Um grande aperto de mãos: mercado e Estado na crise capitalista de 1929

Rafael Brasil (docente, História – IFRJ-CAC)
Poucas coisas são tão universais quanto as fábulas. Difícil imaginar alguma criança, em alguma parte do mundo, que não tenha roído as unhas, esboçado um sorriso de canto de boca, cerrado os olhos ou apertado o que estivesse à mão para segurar a ansiedade durante a contação de alguma história fabulosa recheada de elementos fantásticos e pedagógicos. No entanto, nem todas as fábulas conseguem nos cativar desta forma e, ainda assim, seguem sendo repetidas incansavelmente. Você já deve ter ouvido falar sobre uma suposta ‘mão invisível’ do mercado, não é? Essa crença incondicional de que o mercado pode se regular, exclusivamente por conta própria, é uma ideia com grande poder de circulação desde tempos mais antigos da história do capitalismo. É um dogma que permanece influente. Em um episódio da série Choque de Cultura, produção cômica brasileira, o personagem Julinho da Van está sendo ameaçado por um agiota (ou investidor?) e tudo que lhe resta é pedir que sua avó solicite um novo empréstimo bancário para saldar suas dívidas. Em sua justificativa lá estava o cerne da fábula liberal:
“Um empreendedor de verdade, ele não perde a tranquilidade diante de um momento de crise. Mas, o meu medo era minha avó achar que a culpa era minha e não da mão invisível do mercado, porque a mão invisível do mercado… às vezes ela dá um soco bem no meio da tua cara. E minha vó já tem uma certa idade e ela não entende esses conceitos de marketing e nem tem estrutura física também pra tomar um soco na cara”.
Este texto não é sobre socos na cara, avós ou a invisibilidade dessa ‘mão do mercado’, mas, de alguma forma, tenta lidar com aspectos fundamentais da grande crise mundial de 1929. Para tanto, vamos abordar como historiadores e economistas elaboraram explicações sobre a Grande Depressão, na expectativa de que forneçam pistas analíticas para compreendermos as crises econômicas no interior do sistema capitalista. Isso se não formos golpeados por alguma ‘mão’ mais ríspida e pouco afeita a zombarias com o credo alheio.

Fonte: Google Imagens.
Correndo o risco de não parecer original, comecemos pelo início: a conversão dos EUA em principal potência capitalista nas primeiras décadas do século XX. Para aquelas pessoas com menos de 80 anos pode parecer improvável que os EUA tenham sido, certa feita, um país com uma enorme dívida externa e profundamente dependente de capital estrangeiro para desenvolver sua economia nacional. Muitos desses capitais atraídos pelos EUA vinham da sua antiga metrópole, a Inglaterra. Um traço marcante da expansão imperialista inglesa esteve associado à enorme lucratividade obtida com o volume de investimentos despejados em diferentes países, garantindo direitos sobre ativos econômicos e receitas futuras. Apenas para termos uma certa noção da grandeza que essa extração de riquezas assumiu, é possível afirmar que “entre 1850 e 1914, o investimento externo e os empréstimos de longo prazo aos Estados Unidos somaram um total de US$ 3 bilhões. Mas, durante esse mesmo período, os Estados Unidos fizeram pagamentos líquidos de juros e dividendos, em sua maior parte à Grã-Bretanha, num total de US$ 5,8 bilhões” (Arrighi, 2009, p. 278). O crescimento da dívida externa estadunidense, nesse período, foi multiplicado por quase 18 vezes: indo de US$ 200 milhões (1843) para US$ 3,7 bilhões (1914).
Eis que a Grande Guerra, 1914-1918, se inicia e tudo se modifica. Durante esse conflito, e, sobretudo, após, os EUA passaram de devedores a credores mundiais, tendo a receber da Europa cerca de US$ 13 bilhões. Os britânicos perderam quase 25% de todos os seus investimentos globais durante a guerra, entre empréstimos e liquidações. Parte considerável dessas rendas foi gasta na aquisição de suprimentos para a guerra (armamentos, máquinas e matérias-primas) fornecidos pelos EUA, um dos principais centros de produção industrial do planeta graças, em especial, aos investimentos feitos exatamente pela Inglaterra. A demanda por materiais bélicos consumiu os créditos ingleses nos EUA e, pior, fez com que o país europeu cedesse, dessa vez, enormes fatias de seus ativos nacionais para os estadunidenses. Encerrada a guerra, os EUA haviam saldado seus débitos anteriores por preços rebaixados e acumulado imensos créditos junto ao continente europeu. A balança se inverteu por completo.
