Durante nossas vidas, músicas e literaturas atravessam as nossas encruzilhadas, impactando-nos de diferentes maneiras, trazendo importantes reflexões e influenciando o nosso olhar sobre o mundo, A música Ain’t Got No/i Got Life (MacDermot, 1968), gravada por Nina Simone, em 1968, retrata a crueldade do imperialismo ao tentar destituir o sujeito negro de si e de toda a humanidade construída em África. Entretanto, apesar das inúmeras formas de violência, Nina Simone destaca diversos elementos que ninguém pode tirar do corpo negro, como as suas memórias vistas, ouvidas, e vividas, uma vez que estas permanecem latentes e pulsantes no espaço do corpo, significando o nosso ser e o nosso estar no mundo.
Mesmo após as inúmeras tentativas de apagamento, as vozes negras permanecem ecoando, tornando visível o que durante muito tempo foi ocultado pelo século das luzes: a história preta das coisas, suas narrativas, encruzilhadas e estratégias construídas em diversas espacialidades. Por isso, defendemos a concepção de espaço, conceito-chave da Geografia, como algo em constante construção, atravessado por disputas e vivências que refletem diferentes construções, concepções e vivências, ecoado a partir de narrativas.
Diante das disputas anteriormente citadas, neste material buscaremos lançar os holofotes sobre os zungus, espaços situados na área central da Cidade do Rio de Janeiro, responsáveis pela reterritorialização de elementos afro-diaspóricos e pela preservação da memória negra, ou seja, elementos que davam significado a essas existências. Cabe ressaltar que embora os corpos negros fossem vistos como primitivos e sinônimo de atraso, estes, no processo de reterritorialização, criaram estratégias que driblaram a vigilância da branquitude e mantiveram vivas as riquezas que cruzaram o Atlântico Negro.
Durante a segunda metade do século XIX, os corpos negros eram considerados importantes elementos constituidores da paisagem urbana da cidade do Rio de Janeiro. Apesar de presentes no cotidiano da cidade, a cor da pele adquiriu o caráter de fronteira entre humanos e não humanos, aprisionando o sujeito negro em seu próprio corpo. Ao ser simbolicamente encarcerado, a perda da liberdade será experienciada nas diversas espacialidades vividas por este corpo. Em outras palavras, ao ser “transformado em animal” (Césaire, 1978, p. 24), e ter o seu status de humano cerceado pelo colonizador, o/a sujeito/a negro/a é transformado em um mero instrumento de produção ou corpo de exploração, conforme aponta Mbembe (2014).
Ao ser violentamente destituído de sua humanidade e ter uma identidade forjada e, ao mesmo tempo, imposta ao seu corpo, o/a negro/a, contra a sua vontade, torna-se o receptáculo de tudo que lhe fora imposto socialmente. Ao mesmo instante que o corpo negro faz parte da paisagem, ele é completamente apagado da memória urbana. Esse movimento, estrategicamente arquitetado pela branquitude, desconsidera a “pluralidade de significados no tecido urbano” (Gomes, 2013), uma vez que reproduz o espaço a partir de uma narrativa única e hegemônica, a partir de um ser universal pré-definido.
Ao reconstituirmos o espaço a partir de uma epistemologia afro-diaspórica, inevitavelmente tensionamos o discurso dominante, questionamos os pressupostos da modernidade e descortinamos as espacialidades negras que compuseram a paisagem da área central da cidade do Rio de Janeiro, no século XIX. Nesse sentido, ao abordar os zungus e trazer à tona toda a riqueza afro-diaspórica a partir do caleidoscópio geográfico, nos propomos a pensar o espaço a partir de narrativas que não compuseram as notas da canção colonial.
