Trilhas da História, vol. 2

Quando a música passou a fazer parte da nossa vivência humana? Não saberia dizer. Talvez apenas a Lucy fosse capaz de responder esta questão. Aquela personagem de Scarlett Johansson que dá nome ao filme de Luc Besson, produzido em 2014. Graças aos efeitos de uma poderosa droga, Lucy obteve enormes poderes e, dentre eles, a capacidade de acessar o tempo, qualquer instante em toda a existência do universo. É provável que ela conseguisse observar o momento exato em que nossas habilidades humanas tenham alcançado um feito extraordinário: a produção de melodias, harmonias, sons que, até hoje, nos provocam experiências sensoriais incríveis, por vezes únicas, outras tantas em conexão com uma quantidade imensa de pessoas.

Mesmo sem possuir os dons de Lucy podemos acessar nossas mais profundas memórias, aquelas que conformam nossa existência, através do contato com determinadas músicas. Quantas lembranças não são mobilizadas a cada batidão, acorde ou palavras que pulsam ao ritmo de uma canção que nos soa como uma velha e querida conhecida? Essas recordações chegam até mesmo a grudarem em nossa cabeça – ativadas por algum episódio cotidiano – e lá estamos cantarolando aquela canção até então esquecida, cuja letra ou melodia nos escapa, mas que reside no fundo do nosso ser, pronta pra emergir e produzir um turbilhão de emoções que a música é bastante capaz de provocar. Além disso, esse bem cultural possui um enorme potencial didático.


Sem dúvidas que há diversos caminhos pedagógicos que podem ser trilhados quando se toma a decisão de trabalhar didaticamente com a música em sala de aula. Nunca é demais dizer que as ideias a seguir podem até ser encaradas como uma espécie de ‘receita’, mas apenas no sentido deveras subversivo: aqui você encontrará algumas indicações, mas adapte cada passo, cada ingrediente ao contexto de sua vivência. Esses apontamentos são provocações, experimentações testadas, mas não são prescrições paradigmáticas. Considere o que achar relevante. Ignore aquilo que achar sem sentido. Trilhe outros percursos. Esse conjunto de ideias é um convite ao diálogo entre música e história, mas se trata também de defender a potencialidade das canções em sala de aula, seja como fonte, objeto de estudo ou recurso didático.


Para começar, não podemos nos esquecer de que há vários elementos presentes em cada produção musical. Linguagem, melodia, ritmo, visões de mundo, posicionamentos políticos, presença de instrumentos musicais variados, associação a gêneros musicais etc. Parece uma informação tão óbvia que tenho receio de aparentar estupidez nesse pequeno apontamento. Entretanto, será que você se lembra dos momentos em sala de aula quando alguma música lhe foi apresentada para ser analisada? A audição da música fez parte desse processo? Houve comentários sobre algo além dos versos dessa canção? Só me cabe imaginar alguma resposta, induzido pelas minhas experiências estudantis: costumava receber a cópia impressa da música e, raramente, havia o momento de execução para a turma acompanhar. Nesse sentido, talvez valesse a pena assumir que analisar apenas os conteúdos da letra dispensa a própria escuta da canção. Não significa que algo assim não possa ser feito, porém é possível avançar sobre outras camadas de compreensão em torno do universo musical.


A audição promove estímulos a outros sentidos. Essa dimensão sensível da música agrega sensações que ultrapassam a dimensão objetiva. Rimas, instrumentos, a relação entre letra e melodia são elementos que se conectam a impulsos subjetivos. Ainda que a música sob análise seja bastante conhecida, cada estudante tem uma vivência única e sua experiência diante daquela canção é distinta, não podendo ser ignorada essa condição específica na avaliação docente. Quem sabe essa percepção lhe ajude a provocar uma curiosidade epistemológica no corpo estudantil e uma primeira aproximação com a temática música e história? Solicite que cada pessoa da turma escolha uma música que a toque profundamente – aquela canção que a faz se sentir representada e dialoga diretamente com a sua vivência. Peça que ela imagine ser a responsável pela criação dessa obra musical e que, por isso, formule tanto o perfil de sua personalidade artística (elaborando a forma como gostaria que o mundo a visse) quanto umas poucas linhas que descrevessem as razões para compor uma música tão fabulosa.