Nada disso seria possível sem o desenvolvimento industrial alcançado pelos EUA antes da Grande Guerra. Novos modelos de produção em massa, fordismo e taylorismo, contribuíram para que o país atingisse números impressionantes na escala de produção fabril. Outra mudança significativa se deveu ao processo, cada vez mais comum, de concentração empresarial. Se consideramos apenas um período de dez anos (entre 1919 e 1929), mais de mil fusões corporativas ocorreram em território estadunidense, rebaixando o número global de postos de trabalho e, concomitantemente, expandindo a produtividade dos novos conglomerados industriais.

Durante a guerra os preços agrícolas atingiram patamares bem elevados e muitos produtores passaram a se endividar para obter créditos que lhes permitissem adquirir cada vez mais terras e maquinários agrícolas. Após os acordos de paz houve uma queda acentuada dos preços agrícolas, elevando o montante de estoques e rebaixando ainda mais o número de empregos. Este cenário provocou uma quebradeira significativa entre os pequenos e médios produtores, atolados em dívidas e sendo alvos permanentes de cobranças das hipotecas. Bancos menores, dependentes da saúde econômica local em que estavam inseridos, também sentiram os efeitos e uma onda relevante de falências os atingiu no início dos anos 1920. No início da década, pequenos bancos, sobretudo aqueles ligados ao crédito rural, mais defasado, começaram a falir, com uma média de 600 falências por ano, entre 1921 e 1929.
O fundo do poço ainda era mais profundo, pois o desemprego industrial e agrícola foi intensificado graças à inserção gradual e constante das máquinas nesses setores. Nada disso fez com que o ritmo da produção industrial regredisse, ao contrário, se expandiu ainda mais e o “valor dos produtos manufaturados subiu cerca de 10 bilhões de dólares entre 1923 e 1929”, entretanto “o aumento dos salários não foi além de 600 milhões” (Marques e Collart, 2000, p. 26). Isso foi apenas um dos sinais de que algo não ia bem nas terras do Tio Sam. A crise econômica de 1920-1921 atingiu os EUA e condicionou as disputas políticas em torno da presidência do país. O republicano Warren G. Harding (1921-1923) se elegeu prometendo “um período na América com menos governo nos negócios e mais negócios no governo”. Morreu pouco tempo depois de assumir o mandato, mas seu vice-presidente, Calvin Coolidge (1923-1929), exerceu o comando do país e manteve as diretrizes tarifárias que dificultavam as importações e implantou medidas de desregulamentação estatal sobre a economia. Foi reeleito e se manteve no cargo inspirado no lema de que ‘o principal negócio dos EUA são os negócios’.

No entanto, havia dificuldades para que esta atividade central prosseguisse. As mesmas tecnologias de guerra responsáveis pela acumulação colossal de recursos nas relações comerciais internacionais produziram impactos no interior da sociedade estadunidense. Tratores e caminhões rasgavam os campos, aumentando a produtividade e barateando a produção agrícola, ao custo da expansão do desemprego rural. Novos produtos se tornaram disponíveis para o consumo popular: geladeiras, máquinas de lavar, rádios, ferros elétricos, aspiradores de pó etc. Os carros Ford ganharam as ruas, com modelos mais baratos. Cigarros, novas tendências no campo da moda e na música, a indústria hollywoodiana dos filmes e sua caixa de ressonância para a criação de outros hábitos culturais, além da ocupação de novos papéis sociais graças às lutas feministas. Havia uma enorme geração de ofertas de produtos associados a este novo cenário nacional. Para ampliar os níveis de vendas, todo um mercado nascente de propaganda articulava maneiras de criar e estabelecer hábitos de consumo, se combinando com uma invenção mercadológica dos EUA: a construção de um sistema de pagamentos a prazo, lastreado pelo sistema de crédito fácil já existente no país. Ainda assim, não era todo mundo que poderia participar, graças à queda do salário de real dos trabalhadores e das trabalhadoras e ao aumento do desemprego.

Será que o poder de consumo interno do país teria se tornado incapaz de acompanhar e absorver a capacidade de produção? Verdade seja dita, este é um elemento central nos debates envolvendo as razões para a crise de 1929, posto que historiadores e economistas divergem até hoje sobre as raízes e os sentidos desse evento catastrófico. John Kenneth Galbraith avalia uma série de fragilidades na organização administrativa dos EUA ao longo da década e que permaneceram subestimadas graças ao clima generalizado de otimismo consumista e à crença quase religiosa no crescimento sem limites do país. Os presidentes republicanos dos anos 1920 se orgulhavam por serem políticos que não regulavam, de forma alguma, o “sagrado” mercado, deixando-o à vontade para ser embalado pela ‘mão invisível’. Para o economista, um dos motores da crise se deveu à má distribuição de renda, que limitava a capacidade de consumo da maioria da população estadunidense (Galbraith, 2010).