No livro intitulado Perceber o [in]visível: Dimensões Sensíveis de um Corpo na Arquitetura, Rodrigo Gonçalves dos Santos (2018, p. 22) toma “emprestadas de Italo Calvino as cidades invisíveis por entender que a cidade é um espaço no qual o corpo interage”. Ao trazer o pensamento de Ítalo Calvino para o debate, pode-se afirmar que a relação corpo e espaço pode revelar inúmeras formas de existir, pois “a existência seria uma ação espacial permanente” (Lussault, 2015, p. 34). Ao criar os zungus, os corpos negros, além de estabelecerem estratégias de sociabilidade, mantêm heranças que cruzaram o Atlântico Negro e permaneceram significando a sua existência. Nesse sentido, Farias et al (2006, p. 84), ao abordar as espacialidades negras no século XIX, afirma que zungu
era de um tipo de moradia, para onde convergiam homens e mulheres negros. E igualmente constituía um espaço de invenção de práticas culturais prontamente reprimidas se praticadas à luz da lua. Um esconderijo, um reduto bem protegido na imensidão de corredores e becos dos labirintos urbanos. Para onde convergiam silenciosamente centenas de africanos, escravos, pardos mulatos, libertos, crioulos e pretos. Em busca de amigos, festas, deuses, esperanças…
Através dos zungus, observa-se a elaboração de estratégias e a impressão de marcas que se efetivam no espaço, “uma vez que cidade não é o palco da igualdade social, onde as pessoas obtêm acessibilidade semelhante sobre qualquer aspecto da vida coletiva (Campos, 2013, p. 241). Essas marcas traduzem o desenvolvimento de práticas que denotam as experiências urbanas, uma vez que estas refletem a corporeidade dos corpos negros. Ao driblar os dispositivos de opressão, pode-se afirmar que os zungus simbolizavam a representação do espaço a partir de uma concepção de mundo que desafiava os cânones da modernidade. Assim, caro leitor, você pode constatar que a cidade pode ser observada como o receptáculo da simultaneidade de histórias, o espaço da multiplicidade de vivências e trajetórias (Massey, 2008).
Diante do negacionismo vivenciado pela sociedade brasileira em um período muito recente, observa-se a necessidade de pensar o espaço a partir de uma perspectiva plural. Nesse sentido, dar visibilidade aos Zungus simboliza um importante passo para rompermos com o negacionismo e, consequentemente, com as imagens negativas forjadas pelas ideologias racistas. Reconstruir novas imagens, retratar os espaços de existência negra, trazendo à luz as suas riquezas, revelam a Geografia como uma ciência capaz de libertar da alienação, da negação de suas humanidades, os corpos que em pleno século XXI permanecem aprisionados na cor da sua pele (Nogueira, 2021).
A Figura 1, publicada no livro Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil, pelo francês Jean Debret (1940), tem como cenário a Praça XV de Novembro, situada na área central da cidade do Rio de Janeiro. A imagem pictórica retrata o cotidiano de escravizados negros vendendo guloseimas no Largo do Paço, local de encontro da classe média e do pequeno capitalista, conforme afirma o supracitado autor. Um tanto singular se observar que os corpos negros faziam parte do cotidiano da principal parte da cidade ao longo de grande parte da história do país, tanto no período colonial como também no período imperial e chegando, inclusive, na Velha República dos barões do café. Embora a maioria dos corpos negros fossem escravizados, Santos (2015, p. 109), destaca a constante locomoção dos escravizados de ganho, pois estes escravizados é que “trabalhavam em profissões artesanais com certa liberdade e obrigação de entregar ao senhor, periodicamente, certa quantia”. Além dos escravizados presentes no cotidiano da cidade do Rio de Janeiro, também destacamos uma “ponderável franja de homens negros livres – os pretos forros das devassas e crônicas coloniais” (Santos, 2015, p. 108).

A partir da presença considerável de corpos pretos na área central da cidade do Rio de Janeiro, pode-se afirmar que “a cidade tem cor, ou melhor, cores”, conforme aponta Berth (2023, p. 115). Destacar a presença da população negra no cotidiano da cidade, representa valorizar a importância política e social do espaço (Lussault, 2015). Assim, pensá-lo de forma múltipla, sublinhando a relevância de espacialidades ainda pouco estudadas pela geografia, nos conduz a pensarmos o espaço como de fato ele é, não como aquele representado no imaginário da branquitude, pois pensar o espaço é resgatar o cenário fiel dos seus contornos, uma vez que ele reflete as diferentes corporeidades que o compõem (Berth, 2023).
