente as suprimiu acabou por favorecê-las].
– O grande massacre de gatos, por Robert Darnton, Paz e Terra, 2014. [Através de ensaios sobre eventos aparentemente banais ou bizarros, como o ritual massacre de gatos por tipógrafos parisienses, o autor analisa símbolos, valores e atitudes de diferentes camadas sociais. Darnton propõe uma “etnografia da França iluminista”, interpretando contos de fadas, relatos policiais e enciclopédias para compreender visões de mundo distantes da nossa. O livro demonstra como rituais e narrativas revelavam tensões sociais, resistência simbólica e sistemas de significado próprios de artesãos, burgueses e camponeses].
– Utopia e Reforma no Iluminismo, por Franco Venturi, EdUSC, 2003. [O autor parte da tradição republicana para analisar como os filósofos lidavam com o dilema entre construir sociedades perfeitas (utopia) e promover mudanças práticas nas instituições (reforma). Venturi concentra-se no debate sobre o “direito de punir” para cristalizar esse conflito, mostrando que muitos pensadores concluíram que um sistema social injusto exigia leis penais severas, inviabilizando a verdadeira reforma. A obra destaca a influência do radicalismo inglês e rejeita interpretações marxistas, preferindo analisar as relações concretas dos indivíduos com a política de seu tempo].