No campo marxista há diferentes interpretações sobre os motivos da crise, embora exista um certo consenso em torno dos efeitos críticos provocados pelas contradições inerentes ao sistema capitalista. Antes mesmo da Grande Depressão de 1929, diversas tradições marxistas discutiam as crises econômicas no interior do capitalismo, sendo Rosa Luxemburgo e Nikolai Kondratiev duas das figuras mais representativas desse debate. Luxemburgo defendeu que o capitalismo sofreria um colapso sistêmico por conta de sua inviabilidade econômica, graças à tendência irreversível ao subconsumo, enquanto Kondratiev apresentou sua teoria sobre as ‘ondas longas’, ampliando a ideia de Karl Marx acerca das crises cíclicas do capital, em que fases de longa duração de inovações técnicas e expansão do crescimento econômico seriam seguidas por uma outra fase, também longa, de contração (Grespan, 2020). Para autores como Paul Sweezy e Ernest Mandel, a expansão acelerada das forças produtivas durante a década de 1929 nos EUA não encontrou correspondência na capacidade de consumo das classes trabalhadoras, cujo poder aquisitivo permaneceu comprimido, gerando um descompasso entre a capacidade de produção e as possibilidades de aquisição de mercadorias. Em poucas palavras, teríamos uma crise associada ao par superprodução e subconsumo, levando à crônica situação de queda das taxas de lucro (Sweezy, 1982; Mandel, 1985).
Autores ligados à escola austríaca de economia não consideram ter havido qualquer tipo de insuficiência entre oferta e demanda, mas localizam os problemas geradores da crise em ações protagonizadas pela intervenção estatal na economia deturpando as taxas de juros e induzindo, erroneamente, investidores e empresários a destinarem recursos financeiros para projetos insustentáveis em termos de mercado. Ludwig von Mises e Friedrich A. Hayek identificam o Federal Reserve (Fed), o Banco Central dos EUA, como o principal agente nessa desorganização dos preços e, portanto, indutor de comportamentos econômicos inconsistentes com as reais demandas dos consumidores. Em resumo, o Fed teria agido erroneamente ao facilitar artificialmente a expansão de crédito e manipular a taxa de juros para um patamar mais elevado do que o ‘natural’, afinado com o mercado. O excesso de produção se deu por conta dessas informações de péssima qualidade que o governo dos EUA enviou aos empresários (Hayek, 1996; Mises, 2009). Galbraith também atribuiu a má qualidade das informações disponíveis aos investidores como um dos fatores essenciais na geração da crise, já que provocou ‘decisões irracionais’.
Talvez John Maynard Keynes seja o nome mais conhecido dentre todos os economistas que abordaram a crise de 1929. Sua interpretação keynesiana sobre as razões da Grande Depressão destaca a euforia provocada pela especulação na Bolsa de Valores de Nova Iorque, inflada pelo acesso desregulado ao crédito e pela certeza (quase mágica) de que os investidores obteriam graus de riqueza nessa nova sociedade de mercado que estava em ascensão nos anos 1920 nos EUA. Sob as camadas desse otimismo estava um profundo desiquilíbrio provocado pelo alto índice de concentração de renda, inviabilizando qualquer tentativa de absorção da capacidade produtiva do país, que seguia crescente. A ‘mão invisível’ do mercado não era capaz de conduzi-lo a patamares mais elevados de prosperidade. No fundo, Keynes indica que a economia capitalista era incapaz de autorregular-se (Keynes, 1985). O volume de desenvolvimento das forças produtivas nos EUA se deparou com a profunda restrição do consumo por parte de uma população atingida pelos efeitos nocivos da concentração de renda, falta de ganhos salariais e elevação do desemprego graças, contraditoriamente, ao ‘boom’ da economia capitalista. Os lucros obtidos por uma parcela da sociedade foram endereçados para o consumo dessa elite econômica e parte se dirigiu ao mercado acionário (Rossini, 1989-2013).