Nessa mesma direção, para nós, compreender o espaço a partir de narrativas subalternizadas, simboliza uma tentativa de resgatar a sua importância política e social para a população negra, pois, conforme apontamos anteriormente, existir simboliza uma ação espacial permanente. Em outras palavras, conforme afirma Campos (2013), é necessário compreender o espaço a partir da atuação de diferentes sujeitos, uma vez que a perda da representação torna o sujeito sem existência. Segundo Romero (2018, p. 107),
o passado das cidades enquanto força em meus percursos não se confunde com o obsoleto, pois é um passado que está VIVO, nas lutas que se travaram e reverberam ainda no presente, apesar de soterradas nos registros épicos, monumentais e, também, debaixo do solo.
Debater sobre o passado, pressupondo que as cidades foram planejadas a partir de ações eugenistas, desconsiderando a existência de representações afro-brasileiras que conseguiram resistir a inúmeras tentativas de apagamento, representa redesenhar e apresentar novos contornos do futuro. Para os autores, tal ato pode ser considerado um ato de coragem intelectual e a possibilidade de considerar mãos e pés que sangraram e contribuíram para a construção da cidade. Nesse sentido, resgatar os Zungus simboliza descortinar espacialidades negras, que momentaneamente foram capazes de secundarizar as fronteiras étnicas e agregar a população negra marginalizada. Para Farias et al (2006, p. 92),
o zungu tornou-se um espaço (podemos citar outros, como os quilombos suburbanos e as irmandades que veremos) onde as fronteiras étnicas urbanas foram relidas, interpretadas e modificadas por aqueles que chamamos genericamente de africanos ou crioulos. Um local de encontro, de troca, de solidariedade, onde a fronteira étnica podia ter, momentaneamente, pouca importância como fator de cizânia. Assim, damos uma nova interpretação do significado maior do zungu para a população africana urbana. Talvez a imagem generalizada da resistência fosse tão importante como trocar, compartilhar, solidarizar-se, mesmo sabendo que esses atos tinham um forte impacto subversivo na visão das autoridades.
Em consonância com citação, salientamos que os zungus possuíam diferentes usos e a eles eram atribuídos diferentes sentidos, pois enquanto continuidades, ambivalências e configurações atlânticas (Soares e Gomes, 2001), representavam espaços de resistência, de construção de laços e perpetuação de vínculos contra o chicote do colonizador. Em outras palavras, os zungus constituíam territórios sociais, políticos, culturais e religiosos, conforme afirma Soares (1998).
A “Geografia do olhar”, proposta por Gomes (2013, p. 52), pode ser considerada uma importante ferramenta para tornar possível a compreensão das coisas visíveis e não visíveis em um determinado recorte, pois “as desigualdades foram planejadas e articuladas com certo esmero, talvez no intuito para delinear a sociedade exatamente como a conhecemos hoje” (Berth, 2015, p. 118). Enxergar o espaço como ele é, significa chamar à existência os zungus e demonstrar que os corpos de origem africana sempre estiveram presentes na área central da cidade do Rio de Janeiro e adaptaram as suas moradias à política vigente no espaço urbano. Entretanto, isso não descarta a contínua condenação imputada aos corpos negros. Como exemplo, pode-se observar o pequeno soneto (B. Actriz, 1881) publicado a pedido e assinado por B. Actriz, um provável pseudônimo, e publicado no periódico carioca Corsário: Periódico Crítico, Satyrico e Chistoso¹, em 16 de julho de 1881, à página 3:
Já não tens mais honradez,
Pódes ir para um zungú
Com os pretos comer angú
Já não tens mais honradez.
Um soneto tens por mez
Para sovelar-te o c…
Já não tens mais honradez,
Pódes ir para um zungú
De acordo com a publicação, a racialização do espaço era uma estratégia para estabelecer fronteiras sociais e espaciais internas (SODRÉ, 2023). Elementos como a moral, a honradez e a dignidade foram completamente retiradas dos espaços considerados inferiores, conferindo ao corpo negro o status de não-sujeito. Delinear o espaço a partir de uma única narrativa, torna o espaço relacional, configurando um negacionismo socioespacial.