Outra possibilidade é utilizar um roteiro de análise com apontamentos que ajudem a compreender uma produção musical em sua dimensão técnica, analítica e crítica. Apresentamos um exemplo possível a seguir.


1 – Apresente os dados técnicos da obra musical para uma melhor compreensão do seu contexto histórico: a) autoria e perfil de quem interpreta a canção; b) condições de produção desta obra; c) época e localidade de sua produção; d) instrumentos musicais utilizados; e) gênero musical. Essas informações podem ser encontradas em sítios eletrônicos, bases de dados online ou em plataformas de streaming musical.


2 – Imagine que você recebeu um convite para escrever uma breve crítica musical sobre uma canção. Para realizar essa tarefa você fez algumas escolhas: a) indicar as sensações e imagens que a música desperta ao ouvi-la; b) qual o perfil do público que deveria ouvir tal música; c) mostrar que há versões diferentes da música e como elas são diferentes ou semelhantes entre si; d) qual o estilo da interpretação dessa música.


3 – Faça uma análise de aspectos que revelem as ideias presentes na obra musical: a) apresente a visão de mundo que sustenta a mensagem dessa obra musical; b) descreva um verso/uma melodia/um trecho que mais lhe provocou impacto, indicando a razão; c) justifique se o título da obra condiz com o seu conteúdo; d) demonstre uma relação possível entre as ideias presentes no momento em que a música foi produzida e a época em que ela foi ouvida por você.


4 – Concentre sua atenção para realizar uma leitura crítica da canção: a) destaque um ponto positivo e um aspecto negativo da música – justificando a escolha; b) avalie se a canção pode ser usada para compreender um tema histórico e quais ideias históricas estão associadas a ela; c) avalie, criticamente, quais elementos sociais, políticos e do cotidiano estão presentes na música; d) defenda, com argumentos, qual a principal mensagem que a canção se esforçou em transmitir; e) pesquise e explique como foi o contexto de circulação da música.


Esse conjunto de questões visa, no final das contas, investigar o quanto essas canções estão conectadas a dimensões que a história costuma debater em salas de aula do país. Não é necessário usar músicas como se fossem meios para memorização e interpretação concreta de certos acontecimentos. Podemos percorrer outras trilhas dessa história, já que a arte é uma das formas de tomar consciência do mundo. Entre mudanças e persistências, há tantas contradições deste mundo que as canções refletem. Quais caminhos devemos escolher? Aí vai depender do ritmo que te cativar.

REFERÊNCIAS:

ABREU, Martha; DANTAS, Carolina V. Música popular, identidade nacional e escrita da história. Textos escolhidos de cultura e arte populares, Rio de Janeiro, v. 13, n. 1, p. 7-25, mai. 2016.

ABUD, Katia M. Registro e representação do cotidiano: a música popular na aula de história.
Cadernos Cedes, Campinas, v.25, n.67, p.309-317, set./dez. 2005.

BARROS, José D’Assunção. História e música: considerações sobre suas possibilidades de interação. História & Perspectivas, Uberlândia (58); 25-39, jan./jun. 2018.

FONTES, Virgínia. Música popular e política no Brasil – Chico Buarque de Hollanda, poesia e política. Em: _____. Reflexões im-pertinentes: história e capitalismo contemporâneo. Rio de Janeiro: Bom Texto, 2005, p. 233-270.

MORAES, J. Jota de. O que é música. São Paulo: Brasiliense, 1983.

NAPOLITANO, Marcos. et al. Linguagem e canção: uma proposta para o ensino de história.
Revista Brasileira de História, São Paulo, v. 7, n. 13, p. 177-188, 1987.

SOARES, Olavo Pereira. A música nas aulas de história: o debate teórico sobre as metodologias de ensino. Revista História Hoje, v. 6, nº 11, p. 78-99 – 2017.

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