Precisamos, agora, falar sobre a bolsa de valores. Em geral, são espaços onde se negociam as ações de inúmeras empresas de todos os cantos o mundo. Ações são como ‘papéis’ que as empresas disponibilizam para venda, na intenção de captar recursos financeiros e expandir suas atividades. Se os negócios vão bem, os papéis da empresa se tornam valorizados e seus donos/acionistas lucram; caso contrário, os valores das ações despencam e se inicia uma corrida para que acionistas se desfaçam dos papéis antes que gerem enormes prejuízos. A combinação entre o acesso facilitado ao crédito, um mercado financeiro sem qualquer tipo de regulamentação e as constantes campanhas de incentivo ao investimento em empresas devido ao otimismo do ‘american way of life’ produziram uma febre especulativa e uma fé apaixonada na possibilidade de ganhos fáceis e imediatos na Bolsa de Valores de Nova Iorque. Para se ter uma ideia, esse clima de euforia movimentou uma quantidade astronômica de dinheiro por meio de empréstimos que visavam, sobretudo, o investimento na bolsa. O volume total de empréstimos alcançou a marca de US$ 8,5 bilhões, cifra muito maior do que todo o dinheiro existente no país, cerca de US$ 4,5 bilhões (Hobsbawm, 2002).

Nas eleições de 1928, o candidato republicano, Herbert Hoover, se sentiu à vontade para emitir a seguinte declaração:
“Na América estamos mais próximos do triunfo final sobre a pobreza que qualquer outro país jamais esteve. (…) Ainda não atingimos o objetivo, mas se nos for dada a chance de continuar com a política dos últimos oito anos, brevemente, com a ajuda de Deus, veremos o dia em que a pobreza será banida desta nação” (Hofstadter apud Marques e Collart, 2000, p. 28).
O credo liberal que pregava mercados eficientes e autorregulados seguiu intacto com a vitória presidencial de Hoover. A especulação e o sistema fiscal não encontraram qualquer resistência por parte do governo dos EUA, prosseguindo livres, leves e soltos guiados pela ‘mão invisível’ do mercado. No entanto, outros sinais de que uma crise se aproximava já eram visíveis.
Naquele contexto histórico, não havia regras definidas pela administração federal sobre a capacidade de liquidez dos bancos. Ou seja, não se exigia que os bancos apresentassem garantias para honrar o pagamento em espécie de todos os investimentos que recebiam. A rigor, os bancos davam prioridade ao pagamento de lucros e dividendos de seus acionistas e, dessa forma, comprometiam sua capacidade de liquidez. Os EUA possuíam uma estrutura bancária profundamente fragmentária, com dezenas de milhares de pequenos bancos independentes, ligados a territórios diminutos. Muitos deles enfrentaram dificuldades desde princípios dos anos 1920 por causa dos elevados níveis de inadimplência das hipotecas e dos empréstimos concedidos a produtores rurais fragilizados pela retração dos preços de seus produtos. Sem dinheiro para saldarem suas dívidas, a falência desses agricultores representou a falência de muitos bancos e tal qual um castelo de cartas, “a falência de um banco acabava gerando várias outras, pois os depositantes retiravam seu dinheiro de outros estabelecimentos, o que estimulava o entesouramento e comprometia a capacidade de crédito e investimento da economia” (Rossini, 1989-2013).
Para piorar, muitas instituições bancárias não estavam sob supervisão do Federal Reserve e atuavam à margem das orientações direcionadas aos grandes bancos. Desse modo, “no final da década de 1920 e início da de 1930, era ainda limitado o grau de regulação e controle exercido pelas autoridades monetárias sobre o conjunto dos sistemas financeiros” (Mazzucchelli, 2008, p. 61) e os recursos dos depositantes não eram assegurados por uma legislação federal. Quando a crise se instalou em 1929 não havia lastro para garantir que as pessoas teriam acesso ao dinheiro que haviam depositado. Tal fenômeno voltaria a se repetir na crise capitalista de 2007-2008, mas esta contou com uma profunda intervenção estatal do governo dos EUA para salvar os bancos. Algo impensável segundo os parâmetros do presidente Hoover em 1929.
Galbraith chamou atenção para a instabilidade do sistema bancário e o volume expressivo de dívidas articuladas pela febre em participar do mercado de ações de Nova Iorque e autores marxistas, como Sweezy e Mandel, destacaram o papel deletério provocado por essas bolhas especulativas que sugavam boa parte dos investimentos que deixavam de ser direcionados para o campo da produção. Até mesmo Keynes reconheceu o quanto a ausência do Estado na tarefa de regular o sistema bancário e assegurar níveis de emprego e renda foi essencial para que a crise de 1929 tenha alcançado a dimensão caótica que assumiu. Seria difícil não enxergar tais perturbações, pois nada menos do que 11 mil bancos foram liquidados entre os anos de 1930 e 1933 (Mazzucchelli, 2008, p. 61). A fábula liberal de que a ‘mão invisível’ do mercado seria suficiente para garantir o funcionamento adequado dos negócios, enfrentando até mesmo os eventuais distúrbios, sofreu um profundo baque. Antes da quebra a Bolsa de Valores de Nova Iorque não sabia bem o que era operar em baixa, já que desde março de 1928 o boom do mercado em Wall Street animava seus investidores. “A alta da bolsa não tinha mais correspondência com o aumento dos lucros, mas as aplicações prosseguiam: o futuro das cotações era desenhado com base na trajetória de crescimento precedente, e a alta suscitava a alta” (Rossini 1989-2013). Em 3 de setembro de 1929 Wall Street assistiu sua bolsa alcançar o seu maior índice (Dow Jones): 381,17. A expectativa por altos lucros estimularam os investimentos correntes na bolsa de valores dos EUA, vindos também do exterior.