Os editores do supracitado jornal, sabendo que os zungus tinham a “função de ocultar a sociabilidade negra dos olhares brancos” (Farias, 2006, p. 83), enfatizam de modo obtuso, para qualquer pessoa supostamente sem honradez: “pódes ir para um zungú, com os pretos comer angú”. A mensagem publicada não retrata a realidade dos zungus e, mais que isso, demonstra a incapacidade de enxergar que “esses locais, originalmente espaços de comensalidade e socialidade, tiveram papel decisivo na manutenção de uma identidade africana em diáspora e auxiliaram na formação de quilombos ou de processos de fuga de cativos negros” (Pereira, 2015, p. 329).
O angú, segundo Soares (1988, p. 32), pode ser considerado o elemento crucial que levou à formação dos zungus, casas que ofereciam angu, pois a comida oferecida aos escravos era de má qualidade e muitas vezes escassa. O comer angu funcionava como “justificativa importante para se encontrarem, se socializarem, trocarem experiências e, por que não, reabastecerem velhas lembranças da terra natal distante”. Para Fanon (2008, p. 122), ao contrário do que a branquitude defende, ao estabelecer estratégias para sobreviver em uma terra distante, observa-se que
não sou uma potencialidade de algo, sou plenamente o que sou. Não tenho que recorrer ao universal. No meu peito nenhuma probabilidade tem lugar. Minha consciência negra não se assume como falta de algo. Ela é. Ela é aderente a si própria.
Resgatar as espacialidades negras através dos zungus simboliza enxergar o espaço a partir de outras narrativas, de modo a não aceitar o projeto urbano eugenista defendido e aplicado pela branquitude, pois conforme Le Breton (2019), por mais que o indivíduo habite seu corpo em consonância com as propostas sociais e culturais hegemônicas que são impostas, ele as remaneja de acordo com suas histórias pessoais. Dessa forma, o corpo negro no século XIX, fruto da diáspora africana, assume-se a partir da sua própria existência e modela o espaço, sem recorrer ao universal, mas mantendo vivas as heranças que cruzaram o Atlântico Negro.
O ecoar da voz, o som dos tambores e as expressões corporais, mesmo que desprezadas pela racionalidade vigente, construíram espaços de subversão que resistiram duramente ao que Muniz Sodré (2023) denominou de fascismo de cor. Assim, olhar o século XIX a partir das narrativas negras nos conduz à reflexão de que “uma estória é construída também pela maneira como se organizam pessoas, coisas, comportamentos em espaço” (Gomes, 2013, p. 30-31). Para pensarmos o espaço em sua totalidade, considera-se relevante pensar as pessoas e os seus comportamentos de forma ampla, que abarque o conjunto de realidades que somados resultam em uma totalidade espacial.
Ao longo o texto, buscou-se apresentar os zungus como espaços de convergência, nos quais os corpos negros superaram as fronteiras étnicas e estabeleceram estratégias que mantiveram vivas diversos elementos simbólicos da diáspora africana. Nesse sentido, buscou-se apresentar a construção do espaço a partir de uma outra ótica, atravessada por epistemologias afro-brasileiras.
Ainda há um longo caminho a percorrer. Assim, o presente artigo nada mais é do que um pontapé inicial para que possamos [re]construir o espaço a partir de narrativas negras, de modo a gerar orgulho e pertencimento aos que estão por vir. Até aqui a estrada tem sido pavimentada por geógrafos que vieram antes de nós, esperamos apenas contribuir para que novos trabalhos surjam e o saber geográfico cresça a partir de narrativas subalternizadas. O corpo objeto resolveu deixar de ser objeto e tornar-se sujeito das suas narrativas e das suas espacialidades.
NOTA
¹ O autor optou por manter a ortografia original presente no nome do jornal e na mensagem publicada, assim como nas demais que se seguem ao longo do artigo em tela.
REFERÊNCIAS:
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Cite e compartilhe:
PIMENTEL, Ivan Ignácio. Zungus: As espacialidades e vivências negras na cidade do Rio de Janeiro durante a segunda metade do século XIX. Revista LEPHIS, vol. 1, n. 1. Disponível em: https://lephis.com.br/artigos-vol-1/. Publicado em: 30 set. 2025. ISSN: 3086-3597

Ivan Ignácio Pimentel
Docente de Geografia no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro, IFRJ, campus São Gonçalo.