“Perto do fim de 1928, a alta de Wall Street começou a desviar os recursos dos empréstimos externos para a especulação interna. À medida que os bancos norte-americanos foram cancelando seus empréstimos europeus, a exportação líquida de capitais dos Estados Unidos (…) voltou a despencar” (Arrighi, 2009, p. 282).
No dia 24 de outubro de 1929, quinta-feira, Wall Street teve uma manhã de pânico graças ao volume incomum de ações ofertadas (quase 13 milhões), fazendo com que os preços caíssem a patamares ínfimos. Banqueiros intervieram rapidamente e simularam compras para elevarem artificialmente as cotações. As oscilações seguiram nos dias posteriores. “Na segunda-feira, 28 de outubro, a trajetória de queda foi retomada, e na terça-feira cerca de 33 milhões de títulos foram postos à venda frente a uma procura quase nula. Cerca de 15 bilhões de dólares tinham virado fumaça” (Rossini 1989-2013). O pico da crise vem no dia 29 de outubro, terça-feira, com a desvalorização da bolsa em cerca de US$ 14 bilhões. Depois disso, as ações continuam caindo até 1933. Milhares de bancos declararam falência imediatamente, o Produto Interno Bruto dos EUA caiu para quase metade em 1930, cerca de 25% de toda a população ativa do país ficou desempregada (15 milhões em 120), milhões de pessoas migraram para cidades e o fenômeno do ‘dust bowl’ (série de tempestades de areia e secas) prejudicou ainda mais o centro-oeste do país.
O presidente Hoover pareceu se inspirar premonitoriamente em Hayek e Misses, pois ambos compreenderam, posteriormente, que qualquer tentativa do governo de impedir o ajuste recessivo seria uma intervenção que apenas prolongaria a agonia e postergaria a cura. Entretanto, nas eleições de 1932 o candidato democrata, Franklin Delano Roosevelt, propôs um plano de recuperação oposto ao do republicano: mais intervenção estatal na economia, socorro a fazendeiros e industriais, além dos desamparados, criação de obras públicas para a geração de empregos, imposição de rígidas regras sobre o mercado financeiro, garantias para depósitos bancários. Sua inspiração vinha do economista John Maynard Keynes, defensor do planejamento econômico e da ampliação dos gastos públicos para a garantia de empregos e elevação da renda média. O Estado precisava injetar dinheiro na economia, estimular o consumo através de agências governamentais, rebaixar os juros e assegurar o pagamento de impostos.
A crise se espalhou pelo mundo com graus variados de impactos políticos, econômicos e sociais. Segundo Hobsbawm esse evento econômico afetou a ideia sobre as supostas vantagens que a democracia liberal teria, já que as grandes massas de desempregados produziram imagens aterradoras e
“sem ele, com certeza não teria havido Hitler. Quase certamente não teria havido Roosevelt. É muito improvável que o sistema soviético tivesse sido encarado como um sério rival econômico e uma alternativa possível ao capitalismo mundial. (…) Em suma, o mundo da segunda metade do século XX é incompreensível se não entendermos o impacto do colapso econômico” (2002, p. 91).
A resposta dos EUA (e das economias capitalistas ao redor do planeta) à crise não eliminou as contradições do sistema, mas buscou administrá-las e reconfigurou a organização do sistema capitalista, intensificando os mecanismos de superexploração das periferias globais e aprofundando os laços entre imperialismo e dependência (Marini, 2000). A mão visível do Estado capitalista estadunidense se ofereceu para ajudar a ‘mão invisível’ do mercado. Apesar do programa keynesiano para a recuperação da economia dos EUA, a saída da crise se deu mesmo através da promoção de reformas regulatórias no sistema financeiro e nas estruturas do mercado, por meio da adoção de políticas sociais não vinculadas ao trabalho (pensões, assistências, previdência) e devido à militarização da economia no contexto do novo conflito bélico mundial em fins dos anos 1930. Afinal, como diz o adágio popular: uma mão lava a outra.
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